Opiniao

A guerra interna no PS fez mossa na Saúde!

A região de Lisboa e Vale do Tejo (LVT) tem vindo a registar um crescendo alarmista e, como é evidente, começaram os ‘bombardeamentos’ tão característicos de ‘casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão’.

Há uns largos anos era fado, futebol e Fátima, o bendito triângulo entorpecedor do povo. Todos crescemos e aprendemos que num país quando a tormenta é imensa, o ideal é adormecer o povo. Assim, sem surpresa, em tempos de pandemia, face à profunda crise económica e, sobretudo, social que se avizinha, este regresso do futebol tem sido uma bênção para António Costa.
Multiplicam-se os programas de televisão, as guerras clubistas e, para sorte dos governantes, a crise do Benfica altamente impactante na opinião pública. Saber se Lage fica ou sai (já saiu) tem mais audiência que qualquer conferência de imprensa conjunta da DGS e ministra da Saúde. Também verdade seja dita que estas conferências foram perdendo brilho porque, para a audiência nacional, o importante passou a um perigoso quotidiano de ‘quantos covid são hoje?’. 
A região de Lisboa e Vale do Tejo (LVT) tem vindo a registar um crescendo alarmista e, como é evidente, começaram os ‘bombardeamentos’ tão característicos de ‘casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão’. Há uns tempos afirmei nestas colunas que precisávamos, em tempos de pandemia, de um Governo tecnocrático, liderado por Costa, mas formado pelos melhores ou mais reputados quadros nacionais em cada área.

Relembro aquela minha sugestão ao ouvir Medina na TVI, assumindo o palco das notícias e respondendo a Pedro Nuno Santos (PNS), ora em voga pelas fortes declarações na TAP. Complexas negociações com os privados, avanços e recuos diários, dúvidas sobre a sua nacionalização, afirmações reiteradas da importância nacional da TAP, entrecortadas com regionalismos nortenhos reivindicativos do serviço público que deve prestar, transportaram PNS para o mediatismo tão importante para quem quer suceder a Costa.
Assim, escassos dias após ter sido tornado público que Costa terá repreendido Marta Temido numa reunião de coordenação no Infarmed, Medina aproveitou a embalagem e veio a terreiro atacar a performance dos responsáveis da Saúde, no fundo dando razão ao meu argumentário. Como em política não acredito em coincidências, estes timings são, na minha opinião, ações bem coordenadas entre dois aliados no PS, antecipando a guerra interna de sucessão a Costa que se avizinha entre a ala moderada com Medina e a ala esquerdista com Pedro Nuno Santos (Duarte Cordeiro e Marta Temido).

Medina não foi parco em palavras. Considerou que «várias coisas correram mal» e defendeu que «quem não reconhece que há um problema, não tem capacidade para o resolver». Ainda acrescentou que «a população da zona de LVT ganhou uma errada perceção de segurança» o que fez com que os cuidados diminuíssem. Terminou com um recado bem direto: falhou quer a informação prestada pelas autoridades de saúde para apoio à decisão dos governantes quer a ação no terreno, que não foi «nem eficaz, nem atempada».
Apenas um detalhe: Medina esqueceu que também é o presidente da Área Metropolitana de Lisboa, pelo que lhe teria ficado bem também fazer um ‘mea-culpa’ no descalabro dos números na região de LVT. Entrando, por exemplo, no tema dos transportes, as imagens televisivas são elucidativas de que há muito por fazer neste setor. Bem o pode negar Marta Temido ao referir que os transportes não serão causa no agravar dos doentes na LVT retribuindo a PNS os elogios sobre a sua ação na Saúde. O seu azar é que PNS o reconhece ao referir que a CP não pode fazer melhor por escassez de meios (leia-se ‘investimento’). Já agora, poderia acrescentar que as prioridades nestes 5 anos de Governo foram outras, mas isso omitiu.

A mando de António Costa ou por sua iniciativa, perante a frieza dos números diariamente publicados, com graves impactos na recuperação económica como por exemplo em setores tão sensíveis como o Turismo, a verdade é que Medina tem razão – exceto numa coisa. As decisões desta natureza que implicam substituição de chefias não se anunciam, executam-se!
Lá está: a diferença entre quem está habituado a decidir e quem fala em vez de agir.

P.S. – No programa de RAP, Costa teve um deslize técnico sobre antibióticos e cura dos vírus para além de uma incursão evitável pela justiça. No entanto, sendo sobretudo um programa de humor, quero aqui referir que todo o programa foi um alto momento de televisão, bem divertido e com dois atores de elevado nível.