Cultura

Enzo Mari (1932-2020). O idealismo de um designer que desprezava o consumismo

Morreu, aos 88 anos, vítima da covid-19 um dos mestres do design italiano. Mari foi um pioneiro do modelo do-it-yourself. No dia seguinte, morreu a sua mulher, a crítica de arte e curadora Lea Vergine, de 82 anos, também de complicações relacionadas com o covid.

Combativo e apaixonado, o designer italiano Enzo Mari morreu na segunda-feira, aos 88 anos, vítima da covid-19, num hospital de Milão, e no dia seguinte, morreu a sua mulher, a curadora e crítica de arte Lea Vergine, também de complicações relacionadas com o vírus. Vergine tinha 82 anos, estava há vários dias internada no mesmo hospital, San Raffaele.

Considerado um enfant terrible do design, este marxista teve sempre uma atitude bastante crítica do domínio que o marketing foi assumindo sobre a sua profissão. Mari foi um verdadeiro ‘gigante’, e o seu temperamento volátil tomava balanço no mesmo génio que foi capaz de criar objetos que aliam a elegância à funcionalidade, sendo o autor de peças de mobiliário expostas em museus de design em todo o mundo. Além de móveis, entre os equipamentos que concebeu estão cerâmicas, utensílios de cozinha e jogos para fabricantes famosos como Alessi, Danese, Magis e Zanotta. Uma das mais famosas é o puzzle de madeira para crianças 16 Animais, que marcou o arranque da sua carreira há seis décadas.

«Ciao Enzo. Despedes-te como um gigante». Estas foram as palavras de Stefano Boeri, presidente da Trienal de Milão, em reação à notícia da morte de Mari, tendo agora em mãos uma exposição inaugurada no passado sábado, e que, tratando-se da maior retrospetiva sobre a obra do mestre italiano, se transforma naturalmente numa decisiva homenagem, permitindo apreciar uma última vez o seu legado. Com curadoria de Hans-Ulrich Obrist, a mostra inclui ainda instalações site-specific de artistas como Tacita Dean, Dominique Gonzalez-Foerster ou Danh V, bem como de outros designers.

Defensor de um design que punha os valores éticos acima do ego e da ambição do criador, tinha manifestado já a sua intenção de doar todo o seu arquivo à cidade de Milão, mas impôs como condição que só seja disponibilizado ao público dentro de quatro décadas. E é este desejo que faz da atual exposição (que estará patente até abril de 2021) uma espécie de quinto ato, seguido de um dramático cair de cortinas, sabendo o público que isso marcará a desaparição do artista e de alguns aspetos mais íntimos, e do próprio pensamento, que tem tanto peso como a beleza que caracteriza as suas peças.

Se foi uma das figuras centrais na projeção do design italiano do século XX, enquanto teórico, Mari foi sempre uma figura desafiadora, por vezes cáustica, e numa entrevista que deu ao Público, em 2011, disse que era importante que os objetos não contassem mentiras e que partia para qualquer projeto com um nível de utopia de 100%: «Sou bom, porque estou acima do monte de lixo. Não fiz coisas muito complexas. São sempre coisas simples». No seu idealismo utópico, encarou o design como uma disciplina com um impacto transformador na sociedade, e bateu-se pela sua democratização não só nos equipamentos que desenhou como numa série de textos de caráter interventivo.

Em Autoprogettazione, um livro publicado em 1974 e que, alcançou uma influência e popularidade tal que teve várias reedições, Mari foi pioneiro nisso a que hoje chamamos ‘código aberto’ ou licenciamento livre para que fossem projetados uma ampla variedade de móveis domésticos usando simples tábuas de madeira e pregos. Foi uma forma de abrir o jogo, explicar os truques, dar um guia passo a passo, para que todos tivessem a possibilidade de ter em casa móveis com um design soberbo e aquela impecável atenção ao detalhe que fez de tantas peças de Mari verdadeiros ícones. O título do livro popularizou o conceito de auto-projetação, e começou por propor as instruções para 20 tipos de móveis, de camas a armários, passando por cadeiras, estantes ou mesas, na lógica do-it-yourself​. Em 2014, Mari acabou por fechar o seu estúdio, mas é evidente o impacto que o seu trabalho teve, não só pelos muitos prémios Compasso d’Oro - como o atribuído em 1979 à cadeira empilhável Delfina - como pelo sucesso de empresas que se aproveitaram deste conceito, como é o IKEA.

O que há de crucial na sua forma de encarar o design é o ter defendido sempre que qualquer pessoa pode ser sensibilizada para essa educação que alia soluções práticas a uma valorização estética, a qual incita cada um de nós a autonomizar-se, a pôr mãos à obra em vez de desembolsar uma pequena fortuna nalguma loja. Ou, pelo menos, a saber aquilo a que deve estar atento quando adquire um móvel. «Quando estás a construir um móvel, tens de ter a certeza de que as juntas estão bem feitas. Se vão comprar uma mesa, verifiquem se a perna está bem fixa. É um primeiro passo... Esse é o objetivo da auto-projetação», explicou na já referida entrevista ao Público. «Eu trabalho para compreender, não para fazer. Isso é a coisa mais importante da minha vida. Toda a gente sabe o que é o design, mas na realidade ninguém sabe».