Viver para Contar

Tô xim?

Imagine-se um grupo de amigos, homens, em que um deles se torna de repente mulher. Como reagirão os outros? E como serão as relações amorosas das pessoas que mudam de sexo? Algum homem se sentirá confortável a dormir com uma mulher que sabe já ter sido homem?

Toda a gente com mais de trinta e cinco anos se lembra desse anúncio a uma empresa de comunicações, a Telecel: um pastor, no meio das ovelhas, em pleno campo, atende o telemóvel e diz: «Tô xim?». E depois, enquanto faz um largo sorriso e o seu olhar projeta um estranho brilho, informa os animais: «É para mim!».

Foi um anúncio que marcou. Tudo nele funcionava na perfeição: o telemóvel era uma novidade, a ideia do anúncio era brilhante, a realização segura, a interpretação do ator estupenda.

Nunca mais ouvi falar do homem – que se chamava João Vaz –, até que uma notícia recente dava conta de que se tinha transformado em mulher. Chama-se agora Maria João Vaz. Como por encanto, um homem que eu tinha na memória investido no papel de pastor – uma profissão quase exclusivamente masculina, com uma vida dura, passada no meio rural – virava de repente mulher.

Estranhos tempos que vivemos. Uma operação de mudança de sexo é uma intrusão brutal no nosso corpo – e nunca pode ser 100% bem sucedida. É impossível contrariar por completo a natureza. Alguém que nasceu homem não será nunca, por mais cirurgias que faça, por mais medicamentos que tome, uma mulher igual às outras mulheres.

E terá sempre na vida conflitos interiores terríveis. Além de que, socialmente, também enfrentará certamente problemas: imagine-se um grupo de amigos, homens, em que um deles se torna de repente mulher. Como reagirão os outros? E como serão as relações amorosas das pessoas que mudam de sexo? Algum homem se sentirá confortável a dormir com uma mulher que sabe já ter sido homem e vice-versa? Tenho dificuldade em imaginar a situação. E quem diga que sim não está a ser sincero – estará a ser apenas politicamente correto.

Por isso, tenho defendido que quem se sente homem num corpo de mulher ou o contrário deveria procurar apoio psiquiátrico antes de tomar a decisão limite de mudar de sexo. Não seria mais fácil ajustarem a ideia que têm de si próprios ao corpo com que nasceram do que trocarem de corpo?

Dizem-me que há pessoas que se sentem bebés, outras que se sentem animais, e não vão com certeza operá-las para as transformar em bebés ou animais...

Outra insólita notícia da semana passada foi a presença de dois jovens a fazer sexo em plena praça do Rossio, em Lisboa, às oito da noite, com carros e peões a passarem por perto. E nem sequer fizeram qualquer tentativa para se esconderem, pelo contrário: colocaram-se bem a meio da praça, encostados a uma fonte, completamente expostos, à vista de todos.

Não sou um puritano, mas há coisas que exigem privacidade. Que devem ser feitas em privado. Não podemos escancarar toda a nossa vida aos olhos dos outros. Devemos manter zonas reservadas para aqueles atos que, por isso mesmo, se chamam ‘íntimos’.

Quem perdeu essa necessidade de reserva, perdeu alguma coisa do ser humano: os animais é que fazem as necessidades e têm relações na rua, à vista de toda a gente. Os seres humanos constroem casas, dentro das casas constroem casas de banho, constroem quartos, exatamente para poderem recolher-se, preservar a sua intimidade, furtar-se aos olhares alheios em determinadas situações.

Expor a intimidade no meio de uma praça da maior cidade do país, fazer sexo junto a uma fonte da cidade de Lisboa às oito da noite, numa zona bem iluminada, quando ainda há muito movimento na rua, é uma estranha atitude….

Homens que se tornam mulheres e vice-versa; jovens que fazem sexo na via pública ou nos comboios – como ainda aconteceu há pouco, numa sessão a três – são sinais de uma civilização em decadência, que há muito venho a denunciar. E essa decadência vai ainda acentuar-se não só no plano dos costumes mas em tudo – em consequência da pandemia e dos problemas que ela vai aprofundar a nível económico, social e psicológico.

Estranhos tempos aqueles que vivemos, repito. Que a pandemia ainda vai tornar mais estranhos, com o seu cortejo de desemprego, pobreza, danos escolares e também doenças mentais de todo o tipo.

A que mais iremos ainda assistir?