Sociedade

"Tivemos no Algarve estudantes que não tinham entrado em Medicina por décimas. Demos-lhe essa oportunidade"

José Ponte foi o primeiro diretor do curso de Medicina no Algarve, que admite candidatos já com outras licenciaturas. Fez a maior parte da carreira no Reino Unido, para onde regressou quando se jubilou em 2013. Aos 77 anos, continua ligado à faculdade e aos estudantes e acredita que a região está hoje melhor preparada para lidar com a pandemia. Quando lá chegou, em 2008, tinha ‘terror’ de ir parar aos cuidados intensivos.

Soube-se esta semana que não houve candidatos para as 60 vagas para médicos que habitualmente abrem no verão no Algarve. Fazem sentido estes concursos todos os anos? 

O Algarve tem picos de afluência em que é preciso reforçar equipas. Este ano haverá menos turistas, mas por causa da pandemia pode ser necessário. O que me parece é que mais que pedir médicos, é preciso poder escolher os médicos. Já o disse em público: os médicos não são todos iguais e às vezes quando as pessoas não são bem escolhidas é mais perigoso ir ao médico do que ficar em casa. Quando se diz abrir vagas ou reforçar equipas, se forem médicos não diferenciados, pessoas que não conseguem arranjar emprego em mais lado nenhum, se calhar é melhor ficarem onde estão. Se forem médicos especialistas será diferente.
 

Sem reforço, os hospitais acabam a recorrer a tarefeiros. Não existe esse mesmo risco?

Mas pelo menos podem escolher as pessoas. E há tarefeiros que são habitués. O problema do Algarve é um problema crónico que há-de resolver-se, mas leva tempo. A nossa escola tem contribuído para isso: quase todos os médicos formados no Algarve, entre seis a sete em cada dez, ficam no Algarve. E os mesmos sete em cada dez vêm do Norte. 

O curso de medicina no Algarve abriu há 11 anos. Um dos objetivos era aumentar a fixação de médicos na região. É positivo, então, o balanço.

Sim, continuo a participar em reuniões e a fazer algumas tutorias. Temos essa fixação e também uma proporção grande de médicos a escolher medicina geral e familiar, o que também é um bom resultado. Não nos devemos esquecer de que mais de 90% dos encontros entre médicos e doentes acontecem na medicina familiar, só uma pequena percentagem precisa de ir a um especialista. Os médicos de medicina geral e familiar até devem fazer essa triagem. Em Portugal é diferente, mas aqui no Reino Unido não se consegue ir a um médico especialista sem se ser mandado por um médico de família, mesmo para ir ao especialista privado pelo seguro. Mas voltando aos nossos estudantes: quando a pandemia começou, voluntariaram-se todos, fizeram um trabalho fantástico. Fizeram trabalho de campo a informar as pessoas, montaram uma linha telefónica, a professora Isabel Palmeirim, diretora do curso, pôs o laboratório da dela a fazer os testes PCR. Quando se acabou o meio das zaragatoas, o líquido que está no tubo, fez o meio ela própria. Formou-se uma firma de ex-alunos na universidade para fazer zaragatoas. Não aconteceu nada que se parecesse com isto em nenhuma das outras escolas médicas.

Na vertente da prestação de cuidados, pensa que já há algum reflexo do curso? 
Todos os anos se percebe que faltam recursos, nomeadamente algumas especialidades.Quando abrimos o curso, disse na altura que ia demorar pelo menos 20 anos até haver uma mudança visível na medicina algarvia. Já começam a acontecer coisas. Um ano ou dois depois de me ter jubilado ouvi duas senhoras a falar de saúde, como é costume, a dizer que ‘os médicos novinhos são muito bonzinhos: dizem-nos o nome deles e pedem-nos licença para mexer na gente.’ São mudanças. Não digo todos os médicos, mas uma maioria dos médicos não se apresentava, não pediam licença, de tal maneira que as pessoas se queixavam disso. Ter um centro académico também nos permitiu atrair mais alguns especialistas, não muitos. É sempre preciso pedir autorização e fazer dinheiro para contratar. Mas houve outras coisas que entretanto mudaram. Quando cheguei ao Algarve tinha terror de ir parar aos cuidados intensivos. A qualidade era péssima.

Em 2008?

Sim, e até 2012. Usavam-se lá métodos da década de 60. É a minha especialidade. Há drogas, relaxantes musculares, que paralisam a pessoa mas não apagam a consciência. Era algo que no início dos cuidados intensivos se fazia, quando as pessoas estavam, por exemplo, nos ventiladores de que agora toda a gente fala, mas a prática mudou. Até 2012 não tinha chegado ao Algarve. Tinha terror de ter de ir lá parar, ter um acidente de automóvel e ser sujeito àquele tratamento. Depois veio uma colega do Porto, e agora uma colega canadiana, excelentes intensivistas, que mudaram completamente as coisas. Já não tenho medo de ir para os cuidados intensivos do Algarve. E este é o ponto: tínhamos lá intensivos, médicos e ventiladores, e qual era a qualidade dos cuidados lá prestados?

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"Tivemos no Algarve  estudantes que não tinham entrado em Medicina por umas décimas. Demos-lhe essa oportunidade"

 

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