Viver para contar

Uma ideia a considerar

Se estamos a reescrever a História, então temos de rescrevê-la toda. Não podemos limpar uma época e deixar as outras intactas

Um destes dias recebi uma petição redigida e posta a circular por um senhor que dizia ter 43 anos e ser professor de História, dando aulas sobre o Estado Novo. A ideia da petição era criar uma lei no sentido de abolir o nome de Salazar de todas as ruas e espaços públicos do país. 
Sinceramente pensei que esse trabalho já estivesse feito. Desde que trocaram o nome da ponte sobre o Tejo, em Lisboa, de Ponte Salazar para Ponte 25 de Abril, supus que outras obras de menor monta, além de praças, ruas, travessas, becos, etc., também tivessem mudado de nome. Pelos vistos não mudaram. Ou então o senhor está mal informado.

Averdade é que também não haveria muita coisa para mudar, pois Salazar sempre foi avesso a que usassem o seu nome ou imagem em obras públicas. Veja-se o número de estátuas de Salazar que havia por Portugal fora no 25 de Abril e compare-se, por exemplo, com o que existia na nossa vizinha Espanha no tempo de Franco. Para já não falar na Itália fascista, na Rússia soviética ou na China maoista. Ou na atual Coreia do Norte, onde a figura do líder bem amado está bem visível ao virar de cada esquina.
O senhor da petição deve, aliás, ter conhecimento, entre outros documentos, de uma carta de Salazar a Thomaz no sentido de não ser dado o seu nome à ponte sobre o Tejo – dizendo que isso pouparia aos vindouros a maçada de o mudarem… 

Mas o que mais me impressionou na petição não foi o seu conteúdo mas o facto de partir de um professor de História. Se o homem quer eliminar o nome de Salazar de tudo o que é espaço público, como se ele não tivesse existido, imagine-se a isenção com que ensinará a história dessa época. É de admitir que tudo aquilo que possa ser entendido como favorável ao salazarismo ele omita: o ‘milagre’ financeiro de Salazar, o não envolvimento de Portugal na 2.ª Guerra Mundial, o enorme conjunto de obras públicas, as políticas sociais, etc.
No texto que sustenta a petição, o senhor diz-se um ‘democrata’ e a sua iniciativa pretende impedir que se celebre a figura de um ‘ditador’. Adianta, porém, que é contra o derrube de estátuas. 
Ora, a lógica de apagar nomes de pessoas das ruas não será a mesma de deitar estátuas abaixo? Não se enquadra tudo na vontade de limpar o passado das figuras que consideramos ‘más’? 

Oproblema é que, se iniciarmos essa campanha, há muito trabalho a fazer. Para limpar ‘ditadores’, deveríamos começar pela Rotunda e apear o Marquês de Pombal do alto do seu imponente pedestal; e acabar na Praça do Comércio, retirando do centro a estátua equestre de D. José.
E depois, um pouco mais acima – no alto do Chiado – seria de deitar abaixo a estátua de Camões, que cantou o Império; e, indo até Belém, desmantelar a de Afonso de Albuquerque, implacável vice-rei das Índias; não esquecendo, claro, o Padrão dos Descobrimentos, símbolo maior da nossa gesta descobridora e colonizadora. E isto para não falar do Mosteiro dos Jerónimos e da vizinha Torre de Belém, tudo muito ligado ao nosso passado colonial. 

Mas, se pensarmos bem, deveríamos ir mais longe e mais fundo. A verdade é que, andavam os árabes pacatamente por aqui a fazer o seu artesanato e a cultivar os seus pedaços de terreno, e veio D. Afonso Henriques importuná-los e expulsá-los a golpes de espada, enviando-os de volta às suas terras. Como se não tivessem o direito de estar cá. 
E que dizer das cruzadas, que tinham por objetivo matar ‘infiéis’ no seu próprio território, isto é, eliminar um povo pelo facto de ser de outra raça e ter outra religião? 

Nesta perspetiva, D. Afonso Henriques devia ser execrado. E, se isso fosse feito, ficaria posta em causa a própria existência de Portugal. 
Se estamos a reescrever a História, então temos de rescrevê-la toda. Não podemos limpar uma época e deixar as outras intactas, como estão. Se D. Afonso Henriques não tivesse existido, não existiriam descobrimentos, nem colonialismo, nem escravatura, nem pombalismo, nem salazarismo, nem guerra colonial. Não seria preciso profanar as estátuas dos navegadores ou dos evangelizadores, dos colonialistas e dos negreiros de todos os tempos, dos racistas do passado e da atualidade.
Apeando Afonso Henriques, a história de Portugal apaga-se. Todo o mal que aconteceu a partir daí desaparece. Ficamos limpos de pecados.