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A discriminação das corridas de touros no desconfinamento

As touradas são espetáculos culturais e são, atualmente, os únicos eventos proibidos neste âmbito. Porquê?

Há desigualdades no desconfinamento que se explicam por razões relacionadas com a atividade, com a região e outras, até, por motivos económicos ou políticos. No entanto, a proibição de realização de corridas de touros tem como única justificação um preconceito e uma tentativa de imposição de gosto que são inaceitáveis.

Ainda no decurso da situação de calamidade, assistiu-se ao regresso da atividade de vários setores, como o comércio, feiras e mercados, a educação, cerimónias religiosas, ginásios, época balnear ou as mais diversas atividades culturais. Apesar dos riscos, a opção de retoma progressiva teve em conta fatores económicos e sociais.

No setor cultural todas as atividades foram retomadas. Museus, monumentos, bibliotecas, cinemas, teatros, auditórios e todos os espetáculos em salas puderam voltar a realizar-se, com uma única exceção: as corridas de touros.

A retoma da atividade no setor cultural, nomeadamente as salas de espetáculos foi objeto de diminuição das restrições inicialmente previstas na ocupação de lugares de forma a garantir a viabilidade do seu funcionamento. Aliás, pôde já observar-se o resultado prático destas limitações num espetáculo realizado na Praça de Touros do Campo Pequeno.

É precisamente a realização do evento no Campo Pequeno que torna evidente que não houve uma observação isenta na proibição imposta à realização de corridas de touros. Afinal qual a diferença entre a concentração de pessoas naquela praça de touros durante o referido espetáculo e durante uma tourada?

As touradas são espetáculos culturais e são, atualmente, os únicos eventos proibidos neste âmbito. Porquê?

Não existe nenhuma justificação objetiva que diferencie um espetáculo tauromáquico, impostas as mesmas limitações de lotação e demais restrições em face da covid-19, de um qualquer outro evento cultural num recinto. Restam razões de preconceito e de oposição às touradas para justificar o atual impedimento à sua realização.

Acresce o facto de as corridas de touros se realizarem essencialmente durante o verão o que, a manter-se esta interdição, significa a paragem da atividade durante um ano. Tal como noutras atividades, estão evolvidas muitas pessoas que encontram a sua subsistência nesta época e presentemente enfrentam graves dificuldades e prejuízos. Por outro lado, as corridas de touros têm um significado cultural relevante em muitas comunidades que assim são privadas de participar num evento que é parte da sua identidade.

A questão das touradas continua a ser polémica. Mas independentemente da opinião de cada um (mesmo dos decisores) a liberdade de manifestação cultural e o direito à cultura e à identidade devem prevalecer. A utilização deste período excecional para impedir esta realização cultural é inaceitável, tem de ser denunciada e terá de ser reposta a equidade para além de preconceitos ou de gostos.