Opiniao

Em defesa do interesse comum

O espaço público em Portugal tem-se tornado, em muitos aspetos, um campo de batalha dos extremos, que cercam a capacidade de intervenção dos cidadãos, ocupando cada vez mais espaço e tempo. 

por Francisco Rocha Gonçalves
Vice-Presidente da Câmara Municipal de Oeiras

Escrevi já, aqui mesmo, sobre como esta tenaz está cada vez mais apertada e acaba por dominar o debate político e condicioná-lo. Argumentei, também, que estas iniciativas de polarização das sociedades acabam por ser venenosas para as comunidades, porque criam fraturas quando estas não existem e exacerbam quaisquer divisões que subsistam, deixando à velha normalidade da discussão serena dos assuntos de interesse comum um campo estreito de existência, que arrisca, como nos leitos de cheia, a submergir sempre que chove.

Caricaturo os polos radicais que guerreiam pelo nosso espaço como uma batalha entre os herdeiros dos tempos das cavernas e os construtores de mundos próprios inexistentes. Não se iludam, porque esta peleja entre o fundo da caverna e o “homem novo” em construção é um braço de ferro de monólitos, com iguais densidades e características nefastas, ainda que de materiais diferentes.

Este tempo em que o acesso ao espaço público se democratizou e a excentricidade das posições destas tribos extremadas faz com que tenham mais do que um quinhão razoável de atenção mediática, certamente muito além dos 15 minutos de fama referidos por Warhol, quem perde é o debate público.

Aprenderam que o berro, a insistência ilimitada e o bullying político e social colhem dividendos, até porque, quando se grita, impede-se que os outros sejam ouvidos. A exaltação tornou-se arma política. Não interessa o que se diz, interessa como se diz. Não interessa se nos estamos a contradizer, interessa que o digamos com convicção, alto e bom som, com insistência, sem vacilar. Trocámos o diálogo pela altercação, valores por aparências, coerência por truculência.

Assistimos à manifestação dos extremos nesta vivência da pandemia, porque o processo faz escola. Numa situação única, em que não existe conhecimento, planos prévios ou soluções testadas, em que vemos a ciência a desenrolar-se no circo mediático, com todos os erros e contradições naturais até se encontrarem os caminhos certos, enquanto tudo isto acontece, nunca tivemos tanta gente com tantas certezas, a digladiar-se por uma razão improvável, porque este é um processo em andamento.

Quando o uso ou não de máscara se transforma numa questão de liberdade individual, sem que os efeitos da minha decisão no outro sejam considerados, podemos encomendar orações paras as exéquias do interesse comum.