Viver Para Contar

Vai onde te leva o coração

Elogia-se o homem (ou a mulher) que tem a ‘coragem’ de deixar a família e ir atrás de uma paixão. Nesta perspetiva, Sá Carneiro foi um homem ‘corajoso’, pois não teve dúvidas em deixar a mulher e os filhos e assumir a paixão por Snu Abecassis. 

Um dia destes vi na TV um filme sobre Francisco Sá Carneiro. Ou melhor: um filme sobre a relação de Sá Carneiro e Snu Abecassis, chamado exatamente Snu.

Sá Carneiro, uma figura hoje endeusada em vários setores – até pela morte trágica que teve, em circunstâncias nunca inteiramente esclarecidas –, era um homem muito inflexível. Marcello Caetano não gostava dele e considerava «um equívoco» o facto de ele ter sido deputado eleito nas listas da União Nacional. O caso é que, sem Caetano saber, Sá Carneiro pusera como condição não ter de apoiar o Governo, mesmo em questões essenciais.

A inflexibilidade de Sá Carneiro era a outra face da sua inegável coragem – revelada antes e depois do 25 de Abril. Foi duro com Marcello Caetano, mas também foi duro com os militares esquerdistas e com o Partido Comunista.

O filme Snu é uma obra bem feita, cativante, ainda que algo esquemática. A realizadora – Patrícia Vasconcelos – toma claramente partido pela opção feita por Sá Carneiro de deixar a família e iniciar, com a editora dinamarquesa, uma relação que se revelaria tão arrebatada como fatal.

No fundo, o filme adere à conhecida frase «Vai onde te leva o coração». E esta frase resume bem os tempos modernos. Há um grande enfoque no amor romântico, ao mesmo tempo que o conceito de família é desvalorizado.

Elogia-se o homem (ou a mulher) que tem a ‘coragem’ de deixar a família e ir atrás de uma paixão.

Nesta perspetiva, Sá Carneiro foi um homem ‘corajoso’, pois não teve dúvidas em deixar a mulher e os filhos e assumir a paixão por Snu Abecassis. 

Mas eu pergunto-me se a questão poderá ser olhada com tanta simplicidade. Estamos a ver o ponto de vista de Sá Carneiro; mas não estaremos a desprezar o ponto de vista da sua mulher, que subitamente se viu abandonada pelo marido, com cinco filhos ainda jovens? Estamos a ver o ponto de vista de Sá Carneiro; mas não estaremos a desprezar o ponto de vista dos filhos, que de repente viram o pai sair de casa?

E o mesmo se pode dizer de Snu, embora em menor escala. Estamos a ver o seu ponto de vista, a ‘coragem’ de ir atrás de um homem que a magnetizou. Mas não estamos a ver o ponto de vista do marido, que aparentemente a amava e sofreu terrivelmente com a separação.

Não é simples, nem cómodo, analisar estas questões. Em Sá Carneiro e Snu Abecassis há um misto de coragem e de egoísmo. Coragem para fazer ruturas, para ser coerente com os sentimentos; mas egoísmo para não ver o sofrimento dos outros e pensar apenas no seu prazer.

E há ainda outro aspeto a ter em conta nestes casos.

O casamento – ou a união sem casamento, hoje muito em voga – supõe a assunção de uma responsabilidade. Ao comprometermo-nos com outra pessoa, estamos a limitar também a sua liberdade. A mulher de Sá Carneiro, ao casar com ele, ao ter com ele cinco filhos, abdicou de parte da sua liberdade para se dedicar à família. Abdicou mesmo de parte da sua vida para se dedicar à família. A família tornou-se o seu mundo. Ora, terá o marido o direito de, unilateralmente, quebrar o compromisso que assumiu com ela e deixar tudo?

De um lado estava a paixão por Snu, de outro lado o compromisso assumido com a mulher, que era supostamente para a vida. Teria Sá Carneiro o direito de rasgar esse compromisso, de destruir de uma penada o mundo construído a dois? 

Eu sei que as paixões não se controlam. Sei que o coração é o órgão mais traiçoeiro do nosso corpo – que tanto nos pode matar fisicamente, quando menos esperamos, como nos pode arrastar pelos sentimentos. Ninguém pode garantir que não se apaixona por outra pessoa – e a vida é longa. Mas, se não podemos controlar as emoções, podemos controlar as ações. Se não podemos dizer que nunca nos apaixonaremos por alguém, temos a liberdade de, nesse dia, não irmos atrás do coração, mantendo-nos fiéis aos compromissos assumidos.

Quando isso acontece, podemos ser egoístas, pensando sobretudo em nós – ou altruístas, pensando mais nos outros. 

Sá Carneiro foi corajoso ou egoísta?  Não serei eu o juiz. Apenas levanto a questão para mostrar que as verdades que nos apresentam como indiscutíveis podem não o ser. 

O certo é que o amor romântico entre Sá Carneiro e Snu Abecassis destruiu duas famílias, fez a infelicidade de outras pessoas e traumatizou certamente os filhos numa idade importante. Por muito que eles tenham compreendido o pai. E por muito que hoje queiram, até, defender a memória do pai e a opção feita por ele.