Hoje Escrevo Eu

As pedras e os telhados de vidro

Rui Rio foi muito aplaudido por ter separado a cidade e a edilidade do FC Porto, mas quase todos se esquecem que é adepto confesso do Boavista e que teve como chefe de gabinete na Câmara portuense Manuel Pinto Teixeira – investigado no Apito Dourado juntamente com o então presidente do Boavista, João Loureiro.

António Costa e Fernando Medina não deviam meter-se nas querelas do futebol. Como nenhum político, titular de cargo público, magistrado – judicial ou do Ministério Público – ou jornalista devia tomar posição pública a favor de um clube ou de um dirigente em detrimento de outros ou de todos os outros.

Se isso é certo, menos certo não é que são inúmeros os exemplos de maior ou menor envolvimento dos principais e atuais líderes políticos, além de outros titulares de cargos públicos, magistrados e jornalistas.
Em todos os clubes. Sem exceção.

Há um par de anos, quando Bruno Carvalho era presidente do Sporting e se deu o ataque à Academia, o presidente da Assembleia da República desferiu-lhe fortíssimas críticas e defendeu que as autoridades judiciárias deviam investigar os dirigentes desportivos como investigam os políticos. Bruno de Carvalho, como se sabe, foi absolvido. Ferro Rodrigues falou na ‘condição’ de ‘sportinguista com mais de 65 anos de sócio’. Tirando o próprio Bruno de Carvalho, ninguém achou coisa alguma sobre a intervenção do presidente do Parlamento, que é a segunda figura do Estado.

Rui Rio foi muito aplaudido por ter separado a cidade e a edilidade do FC Porto, mas quase todos se esquecem que é adepto confesso do Boavista e que teve como chefe de gabinete na Câmara portuense Manuel Pinto Teixeira – investigado no Apito Dourado juntamente com o então presidente do Boavista, João Loureiro.

E, se Rio estava certo, por que razão agora ninguém critica que a cada título conquistado a equipa vencedora seja recebida nos Paços do Concelho da terra?

Ramalho Eanes, ex-Presidente da República cuja honestidade está acima de qualquer suspeita, nunca escondeu a sua ligação ao FC Porto, nem isso o impediu de tornar comendador um dos principais financiadores do clube liderado por Pinto da Costa.

Como Jorge Sampaio também sempre fez gala em afirmar o seu sportinguismo ou Marcelo Rebelo de Sousa a sua preferência pelo Sporting de Braga (tendo sido da comissão de honra da candidatura de António Salvador – ainda que tenha recusado voltar a sê-lo quando já estava em Belém).

O envolvimento no futebol e na vida interna dos clubes de políticos e titulares de cargos públicos, como de magistrados judiciais ou do Ministério Público ou de comentadores ditos ‘independentes’ ou jornalistas vai contra os códigos de conduta, deontológicos ou as regras que hoje orientam tanto cargos políticos como públicos ou até corporativos.
Mas sempre houve inúmeros exemplos de envolvimento, maior ou menor, sobretudo nos considerados ‘clubes grandes’ do futebol nacional.

É uma questão de ‘clubite’ e paixão clubística, que tem muito mais de emotivo e irracional do que outra coisa qualquer.
Muitos benfiquistas que hoje defendem não haver mal algum no facto de António Costa e Fernando Medina pertencerem à comissão de recandidatura de Luís Filipe Vieira são os mesmos que há ainda bem poucos meses condenavam a entrada de Rui Moreira (presidente da Câmara do Porto) e de Eduardo Vítor (presidente da Câmara de Gaia) nas listas de candidatos aos órgãos sociais do FC Porto encabeçadas por Jorge Nuno Pinto da Costa.

Por outro lado, valeria a pena ver as ‘casas’ dos três grandes na Assembleia da República, para se perceber que não há partido (talvez o PAN ou a IL, mas não posso assegurar) sem telhados de vidro.

Que sentido podem fazer as críticas de André Ventura a António Costa – ele que, já líder do Chega, continuou a ser um dos acérrimos defensores do clube encarnado naqueles programas televisivos de comentário (ou combate) entre adeptos dos ‘três grandes’?

Ou os ataques de Francisco Rodrigues dos Santos, líder do CDS, quando tem como vice-presidente do partido um vice-presidente do Benfica, Sílvio Cervan, e como líder parlamentar um não menos fervoroso benfiquista, Telmo Correia, também ele  ‘engajado’ nos mesmos ditos programas?

Programas onde, aliás, figuram ex-diretores e membros de direções de jornais de referência, enquanto adeptos confessos dos ‘três grandes’.

Como, aliás, é frequente ver nos órgãos sociais do FC Porto, do Benfica e do Sporting, não só políticos, no ativo ou já fora dele, como magistrados, comentadores e jornalistas que nunca souberam manter distanciamento do mundo irracional do futebol.

Costa e Medina não estiveram bem. Mas o rol de críticos e de críticas que se levantou também não tem justificação. Principalmente porque da promiscuidade entre o futebol e a política, entre o futebol e os mais diversos poderes da sociedade, como entre o futebol e o jornalismo, não faltam telhados de vidro àqueles que, mesmo assim, não se inibem de atirar pedras. 

Talvez porque são cada vez menos os que resistem ao populismo. 

Talvez porque estamos em vésperas de eleições no Benfica e, diga-se o que se disser, só Luís Filipe Vieira conseguiu recolocar o Benfica no patamar a que Jorge Nuno Pinto da Costa guindou o FC Porto.

E retirar todos os políticos da comissão de honra da sua recandidatura foi, sem dúvida, a forma mais certeira – ‘à Pinto da Costa’ – de pôr uma pedra sobre o assunto.