Hoje Escrevo Eu

Quando a margem vai muito para além do Rio

A política nacional não foge a essa regra. Ou seja, dar por adquirido que a maioria parlamentar vigente está para durar porque o líder da oposição não tem carisma ou não consegue afirmar-se como alternativa é manifestamente precipitado. Na América, não foi Biden quem galvanizou o eleitorado para conquistar a Casa Branca – foi, sim, o  eleitorado que se mobilizou para tirar Trump de lá.

As eleições americanas – confirmando que o triunfo de Joe Biden esteve muito longe de corresponder à vitória folgada do Partido Democrata sobre o Republicano que, uma vez mais, todas as sondagens projetavam, e assim permitindo a Donald Trump sair com a arrogância tipicamente americana que sempre o caracterizou – e as eleições regionais nos Açores – em que não só o PS de Vasco Cordeiro perdeu a maioria absoluta que os estudos de opinião lhe auguravam como também a esquerda se viu ultrapassada pela direita em assentos parlamentares, o que ninguém previu – devem ser olhadas pelos principais dirigentes político-partidários portugueses com a devida atenção.

Por mais aprendizagens e correções que as empresas de sondagens retirem dos seus insucessos, a margem de erro é mesmo muito maior do que alguém um dia poderá admitir, como o confirmam estes dois atos eleitorais de dimensões tão abissalmente díspares.

O que não quer dizer que os estudos de opinião errem sempre ou não sirvam para nada e sejam de desvalorizar como sempre fazem os políticos que se consideram por elas prejudicados.

Antes pelo contrário. Há inúmeros exemplos, lá fora e entre nós, em que as previsões das intenções de voto acertaram na mouche, incluindo muitas vezes resultados surpreendentes mesmo para os mais especializados intérpretes da vontade popular. E na esmagadora maioria dos casos revelam tendências que correspondem à realidade, ainda que com variações normais – até pelos efeitos perversos das próprias sondagens.

Em política, o que hoje é verdade pode muito bem não sê-lo amanhã ou no dia seguinte. É como naquela máxima do desporto, segundo a qual, de um dia para o outro, ou melhor, de um jogo para o outro, qualquer um (dirigente, treinador ou jogador) passa de besta a bestial ou de bestial a besta.

 

A política nacional não foge a essa regra. Ou seja, dar por adquirido que a maioria parlamentar vigente está para durar porque o líder da oposição não tem carisma ou não consegue afirmar-se como alternativa é manifestamente precipitado.

Na América, não foi Biden quem galvanizou o eleitorado para conquistar a Casa Branca – foi, sim, o  eleitorado que se mobilizou para tirar Trump de lá.

Nos Açores, também não é José Manuel Bolieiro que o eleitorado escolhe para governar o arquipélago, mas sim Vasco Cordeiro quem não convence os açorianos a darem-lhe nova maioria absoluta para continuar a governar como bem entender.

Aliás, em 2015, António Costa chegou ao poder, não como o escolhido pelo povo, mas construindo uma solução parlamentar para dar a volta a uma derrota eleitoral surpreendente, face a um primeiro-ministro (Passos Coelho) e a um Governo (PSD-CDS) desgastados por quatro anos da maior austeridade da história da democracia portuguesa.

Na altura, o Presidente, Cavaco Silva, recusou-se a dar-lhe posse sem prévio acordo escrito entre PS, PCP e BE.

Quatro anos depois, e porque, agora, o PS foi mesmo o partido mais votado, o Presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, não fez, nem podia fazer, a mesma exigência.

 

Somente um ano depois das legislativas, o PS consegue fazer passar o Orçamento do Estado para 2021 com o PCP, o PEV, o PAN e duas deputadas não inscritas.

Mas o ciclo da ‘geringonça’ chegou ao fim, com o BE a autoexcluir-se da equação.

Ou seja, a estabilidade política e o apoio da maioria parlamentar de que Costa gozou no seu primeiro Governo, já deixou de existir.

Se a história não se repete e é feita de ciclos, nem por isso devemos abstermo-nos de olhar para trás e retirar as lições (e ilações) do que ela nos ensina.

Quem não se recorda da vitória incontestável de António Guterres nas eleições de 1999, ficando a um deputado (115-115) da maioria absoluta?

Bastava-lhe ‘fechar’ acordo com o recém-criado BE de Francisco Louçã e teria tido condições para governar mais quatro anos sem sobressaltos.

Mas Guterres não o fez, acreditando que, com a direita desavinda depois de Marcelo ter quebrado a AD com Portas, podia continuar a seguir a via do diálogo e dos consensos que lhe permitira levar até ao fim o seu primeiro mandato, com uma maioria bem mais relativa, mais queijo Limiano menos queijo Limiano.

Ainda por cima, a oposição estava agora entregue a um líder nada carismático e nada popular na opinião pública e sobretudo publicada, Durão Barroso, e o CDS ficara sem Portas (passando a liderança dos populares para Ribeiro e Castro).

 

Chegaram as autárquicas de 2001 e o PS – a rebentar o escândalo da Casa Pia e com excesso de confiança em alguns dos principais concelhos (como Lisboa) – levou uma abada monumental.

Guterres demitiu-se na noite eleitoral para não deixar o país num «pântano».

Ora, o cenário de instabilidade política que está criado e que se associa a uma crise económica e social sem paralelo é o caldo perfeito para que depois das  autárquicas do próximo ano as águas voltem a ficar turvas e as areias movediças.

E Rui Rio já está a prepará-las e aposta na reconquista de concelhos nas grandes áreas metropolitanas, de Lisboa e do Porto, e não só.

Se a história não se repete mas é feita de ciclos, António Costa que se acautele e veja o que está a acontecer nos Açores, na América e no Mundo.

 

Não é só o vírus que não conhece fronteiras e se propaga sem controlo. Se num primeiro momento beneficiou quem está no poder e a quem as pessoas confiaram os seus destinos, num segundo momento são exatamente a esses que apresentam a fatura. E o preço a pagar será tão mais alto quanto a crise sanitária, económica e social.

E o povo, mesmo quando não assume nem se manifesta, mesmo quando mente ou recusa dizer em quem vai votar, apanhando-se atrás do biombo, em segredo e longe de todas as pressões, quase sempre coloca na urna o voto que, uma vez todos somados, se revela o mais certo e sensato.

Mesmo quando parece que não o faz, é só uma questão de analisar um pouco melhor... porque alguma razão ele terá. E tem. Ou acaba por ter.

É extraordinário!