Opinião

Haverá vacinas para as taxas de juro?

Não falta muito para o BCE terminar os apoios às várias economias e a portuguesa, será das que mais poderá sofrer, com a inevitável subida das taxas de juros.

1. Mais uma vez o IGCP fez esta semana uma emissão de dívida de curto prazo conseguindo taxas negativas. Assim, em 17 de março conseguiu Eur 500 M com uma taxa de -0,552% em títulos com maturidade em 17 de setembro de 2021 e Eur 1000M com uma taxa de -0,527% com maturidade em 18 de março de 2022. Um feito só possível pelo continuado apoio do BCE a sustentar estas taxas até a economia começar a recuperar.

Há uma semana, 10 de março, o IGCP fez uma emissão de Eur 625 M com maturidade em 18 outubro de 2030 (quase 10 anos) com uma taxa de 0,237%, já refletindo um aumento perante a subida da inflação e as perspetivas de recuperação económica (face a janeiro de 2021, com taxas negativas). Somos realmente uns felizardos por estarmos na União Europeia, apesar de muitos que à esquerda apoiam este Governo criticarem ideologicamente esta opção estratégica e fundamental, como se comprova.

Entretanto, se olharmos para os EUA, constatamos que a dívida a 10 anos está com uma taxa acima de 1,7% e que subiu em 12 meses mais de 50%. Comentadores internacionais referem que as taxas poderão ainda subir nos próximos tempos, o que poderá prejudicar a retoma americana. Ao invés, Jerome Powell (presidente da FED) garante que os apoios à economia irão continuar nesta Presidência de Joe Biden que prometeu injeções mensais de USD 120 MM a reforçar a liquidez (num total de USD 1,9 bn), visando estimular o crescimento económico, revisto agora em 6,5% para 2021.

Nesta matéria, a Europa, se compararmos com os EUA, parece um pouco anémica. O BCE previu recentemente um crescimento para 2021 de 4% para a zona europeia, estando a Alemanha com 3,1%, a Espanha com 5,7%, a França com 5,9% e Itália com 4,1%. Nada brilhante, sobretudo se pensarmos os impactos na economia nacional cujo crescimento, segundo a S&P, será de 4,8% em 2021, apesar do terrível impacto da 3.ª vaga neste trimestre. Sobre o rating do país, a S&P manteve em BBB (estável).

Concluindo, parece inequívoco que não falta muito para o BCE terminar os apoios às várias economias e a portuguesa, com a dívida pública nacional em cerca de 135% do PIB, será das que mais poderá sofrer com a inevitável subida das taxas de juro. Mais uma razão para se pensar muito bem na aplicação dos fundos provenientes do PRR, para se rever o modelo estatizante proposto, criando uma forte dinâmica de investimento com impactos estruturais, incluindo apoios ao setor privado. Felizmente que não faltaram os contributos dados em consulta pública ao PRR (total de 1.700 que resultaram em mais de 3.000 propostas) mas será que aqueles que decidem saberão ouvir preferencialmente a sociedade civil que cria e produz riqueza ou, ideologicamente, farão orelhas moucas?

2. Este tema da suspeita sobre as vacinas da AstraZeneca é verdadeiramente irracional. Tudo o que podia correr mal, correu! Soube-se da existência de escassos casos de pessoas a sofrerem de tromboses resultantes de coágulos sanguíneos numa percentagem mais que ínfima depois de tomarem a referida vacina e, sem nada se provar, deixou-se transparecer uma relação causa/efeito para a opinião pública.

Era um dos momentos em que a Europa deveria mostrar liderança, mas, mais uma vez, falhou em todos os capítulos. Cada país começou a tomar decisões unilaterais e, de repente, o caos instalou-se. Infelizmente, o desmentido nunca tem a força da notícia e, atualmente, as pessoas olham de soslaio para esta vacina, por coincidência inglesa (alô Brexit?) e a mais barata no mercado. Ganhar a confiança será tarefa hercúlea, mas já conta com o apoio da Agência Europeia do Medicamento que veio garantir a sua segurança e eficácia, embora tardiamente e permitindo um ‘ruído’ que deveria ter sido cortado cerce.

P.S. – O Festival da Canção da RTP continua a ser um momento de elegia da música portuguesa e do que de bom se faz cá pelo burgo. Este ano até teve a sua parte revolucionária ao serem recordados nesta 55.ª edição Zé Mário Branco, Sérgio Godinho e o Zeca (Afonso), a propósito de uns álbuns gravados em 1971 (celebrando os seus 50 anos).

Ouvir qualquer um destes extraordinários músicos que marcaram indelevelmente a música portuguesa, cantando em português, é sempre um prazer e a RTP fez verdadeiro serviço público ao recordá-los. Mas como não há bela sem senão, este serão bem passado teve um final infeliz – a vitória de uma canção em língua inglesa. Para um Festival que tão bem começou ao recordar músicos que cantavam em português, só tenho um comentário: ‘não havia necessidade’!