Contra a Corrente

Sair da ‘Europa’ já, e viver com dignidade!

No livro de História de Angola (1482-1963) de Norberto Gonzaga lê-se, na página 281, a seguinte diretiva, de novembro de 1770, do Governador-Geral de Angola, D. Francisco de Sousa Coutinho:

«Ordeno que nenhum preto, nenhum pai ou mãe, tio ou parente, debaixo da pena de 500 açoites e de dois anos de galés possam oferecer, dar ou hipotecar algum filho ou parente, amigo ou qualquer outra pessoa livre, de um e outro sexo, em caução de dívida, em cuja pena incorrerão o preto ou mulato que a aceitar, e sendo branco o que a tal negociação admitir, será logo preso e condenado a trabalhar cinco anos nas obras públicas de Braga».

Naquele tempo, ainda o ‘liberalismo’ não se havia instituído como ideologia vencedora. Tão pouco Sousa Coutinho era um ‘liberal’; era uma pessoa da sua época, um humanista ou, no mínimo, com sentido cristão da Vida. Sim, porque ser liberal passou a ser, algum tempo depois e, reforçadamente hoje, no séc. XXI, o ‘cúmulo da Civilização’.

Uma civilização onde ‘fazer dinheiro a partir de dinheiro’ (cobrar juros), em vez de ser algo merecedor da maior censura (e proibição) como antigamente, por conter em si a possibilidade de escravização do ‘devedor’, passou a ser a Regra do Novo Deus Mercado; uma civilização de tipos coerentes, ‘libertados’ de qualquer responsabilidade social enquanto ‘tudo lhes corre bem’ mas que exigem do ‘Social’ o pagamento dos seus eventuais contratempos; uma civilização de ‘empresários’ que ‘correm riscos’ nos seus investimentos mas que só fazem negócios com ganhos garantidos pelo Estado, como as ‘parcerias público-privadas’, as autoestradas, etc., servindo-se até do Estado-Finanças para cobrar, mediante penhoras, as dívidas de utilizadores; uma civilização que submete à sua ‘racionalidade’ predadora a Natureza e os seres humanos, como meros objetos de exploração; uma civilização onde ‘pais, mães, tios e parentes’ entregam os filhos ainda não nascidos e, também, os já nascidos, como ‘caução de dívida’, como acontece atualmente com a dívida do Estado português. Se hoje, com o atual nível de dívida, quem agora nasça vai ter de ‘servir o capital’ até aos 40-50 anos, com a dívida futura (resultante da nova crise) vai ter uma condenação perpétua! Neste sentido, à luz das ordens de Sousa Coutinho, de 1770, não sei se o nosso governo devesse levar 500 açoites e passar dois anos nas galés ou ser logo preso e condenado a trabalhar cinco anos nas obras públicas em Braga…

O supra referido livro, de História de Angola, mostra bem como os nossos ‘parceiros europeus’ (principalmente holandeses, franceses, ingleses, espanhóis e alemães) passaram séculos a tramar-nos a vida, a roubar-nos, a tentar submeter-nos, em África, na Ásia, no Brasil e no nosso próprio território. O atual ‘projeto europeu’ é, como não podia deixar de ser, um projeto colonialista, dentro da própria Europa. Portugal é um país colonizado, dirigido por migueis de vasconcelos, destinado a servir de ‘zona de praias’ e de ‘petiscos típicos’ para os europeus ‘frugais-colonialistas’.

Os lucros cá gerados, a partir do trabalho dos portugueses, são exportados, limpinhos, para os seus ‘paraísos fiscais’; temos de lhes comprar até a nossa alimentação, através dos seus supermercados, como nas antigas ‘cantinas de África’; como nas nossas antigas colónias impúnhamos a outros, também agora não podemos cultivar as nossas próprias ‘machambas’ e somos obrigados às ‘culturas’ que convenham aos nossos colonizadores (o ‘turismo’, como a do algodão, e as indústrias de mão-de-obra barata, como a dos antigos engenhos de açúcar); eles compram-nos as casas, os terrenos, as paisagens e instalam-se cá ‘com benefícios fiscais’…

O nosso Governo está muito otimista quanto às medidas de sujeição de Portugal pela imperialista ‘União Europeia’. Eu, pelo contrário, proporia:

‘Sair da ‘Europa’ já, e Viver com Dignidade!

Desmascarar e Acabar com a Mentira Liberal!

Viver com base nos Nossos Próprios Recursos e do Nosso Trabalho!’.