Politica

Próxima etapa de Ventura são as autárquicas

Líder do Chega quer ganhar terreno nas autárquicas, depois das presidenciais. E não vai moderar o discurso. Mais, acusa PSD e CDS de ‘bullying político’ e ameaça romper acordo nos Açores.

André Ventura teve 496 653 votos nas eleições presidenciais, um terceiro lugar no ranking de candidatos e 11,90% dos votos. O líder do Chega nunca escondeu que estas eleições tinham o propósito de dar gás ao seu partido. Falhou o objetivo de «esmagar a esquerda», porque ficou atrás de Ana Gomes, mas ganhou lastro para a ideia de que está em curso uma reconfiguração à direita. A próxima etapa são as eleições autárquicas de outubro de 2021. O Chega não tem implantação autárquica e este será o próximo desafio: ganhar músculo no terreno.

André Ventura explicou o que está em causa à revista Sábado: «Se o Chega já tem algum impacto local ou se vive da figura de um líder, o que é mau». Dito de outra forma: será o primeiro tira-teimas para um partido que nasceu em 2019 e elegeu, nas primeiras legislativas, o seu líder como deputado único. Em relação às autárquicas, conquistar mandatos no Alentejo, onde Ventura teve um bom score nas presidenciais, será uma das prioridades. E quanto a nomes? Ventura deixou um elogio a Hernâni Carvalho, jornalista, que já foi candidato independente em 2009 a Odivelas com o apoio do PSD.

Questionado pelo Nascer do SOL em que autarquia gostaria de ver o jornalista como candidato com o apoio do Chega, Ventura respondeu: «Eventualmente em Lisboa, mas nunca conversei com ele sobre isso».

O resultado das presidenciais provocou um frenesim à direita, com o PSD a anunciar de imediato, pela voz de David Justino, que «com este Chega é impossível conversar». E disse-o no dia seguinte às eleições. Esta foi a primeira reação da direção social-democrata à frase de Ventura na noite eleitoral: «Não há segundas vias depois desta noite.

Hoje [domingo] ficou claro em Portugal e para a Europa e para o mundo que não haverá Governo em Portugal sem que o Chega seja parte fundamental. Não há volta a dar. PSD, ouve bem, não haverá governo em Portugal sem o Chega!»

Dois dias depois era a vez de Rui Rio, presidente do PSD, dizer de sua justiça: «O Chega, para ter conversas com o PSD, tem de se moderar. O Chega não se tem moderado, não há conversa nenhuma». 

Sinais de alerta no PSD

Esta declaração surgiu na sequência de um encontro com o líder do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos, para acerto de agulhas sobre coligações autárquicas. Rio lembrou que com o Chega não haverá acordos. «Este acordo não vai dizer que só há coligações com o CDS e com mais ninguém. (…) A única questão em que estamos de acordo é que não haverá com o Chega mas, tirando o Chega, logo se verá», explicou Rui Rio, ao lado de Francisco Rodrigues dos Santos, que subscreveu a ideia. 

O mesmo se aplica a legislativas para os dois partidos. Ou seja, ficou clara uma espécie de ‘cerca sanitária’ ao Chega no que toca a entendimentos pré-eleitorais. 

Ventura já respondeu: «O que é que o PSD quer dizer com moderar? Quer dizer que eu abandono grande parte das minhas bandeiras. E o que acontece depois a este eleitorado? Imagine que de hoje para amanhã deixo de falar da justiça, das penas, da castração dos pedófilos, da reforma do sistema fiscal. É isso que o PSD quer», atirou o também deputado único do Chega. Ora, para André Ventura o PSD «quer que o Chega se transforme num novo CDS». 
Ventura acusou o PSD e o CDS de «bullying político» por imporem a exclusão do Chega nos acordos autárquicos à direita. 

«Ora, se um partido como o Chega tem uma base nos Açores de apoio ao PSD, não podemos ter um outro raciocínio a funcionar aqui ou noutras eleições», avisou Ventura, ontem, no Parlamento, deixando uma ameaça velada sobre a quebra de acordo nos Açores para sustentar o Governo Regional do PSD.

No PSD, os resultados de Ventura foram encarados como um sinal de alerta de que é preciso reconquistar eleitorado. E entre sociais-democratas há quem aponte o dedo a Rio pelo discurso que fez na noite eleitoral, ao realçar os resultados de Ventura no Alentejo, em terras onde o PCP tem boa implantação autárquica. Pedro Rodrigues, deputado do PSD, apontou a «falência da liderança» de Rio, com sinais evidentes de reconfiguração à direita.

Já Carlos Carreiras, autarca de Cascais, preferiu destacar que ganhou o candidato que apoiava, Marcelo Rebelo de Sousa. Mais, o resultado do chefe de Estado «veio demonstrar que as candidaturas extremistas e radicais, quer à esquerda quer à direita, tiveram um resultado abaixo daquilo que tinham como perspetiva. No caso de André Ventura, é cada vez mais considerado um voto de protesto», declarou ao Nascer do SOL. Em suma, o voto em Ventura foi de quem «quis protestar contra o sistema e votou naquele partido, mas não fideliza de maneira nenhuma para as eleições autárquicas». Porém, considera que «a direita tem obrigação de refletir sobre o crescimento do Chega».

Já Guilherme Silva considerou ao Nascer do SOL que o crescimento de André Ventura «é feito à custa do eleitorado do PSD e do CDS». Por isso, «é preciso perceber quais são as causas para evitar o decréscimo. Rui Rio tem de repensar a estratégia e evitar que esse espaço cresça em detrimento do PSD». 

Quem também deixou sérios avisos internos ao PSD e à direita foi Paulo Rangel. O principal rosto do PSD em Bruxelas (que já disse não a Rui Rio para uma candidatura autárquica no Porto) considerou que, por agora, o voto em Ventura foi de protesto. Mas pode tornar-se sistémico. «Para o PSD e o CDS, os riscos de voto de protesto se volver em voto estrutural e sistémico devem ser levados a sério», escreveu no Público.