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A troika e a covid foram as duas visitar os Passos perdidos

Estávamos nisto quando a pandemia covid devastou o mundo. Com uma economia fraca, dependente do turismo, pouco competitiva e mal refeita da troika, o impacto já foi comparado a uma guerra. S

A pandemia é má mas consegue ser pior para países pobres como o nosso. Em Março de 2011, um contrafeito José Sócrates pedia o resgate. Falido, Portugal teve de se sujeitar às condições draconianas impostas pela troika. Foram anos duros para os portugueses, e se em maio de 2014 os credores deixaram o país, o desemprego tinha diminuído, as exportações aumentado, o turismo crescia, e a economia melhorado a olhos vistos, o povo não esqueceu o desemprego e a emigração (no setor privado) e os cortes salariais (na função pública). Ainda assim, tudo somado, o deve e o haver, foi Passos Coelho o vencedor das eleições legislativas de 2015. 

Todavia, a severidade da doença troika e das suas sequelas penetraram fundo na sociedade portuguesa, tão fundo que pela primeira vez desde a democracia, os partidos extremistas da esquerda radical aceitaram viabilizar um Governo do PS e o PS aceitou por eles ser suportado. Quarenta anos da história democrática portuguesa foram reescritos porque PS, Bloco e PCP encontraram as condições perfeitas para se unirem e governarem: a narrativa anti-troika personificada em Passos Coelho. 

O Governo de quatro anos da ‘geringonça’ notabilizou-se pelo folclore da reversão de algumas medidas emblemáticas do Governo anterior, cativações pelo ministro das finanças, a economia alavancada pelo Turismo e a palavra Reforma banida do léxico político. Chegados às legislativas de 2019, António Costa livrou-se dos parceiros de governação e mesmo minoritário, resolveu governar sozinho. 

Aliás, este deve ser dos casos mais mal explicados da política portuguesa: se a ‘geringonça’ era tão boa, mas tão boa, porque António Costa não a repetiu? Será que as exigências do Bloco e do PCP eram impossíveis de satisfazer? Será que teve um rebate de consciência e percebeu que não podia ter o país cativo das exigências de radicais e extremistas? 

Estávamos nisto quando a pandemia covid devastou o mundo. Com uma economia fraca, dependente do turismo, pouco competitiva e mal refeita da troika, o impacto já foi comparado a uma guerra. Suportámos a primeira vaga na primavera com dificuldade: as famílias e empresas foram às poupanças (pequenas) e raparam o fundo ao tacho. O Governo foi à TV e fez promessas, com o essencial a ser assegurado pelas moratórias bancárias.

Esta segunda vaga da pandemia já não é suportável. As famílias já não têm, os bancos estão no limite, o Governo vai ter de esperar meses pelo dinheiro europeu que quando vier será para grandes projetos, não será para salvar o ‘cantinho minhoto’, o ‘cerveirense’, nem os restaurantes trendy da Baixa. 

Daqui até chegar o dinheiro europeu (fins de 2021?), a economia está destruída, o desemprego nos dois dígitos.

E a António Costa espera o mesmo destino inglório que conheceu Passos Coelho, comem o pão que o diabo amassou, suportam o que ninguém suportou e no final os eleitores livram-se deles. Sem apelo, nem agravo.