Cultura

Obras não tocam na pala

Apesar da classificação como Monumento de Interesse Público em 2010, o Pavilhão de Portugal esteve durante anos ao deus-dará e foi lugar de eleição para sem-abrigo. As obras de requalificação, que deverão estar prontas em 2021, prometem insuflar nova vida neste marco da Expo-98 e da arquitetura portuguesa.

As obras de requalificação do Pavilhão de Portugal estão em curso e devem ficar concluídas nos próximos dez meses. A previsão é feita pela Reitoria da Universidade de Lisboa, entidade à qual o edifício foi entregue a 1 de agosto de 2015.

Antes disso, a emblemática obra de Siza Vieira havia sido objeto de controvérsia. Elemento central da Expo-98, construído para acolher a participação de Portugal, país-anfitrião, em março de 2010 o pavilhão foi classificado como Monumento de Interesse Público. Apesar disso, esteve sem rumo – para não dizer ao abandono – durante vários anos, servindo a praça coberta definida pela icónica pala para acolher sem-abrigo que ali procuravam refúgio.

Inicialmente estava previsto as obras de requalificação, cujo custo total foi estimado em mais de dez milhões de euros, terminarem ainda em 2019, mas o prazo acabaria por derrapar. Também assinado por Siza Vieira, o projeto inclui uma nova entrada e um novo auditório para 650 pessoas que, graças ao seu desenho simétrico, pode ser dividido em duas salas independentes. Além disso, alguns aspetos técnicos, como sistemas de ar condicionado, iluminação e segurança também serão objeto de renovação.

Atualmente são visíveis os contentores dos trabalhos em curso na praça coberta. Em todo o caso, a pala idealizada por Siza permanecerá intocada, garante a Universidade.

‘Dinamização permanente’

E depois de terminadas as obras, qual o destino do edifício? O objetivo é que o Pavilhão de Portugal se torne um centro de investigação e divulgação de ciência, arquitetura e promoção da lusofonia. Na cerimónia de entrega deste equipamento à Universidade, em 2015, o reitor Cruz Serra não escondeu a confiança e a ambição: «Vamos ter uma dinamização cultural permanente, um espaço expositivo, ensino e serviços da Universidade de Lisboa. Vamos ter esta zona dinamizada, o pavilhão cheio de gente e vamos, seguramente, dar uma boa utilização àquilo que é um edifício emblemático, de que todos nos orgulhamos, e que dificilmente aceitaríamos que estivesse parado como esteve durante estes anos ou que fosse parar a mãos estrangeiras», disse na altura.

Proeza de engenharia

Entregue ao mais prestigiado, influente e premiado arquiteto português, o projeto do Pavilhão de Portugal para a Expo-98 exibe todas as marcas que caracterizam a obra de Siza Vieira: linhas retas e depuradas, grandes superfícies brancas, rigor geométrico e sobriedade. Mas o elemento central do projeto é a tão monumental quanto elegante pala de betão. Com 70 por 50 metros, e uns meros 20 centímetros de espessura, é uma verdadeira proeza de engenharia, tornada possível graças à colaboração de Souto de Moura e do designer cingalês-britânico Cecil Balmond.

A pala de Siza delimita a maior praça coberta do país – e as mesmas características que a tornaram acolhedora durante a Expo, em que oferecia uma zona protegida de sombra que as árvores recém-plantadas ainda não podiam proporcionar, tornaram-na depois atrativa para os sem-abrigo. Vinte e dois anos depois da sua construção, as obras de requalificação e a dinamização prometida pela Universidade de Lisboa prometem mudar esse estado de coisas.