Opiniao

A entrevista viciada

A RTP, descaradamente e sem o mínimo esforço em disfarçar o engodo em que induziu todos quantos queriam ver esclarecidas as dúvidas que, eventualmente, tivessem em relação às ideias defendidas por André Ventura, ouvindo da sua boca os argumentos com que pretende convencer os portugueses a nele votarem, não só o detractou, violando o princípio da imparcialidade, como o impediu, de forma grosseira, de passar a mensagem a que teria direito.

O governo é um órgão de soberania, um dos vários que constituem o Estado.

No entanto, a tendência nesta partidocracia, que se instalou em Portugal no pós-Abril, tem sido a de se confundir o Estado com o governo, assistindo-se a uma permanente governamentalização de quase todos os serviços estatais, com a consequente tomada de assalto das suas estruturas directivas por parte da nomenclatura do partido que exerce o poder.

Esta triste realidade, própria de um regime terceiro-mundista, conduz ao desvirtuar do estado de direito democrático, afectando, decisivamente, os direitos, liberdades e garantias que a todos deve assistir.

Qualquer empresa estatal, cujo papel é o de prestar um serviço público às populações, não  pode estar a soldo deste ou daquele governo, e muito menos de um partido político, mas sim serve o Estado no seu todo, devendo, assim, tratar todas as pessoas de forma isenta e indiferenciada.

A RTP é uma estação de televisão pública, ou seja, sustentada pelos impostos de todos os contribuintes, sem excepção, pelo que toda a sua programação se deve pautar pelas regras da completa independência, imparcialidade e isenção, abstendo-se de tomar partido por causas ou ideologias protagonizadas por grupos diferenciados.

Ao contrário dos canais televisivos privados, que podem estar ao serviço de interesses particulares, nomeadamente de cariz político, porque são estes que injectam as verbas necessárias para a sua sobrevivência, a RTP é a televisão de todos, porque paga por todos, pelo que lhe é vedada a possibilidade de manifestar simpatias por uma parte em prejuízo de um todo.

Quando perante um cenário de eleições, a televisão pública tem a obrigação de tratar todos os intervenientes por igual, sem tomar partido por nenhum deles e sem procurar desvalorizar a campanha de qualquer candidato que se submeta à apreciação dos portugueses.

Ora foi exactamente o contrário o que se passou na semana passada, quando o canal público se prontificou a entrevistar André Ventura, na sua qualidade de concorrente à presidência da república.

Não assistimos a nenhuma entrevista, mas sim a uma tentativa de silenciar um candidato, impedindo-o de expor livremente os seus pontos de vista de igual modo como o que foi permitido aos seus adversários nesta corrida eleitoral.

A RTP, descaradamente e sem o mínimo esforço em disfarçar o engodo em que induziu todos quantos queriam ver esclarecidas as dúvidas que, eventualmente, tivessem em relação às ideias defendidas por André Ventura, ouvindo da sua boca os argumentos com que pretende convencer os portugueses a nele votarem, não só o detractou, violando o princípio da imparcialidade, como o impediu, de forma grosseira, de passar a mensagem a que teria direito, 

A pseudo-entrevista, conduzida por um jornaleiro sem vergonha, violou todas as regras deontológicas inerentes a quem se aventurou no curso de comunicação social, em particular pelo tom raivoso com que se dirigiu ao seu interlocutor, tratando-o com uma agressividade desmedida, e interrompendo-o constantemente, fazendo perguntas sobre perguntas, impedindo-o, através desse ardil, de responder às questões que lhe eram colocadas.

Nenhum jornalista é obrigado a gostar de um político que corra por um lugar de aceitação popular, mas é-lhe, obviamente, exigido que o respeite enquanto seu entrevistado, concedendo-lhe a faculdade de atender aos tópicos com que é confrontado.

Lidar com um candidato, ainda por cima quando este concorre à mais alta magistratura do País, como se de um marginal se tratasse, é um atentado às mais elementares regras do jogo democrático, subvertendo-se, assim, um livre escrutínio, por não estar garantido o direito à igualdade entre todos os que se submetem a esse sufrágio.

Além de mais, independentemente das simpatias ou embirrações que se possa nutrir por André Ventura, convém não esquecer que este, ao contrário dos seus directos adversários na luta pelo segundo lugar nestas eleições presidenciais (Ana Gomes, Marisa Matias e João Ferreira) nunca militou em qualquer partido extremista, nem tão-pouco se confessou admirador de algum dos mais sanguinários ditadores que o mundo conheceu.

Muito pelo contrário, o percurso político de Ventura iniciou-se no PSD, partido pelo qual se candidatou a uma presidência de câmara nas últimas eleições autárquicas, pelo que se afigura absolutamente patética esta insistência em o catalogar numa área política à qual ele nunca manifestou qualquer tipo de simpatia.

Os detractores de Ventura, escudados nos partidos do sistema, todos com responsabilidade pelo atraso sistémico a que os portugueses têm sido condenados, fruto das governações irresponsáveis que se têm alternado ao longo das últimas quatro décadas, ainda não perceberam que as atitudes infantis com que o têm obsequiado, a toda a hora, resultaram num efeito oposto ao que pretendiam, que tem sido o seu crescimento eleitoral.

André Ventura constituiu-se no saco de pancada de toda uma esquerda patética e balofa, a qual pretende disfarçar a sua veneração por regimes totalitários, opressores dos seus próprios povos, atribuindo esses devaneios ao presidente do Chega e ao partido por ele liderado.

Mas também à direita do espectro político vigente muitos encontraram em Ventura um inimigo de estimação, receosos, certamente, de que o seu espaço seja por ele ocupado.

Mas igualmente a esses o tiro tem-lhes saído pela culatra, porque a animosidade que têm evidenciado para com o seu adversário, sem razão aparente, somente levou à perda de um significativo eleitorado, apostado agora em confiar o seu voto numa nova formação política que, sem receio do politicamente correcto, lhe diz aquilo que ele sente e gosta de ouvir.

Os falsos jornalistas, ao prestarem-se a este jogo sujo encomendado pelos políticos que se sentem ameaçados com o avanço de Ventura, seja por diariamente o denegrirem ou por resvalarem para entrevistas viciadas, como aquela a que se assistiu, também são responsáveis directos por fortalecer a imagem daquele junto dos eleitores descrentes e cansados dos partidos tradicionais.

A inteligência, ao que parece, não abunda nessas mentes distorcidas.

Mas, convenhamos, se fossem inteligentes também não abraçariam os ideais que apregoam!   

 

Pedro Ochôa