Economia

Desemprego: a guerra dos números

Número de desempregados subiu 37% em julho e chegou aos 407 mil, mas valor não bate certo com os que têm sido divulgados pelo INE. Eugénio Rosa já tinha alertado para a perda de 1.500 empregos por dia que têm sido ‘escondidos’.

Este verão está a ser atípico também em matéria de emprego. Julho é tradicionalmente uma altura em que o número de ofertas dispara, principalmente no setor do turismo, mas a pandemia trocou as voltas a esta atividade e o número de inscritos no centro de emprego cresceu 37% face a igual período do ano passado. 

De acordo com os dados divulgados pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), o número de desempregados inscritos nos centros de emprego ultrapassou os 407 mil portugueses, até final de julho. «No fim do mês de julho estavam registados 407.302 indivíduos desempregados, número que representa 74,5% de um total de 546.846 pedidos de emprego», diz o IEFP.

Feitas as contas, estes números representam um aumento de mais 110 mil desempregados inscritos face ao mesmo período de 2019, mas em comparação com junho, o aumento foi de 0,2%, ou seja, mais 637 desempregados inscritos. «Para o aumento do desemprego registado face ao mês homólogo de 2019 contribuíram todos os grupos do ficheiro de desempregados, com destaque para as mulheres, os adultos com idades iguais ou superiores a 25 anos, os inscritos há menos de um ano, os que procuravam novo emprego e os que possuem como habilitação escolar o secundário», explicou o organismo.

Um número bem superior ao que foi divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), que revelou que no segundo semestre, a população desempregada diminuiu de 348,1 mil para 278,4 mil, ou seja, em 69.700 pessoas. Contas que fizeram soar alarmes junto de Eugénio Rosa. Ao i, o economista já tinha garantido que, em apenas três meses, tinham sido destruídos 135 mil empregos, o que dá uma média de 1.500 empregos por dia. «É um verdadeiro ‘milagre’ realizado pelo INE. São destruídos 135 mil postos de trabalho e, portanto, 135 mil perdem o emprego. No entanto, o ‘desemprego oficial’ calculado pelo INE , no lugar de aumentar nesse período, até diminuiu em 69.700».

O economista foi mais longe, ao garantir que «a ocultação da realidade é tão grosseira que é evidente que a metodologia utilizada pelo INE para determinar o número de desempregados não permite conhecer a realidade do desemprego no nosso país», e que os dados do gabinete de estatística «não traduzem a realidade».

Este cenário levou Eugénio Rosa a questionar a ‘engenharia’ utilizada pelo INE para reduzir o desemprego oficial e assim «ocultar a verdadeira e dramática situação do ‘desemprego real’ em Portugal». No entender do economista, o gabinete de estatística está a considerar como não desempregados todos os trabalhadores desempregados que não procuraram emprego no período em que foi realizado o inquérito e que designa por ‘inativos disponíveis’.

E lembra que este grupo entre o primeiro e o segundo trimestre aumentou de 166,4 mil para 312,1 mil, mais 87,6%. «Se adicionarmos os inativos disponíveis ao desemprego oficial obtemos, para o primeiro trimestre, 514.500 desempregados, e, para o segundo, 590,5 mil (+76 mil), portanto um ‘desemprego real’ muito superior ao ‘desemprego oficial’ do INE». O economista diz ainda que se forem comparados os valores de 31 de março com os de 30 de junho, as conclusões são muito mais graves. «Segundo estimativas mensais de emprego do INE, entre esse período, a população empregada diminuiu de 4,812 milhões para 4,658 milhões (-154,5 mil), enquanto o desemprego oficial aumentou de 317,2 mil para 350,9 mil (+33,7 mil), mas o desemprego real subiu de 497,2 mil para 632,5 mil (+135,3 mil)».

Raio-x
Segundo os dados do IEFP, a nível regional, o desemprego aumentou «na generalidade das regiões», com exceção para a região autónoma dos Açores. A subida percentual mais acentuada deu-se no Algarve – foi de 216,1% face a igual mês de 2019, o que equivale a mais 15.621 desempregados. Segue-se Lisboa e Vale do Tejo, com um aumento de 51,6% (mais 46.036) e o Alentejo, que viu o número de inscritos nos centros de emprego subir 28,9% (mais 4.039).
 A região Centro registou uma subida de 26,2% (mais 10.641 desempregados) e o Norte registou um crescimento de 24,5% (mais 30.421 inscritos).

Em termos percentuais, a atividade do ‘alojamento, restauração e similares’, uma das mais afetadas pela pandemia, foi a que viu o desemprego mais subir em julho face ao mesmo mês do ano passado — uma subida de 96,7%, ou seja, mais 20.714 desempregados inscritos nos centros de emprego. No entanto, face a junho, houve uma recuperação — o número de inscritos nesta atividade caiu 3,5%.

Entre as que viram o desemprego agravar-se mais em julho face ao mesmo mês de 2019 estão ainda as atividades de ‘transportes e armazenagem’ (mais 70,6%) e ‘indústria do couro e dos produtos do couro’ (mais 61,8%).

Já o desemprego jovem subiu 58% face julho de 2019, mas recuou 0,3% em relação a junho. Também o número de casais com ambos os elementos inscritos nos centros de emprego aumentou 22% em julho face ao mesmo mês de 2019, para 6.560, mas menos 0,8% (-50 casais) em relação ao mês anterior.

Recorde-se que os casais nesta situação de duplo desemprego têm direito a uma majoração de 10% do valor da prestação de subsídio de desemprego que se encontrem a receber, quando tenham dependentes a cargo.
Henrique Tomé, analista da XTB, lembra que a recuperação do número de inscritos no centro de emprego irá depender do consumo, «que será a fonte principal para estimular a economia, para que as empresas possam retomar a normalidade e repor os postos de trabalho e/ou, eventualmente, contratar nova mão-de-obra».

Também Ricardo Evangelista afirma que existem ainda muitas incertezas e os efeitos da pandemia continuam a ser sentidos, tanto ao nível do investimento das empresas como dos gastos das famílias. Face a esse cenário, defende que é «normal que a recuperação no mercado laboral, em termos homólogos relativamente ao ano anterior, não esteja para já a ocorrer. Para que tal aconteça, será necessário que a incerteza diminua, em Portugal e no resto do mundo, já que somos uma economia aberta e, portanto, fortemente dependente das exportações e do turismo». E lembra que «não nos podemos esquecer de que a contração económica foi a maior de sempre e afetou todos os setores de forma transversal, o que dificulta uma rápida recuperação».