Economia

Caixa. Reviravolta em 4 anos

Mandato da atual administração chegou ao fim e é marcado pelo regresso aos lucros e pela implementação do plano estratégico. Ainda não há certezas em relação à continuidade de Paulo Macedo mas tutela garante ao Nascer do SOL uma ‘equipa muito competente e profissional’ para consolidar a CGD’.


O mandato da atual administração da Caixa Geral de Depósitos (CGD) chegou ao fim e apesar de ainda não haver certezas em relação à sua continuidade já três garantias: a saída de Rui Vilar como chairman – que em outubro mostrou a sua indisponibilidade, garantindo que era «altura de virar a página» e voltou a garantir esta semana, durante a apresentação de resultados a sua saída – a implementação do plano de reestruturação imposto por Bruxelas que terminou no final de 2002 ­ – muito assente na redução da estrura: menos balcões e trabalhadores – e o regresso aos lucros desde que Paulo Macedo assumiu a liderança.

O responsável já admitiu várias vezes estar disponível para se manter no cargo, mas contactado pelo nosso jornal, o Ministério das Finanças disse apenas que «o Governo proporá aos supervisores uma equipa muito competente e profissional, que permita consolidar a CGD como o pilar do sistema bancário nacional», acrescentando que «o Ministério da Finanças não se pronuncia no decorrer do processo. A nova administração para o mandato 2021-2024 deverá ser designada este ano, na Assembleia Geral Anual que se realiza, habitualmente, em maio».

Outra alteração diz respeito aos estatutos do banco público e passa a estar previsto que seja registado em ata quem votou contra nas reuniões da administração. Uma alteração que, segundo o Ministério das Finanças, «têm por objetivo seguir as melhores práticas de governação do setor bancário», lembrando que «resulta das regras recentemente estabelecidas pelo Banco de Portugal, tendo a alteração estatutária incorporado essa regra dada a sua particular relevância. Esta regra aplica-se a qualquer matéria que seja objeto de deliberação em reuniões do conselho de administração», diz ao Nascer do SOL.

Para trás ficaram anos e anos de prejuízos, declarações como a do ex-administrador José de Matos (que assumiu a liderança da Caixa em 2011) que chegou a comparar o banco público a um «petroleiro difícil de mover» e a polémica autoria da EY à gestão da CGD entre 2000 e 2015 que obrigaram o banco dirigido por Paulo Macedo a fazer profundas alterações: implementar um novo modelo de análise do risco na concessão de crédito, reforçar a independência do responsável máximo pela gestão de risco e criar um rating para fortalecer o controlo das carteiras de crédito a empresas.

 

Plano cumprido

Em termos de resultados, 2020 não ficou diferente em relação aos últimos quatro anos, apesar de ter sido afetado pela pandemia, tal como se verificou nas outras instituições financeiras que já apresentaram contas. A Caixa lucrou 492 milhões de euros, mas representa uma queda de 36,5% face ano anterior. O banco público reconhece que esta queda se deve aos efeitos da pandemia, o que obrigou a instituição liderada por Paulo Macedo a constituir imparidades de 300 milhões de euros. «Este valor inclui um resultado extraordinário de 51 milhões de euros (depois de impostos) decorrentes de ganhos atuariais nas responsabilidades com benefícios pós-emprego (fundo de pensões e plano médico). Sem a consideração desse resultado e de custos de reestruturação incorridos com a redução do quadro de pessoal e o encerramento da sucursal de Espanha, o resultado líquido corrente atinge 450 milhões de euros».

A instituição financeira tinha mais de 67 mil créditos em moratória no final de janeiro, o que, ainda assim, representa uma redução superior a 111 mil face a julho passado. Deste total, 46.056 são empréstimos de particulares, enquanto 21.014 dizem respeito a empresas. Quando questionado sobre um possível prolongamento das moratórias, Paulo Macedo garante que um prolongamento em Portugal terá de estar dependente da legislação europeia, de maneira a que esta medida não penalize a banca. Além disso, afirmou que «não faz sentido aumentar ainda mais o tempo das moratórias, exceto para as empresas que não gerem cash flow», notando que o banco tem vários tipos de clientes com moratórias.

O ano passado ficou ainda marcado por uma descida dos custos de estrutura, que totalizaram 835,4 milhões uma redução de 12,4% face ao ano anterior. Mas vamos a números. Só em 2020, a Caixa perdeu 517 trabalhadores e fechou oito balcões face ao final do ano anterior, terminando o ano com 6.583 trabalhadores e 543 agências nos seus quadros.

No entanto, os números são mais significativos desde o início da implementação do plano estratégico: menos 134 agências e uma redução de 2.285 trabalhadores, o que levou Paulo Macedo a garantir que a instituição financeira cumpriu os objetivos previstos no plano estratégico acordado entre o Estado e Bruxelas em 2017, no âmbito da sua recapitalização.

 

Reviravolta

Ao mesmo tempo, vai propor, em assembleia-geral, o pagamento de 85 milhões de euros em dividendos ao acionista Estado. Aliás, Rui Vilar garantiu que o banco estatal «está em condições de voltar» a distribuir dividendos. Uma situação que estava prevista ocorrer no ano passado, mas acabou por não avançar com uma proposta para o pagamento de dividendos, seguindo a recomendação das autoridades europeias no contexto de pandemia. Em causam estavam 300 milhões de euros.

Assim que Paulo Macedo assumiu a liderança em fevereiro de 2017, o banco público regressou aos lucros. Nesse ano, a Caixa registou um resultado positivo de 52 milhões de euros. O presidente da administração, Rui Vilar, chegou mesmo a dizer que estes resultados representavam um «sinal de virar de página». Uma declaração que foi ao encontro do que vinha a ser dito por Paulo Macedo, quando admitia que o banco público só teria resultados positivos quando toda a reestruturação fosse materializada.

Um ano, em que a Caixa se comprometeu em avançar com «medidas profundas de redução de custos» e com a reestruturação das operações internacionais. Em causa estava a diminuição de 2218 trabalhadores e o fecho de 181 balcões.

E foi a partir daí que o banco público passou a ‘carregar’ nas comissões. Em 2017 aumentou as mesmas em 3% para 465 milhões de euros.

No ano seguinte, os lucros do banco liderado por Paulo Macedo quase multiplicaram por dez ao atingir os 496 milhões de euros. Um aumento que levou Rui Vilar a garantir que tinha regressado à remuneração acionista. Em causa estava a atribuição de dividendos na ordem dos 200 milhões de euros.

Os custos de estrutura consolidados recuaram 9,3% para 1.000,9 milhões de euros. A redução do número de trabalhadores e de agências contribuiu para esta diminuição dos custos. O número de colaboradores da CGD passou de 8.321 para 7.675 entre 2017 e 2018. Ou seja, recuou em 646. Quanto às agências, foram encerrados 65 balcões ao longo do mesmo período.

 

Melhor resultado em 12 anos

O ano de 2019 marca a CGD ao apresentar o melhor resultado de sempre. A instituição financeira lucrou 776 milhões de euros, o que representou um aumento de 56,5% face ao ano anterior, altura em que apresentou 496 milhões de euros.

A instituição financeira justificou parcialmente o bom desempenho com «o resultado extraordinário de 144 milhões de euros» relacionado com a venda de subsidiárias internacionais, nomeadamente o Banco Caixa Geral (em Espanha) e o Mercantile (em África do Sul). Estas vendas permitiram à CGD a «reversão de imparidades» que tinham sido constituídas em 2017.

Os custos de estrutura caíram 19 milhões de euros (-2%) «em consequência da redução do quadro de pessoal e das medidas de otimização da eficiência operacional». Ainda assim, totalizaram 722,2 milhões de euros. «Este montante inclui um custo não recorrente de 50,7 milhões de euros para os programas de pré-reformas e rescisões por mútuo acordo, por contrapartida da utilização em igual montante da provisão constituída em 2017 para este efeito».

O grupo CGD tinha no final de dezembro na atividade em Portugal 7.100 funcionários, o que comparava com os 7.675 que tinha em final de 2018.