Opiniao

A cidade e o jardineiro chique...

A Torre dos Clérigos, a Livraria Lello, o Majestic, o Guarany, as escadas rotas das Congostas, as ilhas de S. Victor, as colmeias da rua do Sol, os velhos pátios da Ribeira Negra, as Fontainhas, a marginal, as pontes, a Cantareira e o Farol foram invadidos por turistas, milhares de turistas que aguardavam pela selfie, por um registo.

Fernando Matos Rodrigues, Antropólogo, CICS.Nova_UM/LAHB

Havia um jardineiro na minha cidade que acreditou um dia fazer da sua cidade uma Barcelona do Atlântico. Para isso tudo pensou e programou em função dessa receita milagrosa. Fez do seu Teatro Municipal um Jardim do Futuro, por onde passaram luminárias, pensadores, artistas, comediantes, dançarinos, mágicos, gente importante a falar a língua do Tio Sam para satisfação dos indígenas locais.

As suas ruas e praças transformaram-se em palcos de luz e de música tipo Las Vegas. A cidade do centro encheu-se de gentes e de movimentos, de tascas e restaurantes chiques, de esplanadas, de falas que nos lembravam outros mundos e outras terras, por onde esta multidão de estranhos deambulava pela noite. O Porto era um paraíso global para espíritos ávidos de olhar, de consumir sexo, de beber, de circular por entre fachadas repintadas e bem adornadas por plantas de plástico. 

As suas ilhas, os seus bairros, onde resistia um porto antigo e de sabor tripeiro, foram invadidos por pequenos hotéis – e os seus moradores viram-se atirados para fora da sua cidade. Transformaram-se em não-lugares, que possibilitaram a construção de jardins paradisíacos sobre as escarpas do Douro. As ruas foram perdendo a sua alma e o seu fio de vida. Cada vez mais o vazio e a monotonia do turismo ocupavam a cidade, como uma espécie de mancha de óleo.

Se a cidade se esvaziava de suas gentes, por outro lado estava cada vez mais cheia, a abarrotar de turistas, de homens e mulheres que desaguavam no centro do velho Porto. Assistíamos à privatização das ruas, das praças, dos largos, das casas. E tudo aquilo que era nosso, que era de uso público e coletivo, passou a ser de uso turístico e negócio lucrativo para fundos internacionais.

Tudo corria às mil maravilhas. O futuro era lindo e promissor. Todos os dias abriam novos e belos restaurantes, com gente bonita à porta, as mesas postas segundo a etiqueta. Os clientes em fila aguardavam pelo pantagruélico repasto. O Porto velho e sujo, antigo e desarrumado, dava lugar a um Porto limpo, higienizado, mais arrumado e artificial. As ruas foram perdendo o seu cheiro, a sua identidade, a sua alma. O seu corpo original deu lugar ao perfume de uma cidade ‘nova’ à imagem da Barcelona superstar. Estávamos perante a criação genial da marca PortoPonto. E afirmava-se que nada seria como dantes. 

As pessoas chegavam e partiam no mesmo dia, no mesmo avião; tiravam-se as mesmas selfies, faziam-se os mesmos gestos, diziam-se as mesmas palavras, visitavam-se os mesmos lugares.

A Torre dos Clérigos, a Livraria Lello, o Majestic, o Guarany, as escadas rotas das Congostas, as ilhas de S. Victor, as colmeias da rua do Sol, os velhos pátios da Ribeira Negra, as Fontainhas, a marginal, as pontes, a Cantareira e o Farol foram invadidos por turistas, milhares de turistas que aguardavam pela selfie, por um registo. A prova da visita que se quer divulgar num direto para os amigos e os estranhos dos amigos observarem a milhares de quilómetros de distância.

Era tudo tão fácil, tão linear, tão mecânico, tão promissor, que nada fazia supor que um dia um bicho careta, com um nome estranho e rude (covid-19), pudesse destruir a nossa felicidade.

A cidade tomada pelo bicho fechou as portas, levantou cercas, construiu muros sanitários e confinou. Veio o medo do outro, o medo de estar em público. Os turistas abandonaram a cidade, o teatro e a música. A arte e a cultura afinal deixaram de ser essenciais e passaram para uma situação de não-necessidade.

Os artistas, os criadores, os homens da cultura e da arte pública ficaram sem direito à vida e ao trabalho. Resignados e ignorados, lá foram lutando pela sua vida.

O jardineiro, assustado e deprimido, desapareceu, mergulhou na sua torre de marfim, lá para os lados da Foz. A sua cidade estava confinada, paralisada e higienizada. Os turistas não vieram e os restaurantes fecharam. As ruas ficaram desertas e sem vida. A cidade temática, cercada pelo desânimo, resignou-se e fechou as portas. 

Com o passar do tempo, o jardineiro-mor lá ganhou coragem e abandonou a sua torre, mas na sua teimosia provinciana lá continuava a acreditar que é possível encher a cidade com ciclovias, transformando as ruas em jardins de betão, onde mandou pintar linhas e círculos de cores fortes e vivas, onde se depositam vasos de árvores tristes e melancólicas, como se a cidade fosse uma espécie de salão velho em que o vazio da morte dos senhores donatários pudesse ser preenchido por vasos de plantas.

As poucas pessoas que por lá passam parecem sonâmbulos a esgravatar no fio do tempo e do espaço. Almas desencontradas que caminham por entre fachadas de ruas desertas de vida social e económica, mas cintilantes na sua forma e estilo. 

Infelizmente, o jardineiro continua a fazer fé cega no mercado como entidade divina na regulação dos usos da sua cidade.