Opiniao

Guerras intestinas no PS em plena pandemia!

Pedro Nuno Santos faz um percurso para assumir claramente a liderança de uma esquerda socialista contra um qualquer candidato que Costa apoie, como Medina ou outro...

Já todos julgávamos que a vitória de Marcelo a 24 janeiro fazia parte do passado, eis senão quando, inesperadamente, Pedro Nuno Santos (PNS) saiu à liça em artigo publicado no Público, marcando claramente terreno para a liderança do PS (escreveu o militante, mas estranhamente assinou o ministro das Infraestruturas e da Habitação). 

As eleições presidenciais já tinham provocado acentuada mossa no PS. Ana Gomes, a quente, na noite eleitoral, lembrou-se de colar António Costa à sua estrepitante derrota. A falta de apoio explícito do PS, as liberdades de voto, tudo foram razões para frontalmente criticar o seu líder. Apoiada, entre outras figuras, por Alegre, Isabel Soares, Cravinho (pai), Assis ou PNS, desabafou o que lhe ia na alma, numa noite em que teve uma vitória de Pirro ao ficar 1% à frente de Ventura e viu toda a esquerda, socialista e radical, somar escassos 21%.

Foi neste enquadramento que PNS se lembrou de secundar Ana Gomes tecendo considerações graves para a liderança de António Costa, por sinal o seu primeiro-ministro. Imagina-se, no privado, um qualquer diretor efetuar críticas públicas ao seu CEO, colocando em causa a sua estratégia como fez PNS referindo: «Ao ter optado por não marcar presença no debate político das presidenciais, o PS contribuiu involuntariamente para a afirmação do candidato da extrema-direita».  Ou ainda: «Não foi criado, nem existe, apenas para estar no poder, mas, sobretudo, para transformar Portugal num país onde se vive bem em comunidade, onde trabalhadores são respeitados e as liberdades sociais e políticas aprofundadas». Acham mesmo que esse diretor continuaria mais 5 minutos no lugar?

Claramente, PNS decidiu marcar terreno para a sucessão de Costa. Já no Congresso de maio 2018 Costa teve de dizer que «ainda está longe da reforma». Era recado bem direto para PNS que volvidos quase três anos reacende a guerra pela sucessão. Pelo meio, em recente episódio sobre a TAP (dezembro 2020) entendeu sustentar, à revelia de Costa, que o Plano de Reestruturação deveria ir ao Parlamento para ser sufragado. Foi desautorizado num ápice por Costa que relembrou que «um Governo existe para governar e tomar decisões» e o Plano lá seguiu (já com diversas estórias e ainda a procissão vai no adro). 

Mas não se ficou pelo artigo. Aproveitando a ‘Portugal Railway Summit 2021’ veio novamente à ribalta renovar a defesa da ligação Porto-Lisboa em alta velocidade – qual primeiro-ministro a anunciar investimentos estratégicos – referindo a importância de ficarem ligados em 1h15m (como se hoje as prioridades fossem as mesmas de 2019). Mas não ficou por aqui e reclamou da Europa ajudas céleres (muito bem!) para a ferrovia, como sucedeu na aviação. 

Em suma, faz um percurso de notoriedade para assumir claramente a liderança de uma esquerda socialista contra um qualquer candidato que Costa apoie, como Medina ou outro (quiçá Assis, agora também a admitir entrar na corrida). Prevendo isto, partindo da opção do PS (e de Costa) sobre as presidenciais, escreveu, para além do que suprarreferir, que «acalentar a ideia de transformar o PS num ‘partido do centro’ seria “uma traição ao espírito socialista dos fundadores e dos milhares de militantes do PS». Mensagem clara e inequívoca!

Nos entretantos, nestas guerras partidárias em que PNS se entretém, Portugal é um dos 23 Estados-membros que vão ser alvo de um processo de infração da Comissão Europeia por não terem transposto o Código Europeu das Comunicações Eletrónicas até 21 dezembro 2020, responsabilidade do seu Ministério. Esta proposta de transposição nem sequer foi aprovada em Conselho de Ministros apesar de em agosto 2020 existir um anteprojeto e, segundo parece, estar pronta há algum tempo. Desconheço razões para o atraso, até posso inferir que a pandemia seja forte razão, mas francamente, não houve tempo?

Aguardemos os próximos capítulos, em particular se vai haver ou não uma remodelação ministerial que já tarda, tantos os ministros desacreditados e desgastados. Se acontecer, irá Costa perdoar (sem esquecer)? Quando as prioridades nacionais são o combate à pandemia e a recuperação da economia, afinal constata que tem um ministro a desafiá-lo para ‘jogos de xadrez’ em tabuleiros do PS (guerras intestinas)?

P.S. – Depois da queda no Índice da Perceção da Corrupção, Portugal sofre outro revés internacional ao cair da categoria de «país totalmente democrático» para «democracia com falhas», no Índice de Perceção de Democracia (The Economist). Razões? Umas compreensíveis nas circunstâncias atuais como «as restrições impostas como forma de conter a propagação da covid-19», mas outras perfeitamente evitáveis e internacionalmente graves como a «redução dos debates parlamentares» ou «a falta de transparência no processo de nomeação do presidente do Tribunal de Contas». Com a pontuação global de 7.9 (em 10), Portugal situa-se agora em 26.º na classificação geral e 15.º na regional. Juro que não fico orgulhoso!