Sociedade

"70% da população vacinada não dá imunidade de grupo"

O Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças, o organismo de saúde pública da UE, passou a fazer projeções para a evolução da pandemia. Para Portugal, a tendência é de estabilização, mas não se descarta uma nova onda em maio. Helen Johnson, técnica do ECDC e especialista em modelação – no último ano dedicada à covid-19 – diz, em entrevista ao Nascer do SOL, que a sua maior preocupação neste momento não são variantes ou relutância vacinal mas a complacência. ‘Torna-nos extremamente impopulares dizer que ainda não estamos livres’.

O ECDC lançou uma nova plataforma com projeções para a evolução da  pandemia. Um ano depois, e nesta altura em que há mais otimismo, ainda são necessárias?

Continuamos sem saber o que vai acontecer. A evolução continua a depender de vários fatores, de como o programa de vacinação se desenrola, o que depende do abastecimento, da toma. Temos de ter em conta as variantes em circulação, que variantes emergem, que variantes substituem outras, se a vacina é adequada para proteger da doença no caso de novas variantes. Depende de medidas não farmacológicas como confinamento ou o uso de máscaras e de como é que as pessoas se comportam quando são vacinadas. Por isso, ainda há muitos fatores a combinar e que afetam o futuro desenvolvimento da doença na Europa. Portanto, diria que estamos longe de chegar ao fim ou de sermos capazes de tirar as mãos do volante e dizer isto vai seguir este curso previsível, seguramente não estamos aí.

Ouvimos por um lado essa incerteza, por outro a afirmação de que vamos chegar à imunidade de grupo no verão quando 70% da população estiver vacinada. Onde é que estamos na maratona da pandemia?

O objetivo primário da vacinação não é obter imunidade de grupo.  Os objetivos primários são reduzir a pressão nos hospitais e prevenir casos muito graves que levam à morte. Isto é diferente de a vacinação ter como objetivo primário prevenir a transmissão do vírus. Reduzir a circulação do vírus pode ser desejável, mas na realidade vai ser muito difícil de atingir e se continuarmos a ter novas variantes não vamos querer tirar os olhos da bola.

Há o argumento de que tentar interromper por completo a circulação poderia ser contraproducente, porque assim a população, mais protegida, acaba por ir estando em contacto com novas mutações, como na gripe.

É um tema bastante complexo, o nível de circulação do vírus pode influenciar a emergência de novas variantes. O vírus sofre uma pressão evolutiva: poderá ter mais mutações quando é suprimido porque tem de competir mais. Este tipo de coisas não são algo que consigamos modelar nas projeções. A vantagem deste hub é que de facto existem muitos modelos diferentes, que fazem assunções diferentes. Uns têm em conta as novas variantes, outros vão especificamente olhar para as medidas em vigor nos países em cada momento e outros são apenas estatísticos: ‘esta é a tendência atual e, se se mantiver, a linha continua assim’. Portanto, temos muitos cientistas em vários países a olhar para a questão de várias maneiras e o que fizemos foi não apenas juntar estes modelos todos para que os possamos comparar numa mesma plataforma, mas combiná-los num modelo conjunto, o que permite reduzir a incerteza e conseguirmos previsões mais precisas. Mesmo que estivéssemos no final desta história, e não estamos, é uma plataforma importante, porque há sempre outros vírus e outras ameaças a que temos de estar atentos.

O sarampo por exemplo?

No caso do sarampo seria difícil usar um modelo assim. Há um elemento aleatório. Sabemos que os surtos são mais prováveis quando a taxa de vacinação é baixa mas, como na maioria dos locais estamos muito perto da linha da imunidade de grupo (95% vacinados), depende muito de haver um caso importado e do comportamento das pessoas. Mas, por exemplo, pode ser usado na gripe ou na dengue. Temos colaborado muito com o CDC nos EUA no desenvolvimento destas ferramentas. O CDC faz projeções da gripe há oito ou nove anos e tínhamos falado de termos um hub destes antes da emergência da covid-19. E por isso acreditamos que ter esta comunidade de pessoas que se conhece, que cria hábitos de trabalho, que tem esta plataforma é muito positivo porque significa que estamos prontos. E é uma ferramenta versátil, que pode ser adaptada. Estamos melhor preparados para a próxima vez.

Para já, e voltando um pouco atrás, não acredita que vamos atingir a imunidade de grupo no verão?

Não é o objetivo primário da vacinação. Estamos a tentar impedir mortes e que os hospitais fiquem sobrecarregados. Na realidade nem é claro quantas pessoas têm de ser vacinadas para se atingir a imunidade de grupo nesta doença. Quando as pessoas dão números…

Os 70% de população vacinada...

Quando se diz 70%, está a fazer-se uma assunção importante, que é que as pessoas se misturam de maneira igual. Ou seja, quando sai da porta do seu prédio é tão provável encontrar-se com alguém que é exatamente igual a si ou completamente diferente, que é tão provável encontrar-se com alguém que vive no seu prédio como com alguém que vive no fim da rua. Que hoje vai estar com pessoas diferentes daquelas com quem esteve ontem. É completamente irrealista. As pessoas tendem a interagir por grupos e dentro de grupos com pessoas que são semelhantes entre si, por exemplo idades semelhantes. Portanto a ideia de que todas as pessoas se misturam de forma aleatória tem falhas e, se estamos a dizer que a imunidade está nos 70%, basicamente ficamos abertos a grandes surtos em comunidades onde pode haver várias pessoas em risco.

Tinha de haver maior cobertura vacinal para haver uma barreira mais efetiva na transmissão?

Sim, se quiséssemos reduzir o risco de grandes surtos, e vai haver sempre alguns surtos mesmo no limiar da imunidade de grupo, tínhamos de ir além de 70% em todas as comunidades, em todos os locais, em todos os grupos de pessoas. Não pode haver grupos de pessoas que digam que não querem ter a vacina...

Neste momento não estão ainda a ser vacinadas crianças, o que significa que com 70% dos adultos vacinados teremos 58% da população vacinada.

Sim, o vírus não seria eliminado sem a vacinação de crianças. Portanto, o objetivo não é imunidade de grupo e acho que mesmo que não houvesse estas questões em torno do abastecimento das vacinas não seria atingido. O que é esperado é que o programa de vacinação até ao verão tenha reduzido radicalmente o número de pessoas que estão em risco de morrer ou de ficar severamente doentes.

Pelo efeito da vacinação ou pela sazonalidade?

Não sabemos muito sobre qual será a sazonalidade deste vírus. Tudo o que vimos até aqui da covid-19 foi influenciado pelas políticas e medidas não farmacológicas que foram implementadas. Basicamente, não temos nenhuma ideia da sazonalidade, porque tivemos enormes alterações de comportamentos que ensombraram as características naturais do vírus. Portanto, para o resto de 2021 o número de casos de covid-19 e o número de mortes vai continuar a resultar de escolhas políticas. O que aconteceu no ano passado foi totalmente moldado pelas decisões de abrir e fechar sociedades, abrir e fechar restaurantes, deixar ou não deixar as pessoas viajar. Este ano também temos as vacinas nesta equação, as escolhas podem ser diferentes e ter diferentes efeitos, mas ainda assim o resultado continuará a ser guiado pelas escolhas que são feitas pelas pessoas, tanto a nível pessoal, como a nível comunitário, como a nível governamental.

Nas projeções que fazem para a Europa e também para Portugal, a epidemia permanece estável nas próximas semanas, mas há um grande intervalo de incerteza em que pode haver um aumento de casos e mortes. Qual é a leitura: não estamos prontos para um verão calmo?

Sim, não estamos prontos para o verão. O que dá para ver no hub é que a faixa de incerteza nas projeções aumenta à medida que nos afastamos no tempo. E isso é fácil de perceber: conseguimos ter mais certezas sobre o que vai acontecer daqui a cinco minutos do que para a próxima semana. Mas o que o modelo tem em conta é que existe incerteza sobre as escolhas que vão ser feitas, em como é que as pessoas vão alterar os seus comportamentos daqui para a frente. Há muitos modeladores que se sentem muito desconfortáveis em fazer projeções a quatro semanas. E, se vamos fazê-lo, é preciso tentar perceber o que significa toda aquela incerteza. Uma coisa interessante deste projeto é que temos reuniões semanais, em que podemos debater ideias e trocar informações.

Têm modeladores portugueses?

Penso que não temos, mas estamos em contacto com pessoas em Portugal e queremos continuar a recrutar modeladores. Até pode ser uma equipa que faça só a modelação de Portugal.

Havendo uma nova onda de infeções, será menor do que as anteriores?

Mais uma vez, depende de muitos fatores. Seguramente há mais pessoas vacinadas e menos pessoas suscetíveis até pela infeção natural, mas se houver uma nova variante que implique que essa imunidade já não funciona tão bem e se reabrirmos tudo não há nenhuma razão para não ser pelo menos tão grande como as vagas anteriores. Acho que temos de manter este sentido de cautela. Lembro-me de ter conversas em maio do ano passado em que se dizia ‘estamos cansados’, ‘não vamos conseguir manter o público a bordo’. Foi há um ano. Torna-nos extremamente impopulares dizermos que ainda não estamos livres (out of the woods) mas há muitas coisas a ter em conta.

Temos visto em Portugal mais infeções diagnosticadas em jovens, o que é menos problemático em termos de doença. A ideia de que os mais vulneráveis estão mais protegidos quando só 40% da população tem algum tipo de proteção pode dar alguma falsa segurança?

O objetivo primário do programa de vacinação é dar proteção a quem está em maior risco. No entanto, se as pessoas relaxarem muito cedo e começarem a misturar-se livremente, o aumento da transmissibilidade do vírus pode ultrapassar os benefícios vistos até aqui.

No final do ano passado, como agora, havia otimismo. Sente desvanecer-se esse sentido de cautela ou percebe que é preciso transmitir esperança?

Precisamos de esperança mas também de manter um entendimento dos diferentes fatores em jogo. Tem sido um grande desafio ao longo dos últimos 16 meses perceber como é que o vírus funciona, como é que as pessoas se comportam numa situação como nunca viveram, como equilibrar os custos de limitar agora a sociedade e os custos que vamos ter, porque há outros custos de saúde, outros custos sociais associados a este fechar da sociedade. Acho que não temos de ser pessimistas, mas temos de continuar a ter uma avaliação firme e racional da situação em que estamos e não nos deixarmos levar pelo grande desejo que todos temos de que tudo isto acabe.

Como já disse, tem havido vários modelos, previsões, que quando não acertam são por vezes postos em causa. Sente que existe uma descredibilização ou da parte dos decisores há interesse nos dados?

Há um frase famosa entre os modeladores, atribuída a George Box, estatístico, que diz ‘todos os modelos estão errados e alguns são úteis’. Os modeladores estão muito conscientes das suas limitações e da incerteza. Um bom modelador é sempre muito zeloso daquilo que o seu modelo consegue dizer, do que não consegue e como é que pode ser ser usado. Falei com muitos decisores, políticos, ao longo dos anos e especialmente no último. Acho que quando se percebe o que este tipo de ferramentas nos pode dar em termos de cenários, a informação é útil. Claro que são conceitos difíceis de interiorizar quando uma pessoa precisa de fazer uma coisa concreta, definir uma medida para a sua população. Mas para pesar decisões, para pensar o que pode ou não acontecer, os modelos matemáticos podem dar-nos das melhores visões. Não é só dizer o que pode ou não acontecer, mas perceber fatores. Se um modelo por exemplo não representar a realidade que vivemos, podemos perguntar: o que será que não tivemos em conta? Não incluímos o uso de máscara? A emergência de uma variante mais transmissível?

O modelo pode dar respostas que não correspondem ao que realmente provocou a situação.

O que fazemos é calibrar o modelo de forma a representar o que aconteceu até ao dia de hoje e, se conseguirmos fazer isso, podemos ter mais confiança nas projeções. Temos de ir monitorizando para perceber até que ponto o modelo continua a representar bem as coisas até ao dia de hoje.

Qual é a sua maior preocupação: são variantes, menor uso de máscaras, relutância vacinal?

A complacência.

Com o vírus.

Sim, mais do que qualquer outro fator.

E como se transmite aos decisores?

Com conversas muito parecidas com esta. Digo ‘não se esqueçam’. Não se esqueçam que 70% não vai dar imunidade de grupo. Não se esqueçam que as variantes vão continuar a emergir. Não se esqueçam que as pessoas vão querer correr lá para fora. Não se esqueçam. Não é agradável. Não é uma mensagem que alguém queira ouvir, mas temos de manter a energia e continuar.