O mundo em Calções

E ainda assim eles morrem...

Seja em que universo for, o Churchill-Vasco da Gama é o jogo dos jogos. Aquele que nunca ninguém devia perder...

Vinicius de Moraes foi, e ainda é, uma fonte inesgotável de frases tão formidandas como inesquecíveis. Embora tenha deixado de beber whisky há muitos anos, gosto particularmente desta: «Amai e bebei uísque. Não digo que bebais em quantidades federais, mas quatro, cinco uísques por dia nunca fizeram mal a ninguém. Amai, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido. Mas sobretudo não morrais, amigos meus!». Claro que o imperativo negativo do verbo morrer atribui a toda a construção um toque de requinte próprio do poeta que ele sempre foi. Mas, como devem calcular, a expressão não caiu do céu aos borbotões. Por detrás desta frase belíssima, há um texto igualmente belo: Amigos Meus, saído de Para Uma Menina Com Uma Flor. Se havia algo de que Vinicius gostava tanto como amigos era de meninas, com flores ou sem elas. Por isso, despetalava-as... «Rosa prá se ver/Prá se admirar/Rosa prá crescer/Rosa prá brotar/Rosa prá viver/Rosa prá se amar/Rosa prá colher/E despetalar...». Decorei as posições na viola ao ver o velho mano Luís Peran a desembrulhá-las num instrumento desafinado no quarto do meu primo Pedro, em Águeda, em tempos tão distantes que nem consigo contá-los em anos. De vez em quando repito-as, também eu desafinado: «Rosa prá dormir/Rosa prá acordar/Rosa prá sorrir/Rosa prá chorar/Rosa prá partir/Rosa prá ficar/E se ter mais uma Rosa mulher...». Sim, eu sei que desafino. Na viola e na vida. Estou farto de desafinar na vida, com todo o sofrimento que isso acarreta para os que me são próximos, mas como os desafinados também têm coração atiro as culpas para as batidas irregulares do miocárdio. Eles que me desculpem, se estiverem para isso, ou não, se não estiverem. Os dias não se esgotam nas pautas que não sei ler.

Ah, meus amigos, não vos deixeis morrer assim...», dizia o Vinicius. E tenho a certeza de que Galileu lhe responderia, irritado contra o fascismo do universo: «Eppur si muoiano».

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