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A vida atribulada do coração de Chopin

Chopin pediu à irmã para que o órgão vital lhe fosse retirado quando morresse, de modo a garantir que não seria enterrado vivo.

Contam várias testemunhas que quando Fryderik Chopin estava às portas da morte, depois de uma viagem à Grã-Bretanha que o deixou de rastos, as visitas se acotovelavam na antecâmara do seu elegante apartamento na Place Vendôme. Queriam ter um último vislumbre do famoso compositor polaco e, com alguma sorte, até assistir ao seu último suspiro.

Na magnífica biografia Fryderik Chopin – A life and times, Alan Walker reproduz o depoimento do escritor Jules Janin: «Tinha na sua antecâmara já não sei quantas princesas, condessas, marquesas até umas quantas burguesas que, de joelhos, esperavam a hora da sua agonia final». Acrescenta o biógrafo: «Ouvimos até falar de um fotógrafo que tentou empurrar a cama de Chopin mais para perto da janela para assegurar uma luz melhor para o seu daguerreótipo».

Outra das pessoas que espreitavam a morte do compositor era o escultor Auguste Clésinger, casado com a filha de George Sand, a antiga amante de Chopin. Embora se odiassem mutuamente, Clésinger, sempre necessitado de dinheiro, estava ansioso por fazer-lhe a máscara fúnebre para um monumento que lhe permitiria empochar uma boa maquia.

Chopin morreu de tuberculose a 17 de outubro de 1849, aos 39 anos, apesar dos esforços de vários médicos e dos bons cuidados da sua irmã mais velha, Ludwika. As suas últimas palavras foram ‘Non plus’, em resposta à pergunta do médico se estava a sofrer.

Ludwika queria dedicar-lhe um museu com objetos pessoais, manuscritos, obras de arte, o piano Pleyel, mas o marido dela – que teria mais do que uma pontinha de inveja e acreditava que Chopin estava enterrado em dívidas – obrigou-a a leiloar tudo: mobílias, tapetes, porcelanas, pratas. Alguns dos bens acabaram por dispersar-se, mas muitos dos que tinham mais significado foram arrematados por Jane Stirling, a rica amiga escocesa de Chopin que o sufocava com atenções.

Depois da morte de Jane Stirling alguns destes objetos reverteram (mais uma prova da generosidade da amiga escocesa) para a mãe de Chopin. E, quando esta faleceu, em 1855, passaram para a irmã mais nova do compositor, Izabella, em cujas mãos acabariam por convergir diferentes coleções chopinianas. Afinal, talvez fosse possível concretizar o tal museu.

Acontece que, conta-nos Alan Walker, no dia 19 de setembro de 1863 o governador russo da Polónia estava a passar pelo palácio Zamoyski, onde ficava o apartamento onde Izabella vivia, quando alguém atirou uma bomba de uma janela. Soldados entraram pelo apartamento de Izabella adentro e atiraram tudo janela fora: «cartas de família, manuscritos, mobília, e o piano Buchholtz em que o adolescente Chopin costumava praticar», enumera Walker. Depois fizeram uma pira que atingiu a altura das torres sineiras da igreja da Santa Cruz, em Varsóvia. «Havia um museu inteiro de Chopin no apartamento de Izabella, e simplesmente desapareceu nas chamas», lamenta Walker.

Já o coração do compositor teve um destino diferente. Chopin pedira à irmã para que o órgão vital lhe fosse retirado quando morresse, de modo a garantir que não seria enterrado vivo. Assim se fez: foi extraído pelos médicos e colocado numa jarra de cristal cheia de álcool. Ludwika, de regresso à Polónia, levou-a escondida debaixo da saia e deixou-a em casa de amigos.

Depois de passar algum tempo numa espécie de ferro velho, a jarra com o coração do compositor acabaria por ser depositada na Igreja da Santa Cruz (a mesma à altura de cujas torres se erguiam as chamas...). Durante a II Guerra Mundial o coração foi roubado pelos nazis, mas depois devolvido. Acabou por sobreviver miraculosamente, e talvez isso ajude a explicar o facto de hoje continuar a ser venerado como uma relíquia de um santo. Coisa que Chopin nunca foi.