Viver para Contar

O branco e o negro

É absurdo culparmos um branco do século XV por colocar um negro ao seu serviço como criado ou escravo. Brancos e negros não se encontravam no mesmo plano. A noção de igualdade que existe hoje não existia, nem podia existir, tão diferentes eram brancos e negros não apenas fisicamente mas em tudo. E, adiante-se, resultou em boa parte do contributo da Igreja Católica, ao dizer que todos eram ‘filhos de Deus’.


Se cada época quiser ver a História à luz dos seus conceitos, a História estará constantemente a ser reescrita. Os heróis passarão a ser malandros e voltarão a ser heróis, numa girândola permanente.

Calcula-se o espanto dos primeiros portugueses que há cinco séculos e meio acostaram à África equatorial ao verem pela primeira vez um nativo. Quem seria aquele ser de pele escura, lábios grossos, cabelo encrespado, seminu, que fugia e se escondia? À primeira vista era um macaco, mas apresentava diferenças em relação aos macacos: não tinha o corpo coberto de pelo e usava menos os braços a andar.

Quando conseguiram apanhar os primeiros nativos, os portugueses confirmaram que não eram macacos: além das diferenças físicas pareciam comunicar entre eles através de sons, embora estes nada tivessem que ver com as línguas que conheciam.

A partir do momento em que os brancos começaram a instalar-se em África, primeiro na costa e depois aventurando-se no interior, tornou-se difícil a convivência entre os europeus e os nativos. Havia, por assim dizer, três ‘mundos’: o dos brancos, o dos animais ‘selvagens’ e o dos nativos negros, que constituíam uma espécie de categoria intermédia. Tinham uma organização social, embora rudimentar, cultivavam a terra, caçavam, construíam cabanas para se abrigarem. E nessa medida podiam ser utilizados para substituir os brancos em certos trabalhos.

É claro que eles reagiram. Aqui e ali revoltaram-se. Queriam viver a sua vida. Para se servirem deles, os brancos começaram a persegui-los, caçá-los, aprisioná-los, às vezes acorrentá-los, pondo-os depois a trabalhar sob as suas ordens.

Havia tarefas onde os nativos eram melhores do que os brancos, como a caça ou certos tipos de agricultura. Conheciam melhor a floresta e os animais. E podiam ser usados com vantagem a reconhecer percursos no mato, a seguir pistas, a abrir trilhos. E noutros trabalhos, aliando os conhecimentos dos brancos à força e agilidade dos negros, formavam-se equipas eficazes.

A pouco e pouco, brancos e negros aproximaram-se, embora numa relação de sujeição. Os brancos mandavam, os negros ajudavam a executar. Sendo uma força de trabalho, começaram a ser usados como mercadoria. Uns brancos especializaram-se nisso, apanhando-os e vendendo-os. Outras vezes eram os chefes tribais que os vendiam aos brancos, em troca de vários tipos de produtos, entre os quais o álcool.

Com o passar do tempo, os nativos negros foram-se dividindo em duas categorias: os que estavam perto dos brancos, que os serviam como escravos ou criados, e os que continuavam a viver a sua vida, organizados em tribos com os seus chefes, vivendo nas cubatas, caçando, cultivando a terra com os seus métodos tradicionais.

No mundo criado pelos portugueses, existiam, porém, uns indivíduos sui generis. Vestindo longos hábitos, não atuavam como os outros brancos. Não usavam os negros como escravos nem lhes batiam, e tentavam ensinar-lhes certos preceitos: queriam que eles aprendessem a nossa língua, que recitassem umas lengalengas e não andassem nus. Pregavam-lhes aquilo que consideravam ser o ‘bem’ e inculcavam-lhes a noção de ‘pecado’. Mais tarde os nativos perceberam que aqueles homens, a quem chamavam missionários, queriam ‘evangelizá-los’, fazer deles ‘cristãos’, ‘salvar as suas almas’, como diziam.

Este processo teve consequências em dois planos. Inculcou-lhes certos princípios morais, como não roubar ou não matar, e determinados modos de vestir, de cozinhar os alimentos, de cultivar a terra, usando novos utensílios.

Os nativos passaram a dividir-se entre os europeizados, vivendo próximos dos brancos e replicando os seus princípios e os seus hábitos, e os que se mantinham fiéis ao seu modo de vida ancestral. A estes, os brancos chamavam ‘selvagens’.

Como é bom de ver, esta relação entre brancos e negros foi evoluindo com a mudança dos séculos. Num primeiro momento, o negócio de escravos desenvolveu-se, ‘sofisticou-se’, os negros começaram a ser levados para outras paragens, como o Brasil. Mas o processo de integração de negros por parte da comunidade branca também se aperfeiçoou, sobretudo com a proliferação das ‘missões’ católicas.

Da aproximação entre brancos e negros resultaram naturalmente cruzamentos. Estes eram mais frequentes nas colónias portuguesas do que nas inglesas, belgas ou alemãs, onde a distância entre uns e outros era maior, talvez por ser também maior a diferença entre as cores da pele.

No geral, eram os homens que ‘se usavam’ das raparigas negras, até porque muitas vezes elas eram ‘propriedade’ sua – escravas ou serviçais. Mas também havia casos em que as mulheres brancas eram atraídas pela virilidade dos negros e se relacionavam com eles. Compreende-se que jovens mulheres casadas com brancos, cujos maridos se ausentavam de casa por longo tempo, em viagens arriscadas donde não se sabia se voltavam, se envolvessem com jovens criados.

Desses cruzamentos entre brancos e negros resultaram os ‘mestiços’ ou ‘mulatos’, que formavam uma nova categoria, com características próprias.

Os anos passaram, a escravatura foi abolida, a propriedade de uns homens por outros acabou, os negros foram considerados seres humanos exatamente iguais aos brancos e equiparados a estes em direitos, os países de África tornaram-se independentes, mas as sequelas da colonização continuam a fazer sentir-se. Alguns negros dizem que são vítimas de racismo, alguns brancos concordam, outros respondem que os europeus saíram de África e esse capítulo da História está encerrado.

Por que escrevi este texto?

Para tentar mostrar que não se pode ler a História à luz da moral de hoje, dos conceitos de hoje e dos princípios de hoje. Para percebermos cada época, é preciso colocarmo-nos nesse tempo, percebermos como então era o mundo, como os homens se viam uns aos outros – pensando mesmo alguns que nem todos os seres humanos eram humanos.

É absurdo culparmos um branco do século XV por colocar um negro ao seu serviço como criado ou escravo. Brancos e negros não se encontravam no mesmo plano. A noção de igualdade que existe hoje não existia, nem podia existir, tão diferentes eram brancos e negros não apenas fisicamente mas em tudo. E, adiante-se, resultou em boa parte do contributo da Igreja Católica, ao dizer que todos eram ‘filhos de Deus’.

Se cada época quiser ver a História à luz dos seus conceitos – e, às vezes, à luz de ideologias ou ideias passageiras –, a História estará constantemente a ser reescrita. Os heróis passarão a ser malandros e voltarão a ser heróis, numa girândola permanente.

A História precisa de estabilidade. E ela só se conseguirá se conseguirmos entender os acontecimentos no seu contexto. Quem não conseguir fazê-lo, nunca perceberá nada.