Cultura

A pose é tudo

Sabia que deitar a língua de fora é ‘um gesto relíquia’ cujas origens remontam à primeira infância? Quando é que o aperto de mãos passou a ser um cumprimento corrente? Em que postura se deve colocar um rei para ser retratado?O zoólogo, escritor e pintor Desmond Morris elucida estas e outras questões num livro que percorre a linguagem corporal na arte, da Pré-História aos tempos atuais.

Charles Darwin era um jovem estudante de Medicina quando, em dezembro de 1826, assistiu na Plinian Society, um clube recém-fundado na Universidade de Glasgow para estudantes com interesse por história natural, a uma sessão sobre a expressão das emoções.

O que ouviu nessa sessão lançou raízes no seu íntimo. E deu frutos. Quase meio século depois, em 1872, já era ele um naturalista célebre e polémico (A Origem das Espécies foi publicada em 1859), dava à estampa A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais (ed. portuguesa da Relógio d’Água). Ao longo de 14 capítulos, mostrava as ligações íntimas entre os estados de espírito e a postura do corpo, dando abundantes exemplos do que acontecia no reino animal. Para não chocar as sensibilidades da época, em vez de dizer que o homem tinha comportamentos animais, dizia que eram os cães, por exemplo, que tinham comportamentos humanos.

Depois dos primeiros capítulos dedicados a princípios gerais, Darwin passava a dar exemplos concretos de como animais e pessoas exprimiam a fúria, o medo, a surpresa, a repugnância (que mostrou estar associada ao cheiro), a felicidade e a tristeza através da posição relativa dos membros e da contração dos músculos do rosto.

Um século e meio depois do livro pioneiro de Darwin, o zoólogo, autor e artista plástico Desmond Morris faz um ‘inventário’ das expressões humanas que passa em revista 60 gestos e posturas humanas e milhares de anos da arte no livro Poses – Linguagem Corporal na Arte (ed. Bizâncio).

Antigo curador de mamíferos do Zoo de Londres, conhecido pelo seu livro controverso O Macaco Nu (1967), pelas experiências que fez com Congo, o chimpanzé pintor cujos quadros foram leiloados pela Bonhams ao lado de obras Warhol e Renoir, e pelos programas na BBC, Morris já escreveu mais de 70 livros e fez para cima de três mil pinturas. Como revelou ao SOL em agosto de 2019, o facto de ter mais de 90 anos não o impede de continuar a trabalhar afincadamente: «Desenvolvi o hábito de escrever um livro científico em cada inverno e de pintar novos quadros para uma nova exposição em cada verão».

 Em Poses – Linguagem Corporal na Arte, os exemplos da pintura e da escultura, de todas as épocas e geografias, servem de mote para uma ‘genealogia’ dos gestos e expressões humanas, num diálogo sempre vivo entre a arte e a ciência. Selecionámos sete excertos que lançam luz sobre os nossos comportamentos e a sua história escondida.

 

 

 

Armas na manga?

Comecemos pelo aperto de mão, um dos gestos mais correntes e universais – no entanto ameaçado de extinção pelo horror ao toque suscitado pela pandemia.

Originalmente reservado para situações excecionais, o aperto de mão já aparece representado num relevo babilónico do século IX. Tornou-se de uso mais frequente, mas ainda altamente simbólico, na Roma Antiga. «Após a queda de Roma, o aperto de mão desapareceu em larga medida das obras de arte até ao século XVII», explica Desmond Morris. «Só no século XIX o aperto de mão evoluiu para um cumprimento quotidiano no Ocidente. Os manuais de etiqueta vitoriana estavam repletos de instruções dedicadas a orientar as classes médias emergentes em aspectos cruciais de conduta, incluindo a melhor maneira de apertar as mãos. Talvez isto explique por que motivo alguns jovens de hoje acham o gesto demasiado tradicional e o tenham substituído pelo ‘mais cinco’ ou o ‘toque de punhos’. Contudo, tem-se afirmado que o ‘toque de punhos’ é mais higiénico do que o contacto palma a palma do aperto de mão tradicional, e é o preferido de algumas figuras públicas que têm de encontrar e saudar um grande número de pessoas».

Algumas figuras são conhecidas pelos seus apertos de mão especialmente fortes e intensos. É o caso do Presidente da República. Mas se para Marcelo Rebelo de Sousa isso poderá ser uma manifestação de calor humano, noutras épocas teria um significado diferente. «Crê-se que o movimento vigoroso das mãos apertadas, para cima e para baixo, terá sido introduzido numa data posterior como tentativa deliberada de desalojar quaisquer armas que pudessem estar escondidas na manga de outra pessoa».

A posição favorita do rei

Qual a posição ideal do modelo quando se está a fazer um retrato? Paula Rego pintou Jorge Sampaio, para a Galeria dos Presidentes, sentado – o resultado foi no mínimo controverso. Vejamos o que nos diz sobre este assunto Desmond Morris. «Quando se trata de pintar o retrato de um Rei, a posição das pernas do retratado é cuidadosamente considerada. A elevada condição social requer que os pés estejam colocados de forma particular. Permanecer de pé com os pés juntos, ou na posição de ‘sentido’ das formaturas militares, é uma posição de obediência associada a pessoas de baixa condição, pelo que é de evitar a todo o custo. Isto deixa duas alternativas: permanecer de pés afastados ou pôr um pé apontado à frente do outro. Na época Tudor (século XV-XVII), a preferência ia para permanecer numa postura equilibrada com os pés afastados, a posição preferida pelo Rei Henrique VIII».

Mas cada época tem a sua moda e os seus códigos. «Tudo isso mudou com o Rei Sol, Luís XIV de França. O seu retrato mais famoso, pintado em 1701 pelo artista francês Hyacinthe Rigaud, representa-o com um pé à frente do outro, numa postura altamente estudada. O pé da frente aponta na direção do espetador como se estivesse a alvejá-lo. O de trás forma com ele um ângulo reto e é visto de perfil. Tem sido sugerido que esta pose foi desenvolvida de forma consciente ou inconsciente como meio de exibir uma zona erótica do corpo masculino, nomeadamente a parte interna da coxa».

Mostrar o rabo: uma longa história

Quem não se recorda dos estudantes que mostraram as nádegas a Manuela Ferreira Leite? «Superficialmente, pode parecer um convite sexual obsceno, mas o seu verdadeiro significado é uma defecação simbólica ou um convite mudo de ‘Beija-me o cu!’», desvenda Desmond Morris. Corria o ano de 1992 e a então ministra da Educação tinha introduzido a PGA, a prova geral de acesso ao ensino superior. Os estudantes não gostaram e baixaram as calças, o que lhes valeu que o epíteto de ‘geração rasca’ por parte do diretor do Público, Vicente Jorge Silva. O que provavelmente nem Vicente, nem os estudantes, nem a ministra da Educação sabiam é que esta provocação tem uma longa linhagem: «O insulto em si tem uma longa história», relata o autor. Para encontrar as suas origens temos de recuar ao século I d. C. e viajar até à Terra Santa. «Durante a Páscoa judaica em Jerusalém, quando multidões de judeus acorreram à cidade, os soldados romanos montaram guarda nas ameias para vigiarem quaisquer indícios de tumulto. Um dos soldados decidiu jocosamente exibir o seu desprezo pelas multidões expondo as nádegas, como se dissesse ‘Defeco sobre vós’. As vítimas do insulto ficaram tão encolerizadas que começaram a apedrejar os soldados. Foram enviados reforços para controlar a situação, o que provocou o pânico das multidões. Seguiu-se uma fuga em massa e consta que terão morrido por esmagamento cerca de 10 000 judeus, tudo devido a um único insulto», conclui.

Einstein e o eco da rejeição infantil

A 14 de março de 1941, dia do seu 72.º aniversário, Albert Einstein estava cansado de sorrir para os fotógrafos. Por isso, quando Arthur Sasse, da Associated Press, lhe pediu mais um sorriso para a câmara, o físico mostrou-lhe a língua, num gesto que ficaria para sempre como sinónimo de um génio pouco convencional.

Por que motivo deitar a língua de fora se tornou uma manifestação de irreverência, se não de má educação? Desmond Morris apresenta uma explicação plausível.

«Como insulto, é um gesto relíquia, um gesto que sobreviveu muito depois de ter desaparecido o seu contexto original, primário. As suas origens remontam à infância, quando um bebé rejeita a comida, empurrando-a para fora da boca com a língua».

Depois o gesto sobrevive ao contexto. Muito mais tarde, quando já não há comida desagradável para expulsar da boca, mostrar a língua mantém o significado de rejeição. «Quando as crianças em idade escolar querem fazer um gesto simples e grosseiro, deitam muitas vezes a língua de fora irrefletidamente. Trata-se, mais uma vez, de um eco da rejeição infantil. Quando os adultos o fazem, cientes de que é a reação típica de uma criança insolente, fazem-no na brincadeira e raramente são tomados a sério. Contudo, têm de ter o cuidado de fazer uma careta feia simultaneamente, para deixar claro que estão a ser grosseiros, porque, de outro modo, correm o risco de a protrusão da língua ser erradamente interpretada como um convite erótico».

Nudez, sedução e choque

Em janeiro de 2016, uma visita do Presidente Hassan Rouhani a Itália obrigou a cuidados especiais no protocolo. Nas refeições oficiais não foi servido vinho e as estátuas de nus do Museu Capitolino tiveram de ser cobertas com tapumes para não ofender o dignitário iraniano.

O horror dos muçulmanos à nudez na arte representa um retrocesso impressionante. Há 2500 anos os Gregos, especialistas na exaltação do corpo, encaravam-na com naturalidade. Claro que depois, com o triunfo do Cristianismo, as coisas mudariam de figura: a moral cristã encarava o corpo com desdém e suspeição. Mas o Renascimento voltaria a recuperar o nu na arte. Miguel Ângelo pintou vários no teto da Capela Sistina (1508-1512), depois do Concílio de Trento pudicamente tapados com panos coloridos pelo seu discípulo Daniel da Volterra.

Desmond Morris apresenta uma pintura de François Boucher que retrata Louise O’Murphy, amante do Rei Luís XIV de Franca, como exemplo de uma obra «descaradamente sensual». «A jovem fora seduzida aos 13 anos por Casanova, que seguidamente encomendou um retrato dela nua. Quando o rei de França viu esse quadro, diz-se que ficou tão enamorado que a tomou como amante e mais tarde pediu a Boucher que a imortalizasse».

Morris conta também como o crítico e artista John Ruskin, habituado a ver os nus idealizados da época vitoriana, ficou horrorizado na noite de núpcias ao deparar-se com os pelos púbicos da sua noiva. Não foi o único a sofrer o embate da realidade. O poeta beat Allan Ginsberg também teve um choque semelhante ao ver um dia em casa, por acidente, a sua mãe nua. E atribuía a esse episódio a responsabilidade por ter-se tornado homossexual.

Caretas e demónios

O caso de Franz Messerschmidt tem intrigado os historiadores. Nascido numa família de artesãos do sul da Alemanha, estudou na Academia de Viena e trabalhou para aristocratas e imperadores. Mas o seu grande legado para a posteridade foi um conjunto de bustos que fez para si e que forma uma espécie de catálogo de esgares. A um escritor que o visitou, disse que via fantasmas, que lhe davam ordens. «No século XVIII, um escultor germânico-austríaco chamado Franz Xaver Messerschmidt passou por um período de doença mental, durante o qual revelou uma obsessão por retratar emoções extremas. Pensa-se que terá criado nesse período 69 bustos com rostos a fazerem caretas horríveis (dos quais sobreviveram 49), afastando-se marcadamente das esculturas neoclássicas tranquilas que o haviam tornado famoso», escreve Morris. «Tem-se sugerido que as cabeças o retratavam, na sua luta agonizante contra os seus demónios interiores. Para o ajudar no seu trabalho, forçar-se-ia a fazer caretas de dor, beliscando-se com toda a força. Olharia então para o espelho e recriaria o que via». Estas esculturas bizarras podem hoje ser vistas no Museu de História da Arte, em Viena. Uma das mais famosas tem o título O Homem Vexado, que Desmond Morris considera errado: para o zoólogo, as feições exprimem nojo.

O beijo que durou um milhão de anos

De todos os comportamentos humanos, o beijo é talvez um dos mais estranhos. Dir-se-ia que o ato de beijar corresponde a uma tentativa simbólica de comer o outro sem o agredir. E, de facto, Desmond Morris estabelece uma ligação entre beijar e comer.

«O beijo na boca pode ter uma origem invulgar que muitos jovens amantes desconhecem completamente. Para compreender como começou o beijo, é necessário recuar até aos tempos primitivos. Pensa-se que, nas primeiras sociedades humanas, as mulheres desmamavam as crianças mastigando a sua comida e transferindo-a depois para a boca infantil através de contacto entre os lábios. Este tipo de cuidados parentais, quase do tipo do das aves, pode parecer-nos estranho mas é provável que a nossa espécie o tenha praticado durante um milhão de anos ou mais. Os biólogos evolutivos sugerem que o beijo na boca é uma relíquia do nosso passado pré-histórico».