Economia

Aeroporto. Alverca terá menos ruído

Para os defensores desta localização, acabar com os voos à noite na Portela não chega. É preciso serem mais altos para reduzir ruído, melhorar qualidade de ar, diminuir risco de acidentes e ‘Alverca permite isso’.


A solução hub Alverca (longo-curso)/ Portela (médio-curso) correspondente a uma melhoria da saúde e bem-estar tanto no interior das casas como ao ar livre. A conclusão é da análise dos promotores da solução do aeroporto em Alverca, a que o Nascer do SOL teve acesso. «Com a nova configuração, os ganhos em saúde e bem-estar versus ano 2012 serão significativos para os habitantes de Lisboa-Loures sob as trajetórias de chegada-saída do aeroporto», alerta o documento. E dá exemplos: nenhum habitante seria afetado por ruído à noite, o que representaria uma melhoria do bem-estar de 138.700 pessoas; o número de habitantes na abrangente curva de 55Db – valor considerado aceitável segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) para o ruído próximo do limite da área do aeroporto durante o dia – reduz de 124.300 para menos de 40 mil, ou seja, 1/3; e não abrange nenhum habitante dentro da curva de 70Db –altura em que é esperada a ocorrência de sintomas e sérios danos à saúde – quando anteriormente eram 1.200 pessoas abrangidas.

Estes benefícios, segundo o mesmo documento, também se aplicam à vivência das pessoas ao ar livre. E admite que, apesar da Câmara Municipal de Lisboa ter vindo a melhorar a vivência da cidade com articuladas políticas ambientais que beneficiam a população, continua a existir grande exposição ao ruído aéreo. «O fecho de ruas ao trânsito automóvel/redução de velocidade de circulação; o extraordinário aumento de esplanadas em restaurantes e cafés; o melhoramento dos jardins – como o Campo Grande, Gulbenkian/ Praça de Espanha, Parque Eduardo VII, etc. – a rede de ciclovias (bicicletas-trotinetes) por toda a cidade e o incentivo a viaturas e velocípedes com motorização elétrica mediante locais de carregamento colocam mais pessoas a usufruir dos benefícios da vida e deslocação ao ar livre e baixam o nível de ruído». Mas deixa um alerta: «A única solução para compatibilizar um aeroporto com estas políticas camarárias é reduzir o número de movimentos/aumentar a altura de sobrevoo da população».

José Furtado, especialista português no setor e responsável pelo desenvolvimento da solução Alverca, lembra ao nosso jornal que, acabar com os voos à noite, tal como tem sido defendido por Fernando Medina, é importante mas não chega. «É também preciso reduzir a frequência dos voos durante o dia e já não basta olhar apenas para o isolamento das casas. Lisboa é uma cidade com um excelente clima e isso é um dos principais fatores de atração do turismo. Hoje, os habitantes vivem muito mais a ‘rua’ e os turistas passeiam a pé e em autocarros descobertos», acrescentando que «a pandemia acentuou ainda mais a tendência de usufruir o ar livre. Só com o expressivo recuo da soleira é possível baixar o ruído aéreo e isto é de especial importância mais perto do aeroporto onde os aviões passam já muito baixo – como é o caso do Campo Grande ou da Praça de Espanha», refere ao Nascer do SOL, quando passa um avião).

De acordo com o responsável, esta alternativa permite uma «grande capacidade do sistema de pistas/número de stands a instalar na área de 1.200 ha disponível em Alverca, possibilita no sistema dual limitar o aeroporto na Portela a 110 mil movimentos por ano, como o aeroporto London City e harmonizar não só este volume com o horário ocupacional da população como, também melhorar as próprias trajetórias de aterragem e descolagem» (ver infografia).

Esta alteração com a deslocação até 1.250m das soleiras de aterragem na pista para o interior do aeroporto na Portela – que a solução dual com o hub Alverca permite – «a população de Lisboa-Loures será sobrevoada a uma altura bem superior, com a correspondente melhoria da saúde e bem-estar tanto no interior das casas como ao ar livre. É reduzido o risco de acidente aéreo com consequências para os sobrevoados (nenhuma habitação no trecho mais perigoso, os últimos 1.500m antes da soleira da pista)».

E vai mais longe: «Qualquer medida que melhore a vivência de Lisboa e baixe o risco de acidente com consequências para os sobrevoados é incompatível com o extraordinário reforço da Portela. O aeroporto de Lisboa só sobrevive se for ‘citadino’».

 

Futuro sustentável

O documento lembra ainda que a infraestrutura na Portela já estava saturada antes da entrada VINCI, em 2012, altura em que afetava 139 mil pessoas com o nível de ruído. «No ano anterior tinha atingido 14,8 milhões de passageiros com 143 mil movimentos, afetando 124.300 pessoas com o ruído na ponderação diária (dia-entardecer-noite), subindo para 138.700 pessoas só no período noturno (23h às 7h)».

Um número que subiu para 321 mil pessoas, em 2016. «Com a explosão do turismo lisboeta, no ano 2016 – o último ano com dados sobre o ruído com origem no aeroporto na Portela – registou-se uma subida de cerca de quarenta mil movimentos, com o número de pessoas afetadas pelo ruído subindo para 288.300, chegando no período noturno a 312.600», revela o estudo a que o Nascer do SOL teve acesso.

E se o plano da VINCI é acrescentar no aeroporto da Portela 170 mil voos em relação aos que já existiam então esse número representa um aumento três vezes superior face ao que já tinha subido até 2016.

Face a este cenário, os promotores da solução não têm dúvidas: «A alternativa do concedente à solução VINCI é a única forma de Lisboa-Loures ter um futuro sustentável. A solução VINCI vai contra as boas práticas europeias na melhoria de vida dos cidadãos, com todos os hubs europeus que eram dentro da cidade a fecharem ou reduzirem o volume de tráfego, passando a aeroporto ‘citadinos’ só até médio curso. O aeroporto na Portela é o último dentro de uma cidade europeia».

E lembram que o presidente da Câmara Municipal de Lisboa já indicou que a intenção da VINCI de reforçar o movimento aéreo na Portela não é compatível com o desenvolvimento sustentável. «Havendo uma solução de desvio do hub para um aeroporto até 20 quilómetros da cidade baixa o volume de tráfego aéreo no aeroporto na Portela para nível igual ou até inferior ao existente antes da concessão».

 

Impasse

Mas apesar do esforço por parte deste grupo na promoção de Alverca como melhor hipótese para dar apoio ao aeroporto da Portela, o impasse em torno da futuro localização da nova infraestrutura continua. E todos estes argumentos a par da distância ­– o hub de Alverca está a 15 minutos de Lisboa, enquanto o hub do Montijo fica a 40 minutos e o hub de Alcochete a 60 minutos – continuam a ser defendidos. Aliás, tal como o nosso jornal avançou na semana passada, os estudos já estão nas mãos dos grupos parlamentares com assento na Assembleia da República.

 De acordo com o estudo que foi apresentado ao Parlamento e a que o Nascer do SOL teve acesso, o hub Alverca estaria operacional em dois anos e meio, a avaliação ambiental já foi entregue e a somar a estes benefícios está ainda a disponibilidade imediata do local. Neste espaço, segundo o mesmo documento, já existe acesso rodoviário, ferrovia quadruplicada e mais dois taxiways.

Uma solução destas, de acordo com o mesmo grupo, iria colocar a nova infraestrutura «em segundo lugar no ranking europeu e em nono lugar no mundial». Ao mesmo tempo, «as pistas desfasadas longitudinalmente melhoram a segurança nacional»

José Furtado enumera outras vantagens, nomeadamente no que diz respeito ao impacto com a natureza: «A pista do Montijo tem três pontos de forte conflito com grande concentração de aves de médio e grande porte num ambiente que ainda está preservado. A pista de Alverca só terá conflito com bandos de aves (em menor número e com menor envergadura) em um ponto a sul que, no presente, tem o habitat totalmente estragado por parte do dique do mouchão ter colapsado há três anos – desde então a ilha está submersa por água salgada no ciclo das marés».

Certo é que vão surgindo sugestões de outras possíveis localizações. É o caso de Monte Real e de Beja, com esta última a ser descartada por António Costa. «Não faz o menor sentido colocar Beja nesta avaliação. O aeroporto mais longe de um centro urbano que existe está a 66 quilómetros. Lisboa está de Beja à distância de 129 quilómetros, e isto é intransponível», disse, esta semana, o primeiro-ministro no Parlamento.