Sociedade

Epidemia menos controlada no Norte

Autoridade de saúde do Vale do Sousa Norte foi a primeira a lançar alerta para “preocupante transmissão comunitária”. Norte poderá passar esta semana os 2000 casos diários e situação vai agravar-se em todo o país.

O alerta foi emitido este sábado à população dos concelhos de Felgueiras, Lousada e Paços de Ferreira. De acordo com as autoridades de saúde locais do Agrupamento de Centros de Saúde do Tâmega iii – Vale do Sousa Norte, vive-se agora uma “preocupante transmissão comunitária ativa”. O apelo foi para redobrar cuidados, evitar quaisquer ajuntamentos familiares e para, em caso de sintomas, ficar em casa e estabelecer contacto com os centros dedicados à covid-19 na região. Foram fornecidos contactos diretos, e não o encaminhamento para o SNS24.

Em declarações à SIC, a delegada de saúde local, Ana Rita Gomes, pediu à população nessas circunstâncias que se mantivesse calma, assumindo que neste momento há dificuldade em responder. A evolução da epidemia no Norte do país tem vindo a gerar forte preocupação nos últimos dias. Se as autoridades de saúde deste ACES foram as primeiras a alertar para a transmissão comunitária – uma situação em que já não se identificam apenas surtos e focos mais contidos –, a ideia de que a epidemia tem vindo a ficar cada vez mais disseminada já era uma constatação nos hospitais na semana passada.

Ao SOL, o responsável pela gestão do serviço de urgência e medicina intensiva do Hospital de São João sublinhou que, neste momento, esse é o fator mais preocupante, além do aumento da afluência de doentes e de internamentos em cuidados intensivos, que duplicaram no espaço de uma semana: “Está por todo o lado, quase não conseguimos identificar os surtos. A sensação é que as coisas estão de tal forma disseminadas que não há surtos. Quase toda a gente conhece alguém que está infetado ou em quarentena, o que é significativamente diferente do que aconteceu na primeira onda”, alertou Nélson Pereira.

Norte pode passar os 2000 casos diários Apesar do número mais baixo de casos notificados no fim de semana, as projeções dos especialistas indicam que a situação deverá agravar-se na próxima semana em termos de pressão sobre os serviços de saúde. O último cálculo do Instituto Ricardo Jorge situa o RT a nível nacional em 1,27, o valor mais elevado desde o final de março. No Norte subiu para 1,36. Óscar Felgueiras, matemático especialista em epidemiologia da Universidade do Porto, admitiu ao SOL que na última semana se viveu um crescimento explosivo na região Norte, que duplicou o número de casos pata o patamar dos mil casos diários. Nesta semana, as projeções indicam que poderão passar os 2000 casos diários, havendo algum abrandamento do crescimento nos últimos dias, o que afasta o cenário de se chegar rapidamente aos 3000. Ainda assim, os casos vão continuar a aumentar, bem como a pressão nos serviços de saúde. “Mantendo-se o ritmo da semana anterior, seria um crescimento insustentável”, diz o investigador.

“Com estes valores de R, é impossível o número de casos começar a diminuir. É mesmo uma impossibilidade matemática e epidemiológica”, sublinhou ao i Carlos Antunes, investigador da equipa de Manuel Carmo Gomes na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, um dos peritos habitualmente ouvidos pelo Governo. Ainda que os casos possam não bater recordes esta segunda-feira, em reflexo das notificações feitas ao domingo, a partir de terça-feira a situação deverá agravar-se. O investigador estima nesta altura que o país atinja uma média de 3000 casos diários até ao final de outubro – uns dias mais e outros menos, tratando-se este valor da média a sete dias – e que o número de infeções continue então a subir para o patamar dos 3500 casos diários em média, o que vai exigir maior capacidade de deteção e acompanhamento de doentes.

O investigador alertou também para o efeito do mau tempo que se vai sentir esta semana em todo o país, previsão meteorológica que ontem motivou alertas da Proteção Civil. “De terça a quinta-feira vai chover bem, o IPMA já alertou para isso. As pessoas vão-se confinar no interior, os espaços fechados vão ser mais utilizados, por exemplo nos almoços no local de trabalho, nas universidades. Se não houver a atitude de as pessoas almoçarem isoladas, a adaptação de levarem o almoço de casa e comerem no seu gabinete, por exemplo, o tempo vai-nos empurrar para haver mais contacto e mais contágio”, explica. “E, portanto, se não houver reforço das equipas e a meteorologia continuar desfavorável, vai favorecer a propagação”.

O i tentou perceber com a Administração Regional de Saúde do Norte se, dada a existência de transmissão comunitária nos concelhos de Felgueiras, Lousada e Paços de Ferreira, será proposta alguma medida adicional nestes concelhos, nomeadamente a passagem a um modelo de ensino misto, mas não teve resposta. Durante o fim de semana, a SIC adiantou que a ARS está já a estabelecer contactos com hospitais privados para reforçar a capacidade de resposta aos doentes. Também questionada, a DGS e o Ministério da Saúde não adiantaram se serão tomadas medidas adicionais.

“Falta liderança operacional” Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, considera a evolução de casos no país muito preocupante e alerta que as equipas de saúde pública estão no limite da exaustão. “Alguns, provavelmente, nem deviam já estar a trabalhar”, diz. O médico lembra que os pedidos de reforços, que entretanto vão passar pelo recrutamento de estudantes de cursos de saúde, foram feitos há muitos meses. “As chamas podem estar mais intensas em Paços de Ferreira, mas o resto da região e do país não está muito melhor”, alerta Ricardo Mexia. “Foram muitos meses para planear uma resposta, montar o sistema e recrutar as pessoas, e em relação ao dia 1 de abril chegamos aqui sem estarmos muito diferentes. Temos os profissionais mais desgastados, a população mais saturada”, diz. “Confesso que não esperava que a pressão que está a haver chegasse tão cedo, não é um cenário bem encaminhado”, diz, defendendo que está a faltar “gestão operacional” no terreno. “Não vai ninguém ao volante”, conclui.