Economia

O 'plano mais ambicioso de sempre' da EDP

Europa e EUA vão ser os principais investimentos da elétrica para os próximos quatro anos, mas está prevista a entrada em novos mercados asiáticos, como Vietname, Coreia do Sul ou Japão. EDP vai investir 24 mil milhões de euros na transição energética até 2025.

«O mais ambicioso de sempre». É desta forma que Miguel Stilwell d’Andrade caracteriza o plano estratégico da EDP para o período 2021-25, em que pretende investir 24 mil milhões de euros na transição energética. Deste montante, 80% serão investidos em energias renováveis, através de várias tecnologias – eólica, solar, hidrogénio verde e armazenamento de energia –, com o desenvolvimento de 4 GW por ano e duplicando a capacidade solar e eólica da empresa até 2025. «Este novo plano vai abrir caminho para que a empresa se torne neutra em emissões de carbono até 2030», promete a elétrica. 

Para o CEO da empresa, não há dúvidas: «Temos uma estratégia clara e ambiciosa para os próximos anos. Nós somos e vamos continuar a ser líderes nesta transição energética».
Contactado pelo nosso jornal, Henrique Tomé, analista da XTB, não se mostra surpreendido. «Esta aposta por parte de Miguel Stilwell já vinha a ser esperada desde que assumiu o novo cargo na empresa. A estratégia irá passar pela forte aposta em energias verdes do grupo da EDP e é notória essa aposta após ter sido divulgado o plano estratégico».

Mas vamos a números. Do total de 24 mil milhões, 60% do montante já estão assegurados. E a rotação de ativos continua a ser uma das estratégias para acelerar o crescimento do grupo energético, prevendo-se um encaixe de 8 mil milhões de euros.

Entre 2019 e 2020, a empresa alienou cerca de 50% da nova capacidade instalada e deverá descer essa percentagem para 40% entre 2021-23 e 30% nos últimos anos do plano.

A elétrica garante que através de um crescimento «acelerado e sustentável» vai continuar a diversificar o seu portefólio de ativos, ao mesmo tempo que assegura um perfil de baixo risco. A par do investimento de 80% em energias renováveis, 15% vão ser aplicados em redes e 5% em soluções para clientes e para gestão de energia.

A EDP vai acelerar o seu investimento em energias renováveis na Europa e na América do Norte e pretende duplicar a capacidade instalada em energia eólica e solar nos próximos cinco anos, de 12 GW para 25 GW, o que representa uma média de 4 GW adicionais por ano. Na geração solar descentralizada, a empresa pretende crescer dez vezes a sua presença global.

A Europa vai captar 40% do investimento e o mesmo montante será aplicado na América do Norte. Quinze por cento têm como destino o Brasil e a América Latina, e os outros 5% o «resto do mundo», onde se poderão encaixar os 1200 milhões de euros previstos em novos mercados asiáticos como, por exemplo, Vietname, Coreia do Sul ou Japão.

No anterior plano estratégico, apresentado em março de 2019, os EUA eram o destino de 40% do investimento da energética, seguidos pela Europa (35%) e Brasil (25%), mercado onde a EDP pretende desacelerar os investimentos nos próximos anos.

O objetivo é simples: desinvestir em ativos de carvão e gás. «Esta ambição suportará os compromissos de deixar de produzir a partir do carvão em 2025 e de ser totalmente verde em 2030, antecipando em 20 anos a meta de ser uma empresa sem impacto nas emissões de carbono». E a empresa acrescenta que o plano mantém o foco em investimentos que reforcem o seu cariz digital e inovador: serão investidos dois mil milhões de euros em inovação e na transformação digital até 2025, para fornecer novas soluções em hidrogénio, armazenamento de energia, redes inteligentes, comunidades de energia e mobilidade elétrica.

«A mudança de estratégia da EDP, liderada por Miguel Stilwell d’Andrade, já tinha dado indicações de que pudessem existir mudanças logo a curto prazo. A divulgação dos seus resultados referentes a 2020 mostrou um claro aumento dos seus lucros, na ordem dos 56% face ao mesmo período do ano anterior, e reflete também as alterações que o novo CEO implementou na empresa», diz ao Nascer do SOL Henrique Tomé. 

O analista da XTB lembra ainda que «apesar do impacto negativo provocado pela pandemia, a empresa acabou por apresentar resultados positivos. Por outro lado, mesmo com a atividade económica a meio gás, ainda há vários setores que continuam ativos e o crescimento do teletrabalho em Portugal poderá ter contribuído para o bom desempenho da empresa».

E os números falam por si. Os lucros da EDP subiram 56% para 801 milhões de euros em 2020. A elétrica disse que este resultado se deve ao «crescimento da atividade de produção de energia renovável, que registou um aumento de 7% face a 2019, para os 47,3 TWh de produção eólica, hídrica e solar».

O EBITDA do grupo (resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização) atingiu, no mesmo período, 3950 milhões de euros, um aumento de 6% em relação a 2019.

De acordo com a empresa liderada por Miguel Stilwell d’Andrade, a procura e os preços de eletricidade no mercado de curto prazo, assim como a produção térmica, «apresentaram quedas significativas face a 2019». Em Portugal, a energia distribuída apresentou uma redução de 3%, penalizada sobretudo pela queda de consumo no segmento empresarial, em linha com a tendência observada em Espanha e no Brasil.
 
EDP Renováveis ‘promete’

Também o lucro da EDP Renováveis subiu 17% para 556 milhões de euros em 2020. No final do ano passado, a empresa tinha um portefólio de ativos operacionais de 12,2 GW (gigawatt), com vida média de nove anos, tendo adicionado à sua carteira 1580 MW (megawatt), incluindo os 486 MW da aquisição do negócio renovável da Viesgo.

No final de 2020, a EDPR tinha 2,4 GW de nova capacidade em construção, dos quais 1648 MW relacionados com a energia eólica onshore, 404 MW com energia solar e 311 MW com participações consolidadas por equity em projetos eólicos offshore.

As receitas no ano passado totalizaram 1731 milhões de euros, um aumento de 5% em relação a 2019. O investimento total da empresa foi de 2098 milhões de euros em 2020, mais 89% do que no ano anterior, enquanto a dívida líquida totalizava 3443 milhões de euros, mais 23% do que um ano antes.

«A EDP Renováveis acabou por apresentar resultados inferiores à EDP, mas não deixam de ser resultados sólidos. A empresa apresentou um crescimento de 17% face ao mesmo período do ano anterior. No entanto, a EDP Renováveis avizinha-se promissora para este ano e os próximos, e os lucros que foram registados em 2020 poderão variar significativamente», garante Henrique Tomé.