Carta de Wall Street

Aventuras e desventuras (parte I)

Em caso de perda do nosso capital como fica a situação financeira da nossa família? Temos capital para absorver o mau resultado e continuar a atividade em anos futuros? Ou ficamos falidos? Neste último caso, o retorno de 30% pode ser demasiado arriscado. Como diz o ditado: ‘não por todos os ovos no mesmo cesto’.


Nova Iorque, novembro 2020

 

Queridas Filhas,

Os investimentos em caixa/depósitos e em imobiliário são os mais comuns. São também aqueles que oferecem retornos mais previsíveis. Mas não são os mais lucrativos em média. As famílias que mais riqueza construíram ao longo dos tempos, não usaram depósitos ou compras de casas. Fizeram-no através de participação direta na atividade económica: através de projetos agrícolas, industriais ou de serviços (por exemplo turismo ou retalho).

Qualquer que seja o projeto, ele pode sempre ser reduzido num primeiro nível a uma análise simples de fluxos de caixa: quanto capital vou investir (A) e quanto vou receber (B).

Vamos usar em exemplo agrícola para ilustrar este cálculo. Um senhorio propõe arrendar por um ano, um terreno que produz milho. A renda pedida é de 100 mil euros (A). Nós calculamos que o terreno produz em média mil toneladas de milho por ano que esperamos vender por 160 euros por tonelada. Assim, estimamos uma receita bruta de 160 mil euros. A esta receita deduzimos custos com salários e outras consumíveis (adubos, água, energia) de 30 mil euros por ano. Estimamos um capital gerado de 130 mil euros (B) que consiste nos 160 mil euros de receita bruta deduzidos dos 30 mil euros de despesas.

Dado que o investimento foi de um ano temos um retorno esperado de 30% = (130-100) /100. Este retorno é muito mais atrativo do que os investimentos em depósitos e imobiliário disponíveis que rendem bem menos de 10% atualmente. Devemos fazer o investimento? Depende:

O retorno não é garantido. Várias circunstâncias podem levar a que o retorno obtido seja maior ou menor (incluindo retorno negativo) que o esperado. Por exemplo, variações no clima podem levar a colheitas superiores ou inferiores a mil toneladas. A colheita pode mesmo ser zero no caso de um desastre natural como uma enxurrada ou incêndio. Adicionalmente, o preço do milho daqui a um ano pode ser bem diferente dos 160 euros por tonelada que nós esperamos;

Em caso de perda do nosso capital como fica a situação financeira da nossa família? Temos capital para absorver o mau resultado e continuar a atividade em anos futuros? Ou ficamos falidos? Neste último caso, o retorno de 30% pode ser demasiado arriscado. Como diz o ditado: ‘não por todos os ovos no mesmo cesto’.

Se tivermos capital suficiente para aguentar um mau resultado deste investimento, e se tivermos razões para acreditar que a produção e o preço do milho têm uma probabilidade grande de ficarem acima das nossas estimativas, então o investimento parece atrativo.

O meu conselho é comparar B com A com a filosofia com que os engenheiros civis constroem pontes: deixando uma margem de segurança generosa. Se uma ponte vai ter uma carga máxima prevista de 100 toneladas, não queremos que o engenheiro a projete para 105 toneladas. Não vá um engarrafamento coincidir com uma forte tempestade, desgaste da estrutura e levar a uma tragédia. Da mesma forma, o nosso investimento financeiro deve ter uma margem confortável de segurança que possa acomodar vários desenvolvimentos negativos e ainda oferecer um retorno aceitável. Fundamentalmente o investimento nunca pode pôr em causa a continuidade da nossa atividade em períodos futuros.

O exemplo dado é simples pois assume apenas o investimento a um ano. Mas o processo de analise de investimentos a mais do que um ano segue as mesmas regras e filosofia com o passo adicional de se descontar os fluxos de caixa de cada ano para o valor presente usando matemática financeira. Mas isso vocês podem pesquisar na internet ou perguntar-me numa carta futura…