Sociedade

José Manuel Fernandes: "Considero excessivo e perigoso o poder da ERC"

Diz-se um defensor da liberdade de pensamento e acredita que a ERC vai ficar com um poder excessivo, abrindo portas à censura. O publisher do Observador fala dos sete anos do projeto e o que mudou no país.


José Manuel Fernandes, para mim, rima com Vicente Jorge Silva, João Carreira Bom, José Mário Costa, José António Lima, Alexandre Pomar, Clara Ferreira Alves, José António Saraiva ou Joaquim Vieira, entre outros, quando eu ainda sonhava ser jornalista e me iniciava no secretariado de redação do Expresso, altura em que fiquei com a alcunha de ‘diretor estagiário’. Não éramos íntimos, ele andava mais pela Revista e a minha vida fazia-se mais pelo ‘Primeiro Caderno’. O José António Lima e o Joaquim Vieira davam-me um curso acelerado de cultura geral, fornecendo-me livros de Gabriel Garcia Marquez, entre muitos outros, além de me levarem a sessões intermináveis na Cinemateca para ver clássicos do cinema, como Serguei Eisenstein. Depois do José Manuel Fernandes ter saído para o Público, no final dos anos 80, só voltei a encontrá-lo no ano passado, quando o entrevistei para o i. Esta semana voltámos a cruzar-nos para falar dos sete anos do Observador e do mundo em geral. Ele está muito mais magro do que no tempo do Expresso, eu estou muito mais gordo. Sinais do tempo, enquanto se podem fazer estas observações.

O Observador fez esta semana sete anos. O que acrecentou ao país?

Quando surgimos, não havia nenhum jornal exclusivamente online – havia um com essa ambição – ao contrário da maior parte dos países desenvolvidos. Havia algum desequilíbrio na informação. Isso mudou bastante com o Observador, que se tornou um projeto diferente.

Diferente em quê?

Primeiro, mais rápido. A produção de notícias é feita ao minuto. Não se espera, como então, pelo próximo noticiário da rádio que era e é feito de hora a hora. As pessoas já não têm memória disso, pois agora estamos permanentemente a receber notícias no telemóvel, a ler um noticiário num telemóvel. E isso acontecia porque os sites informativos que existiam não estavam preparados para serem lidos em smartphones e nós nascemos com essas características. Só havia um site em Portugal que estava preparado para ser lido em smatphone.

Mas pode dizer-se que era uma questão de minutos. Esperar pelo noticiário da rádio.

Tinha a ver com a própria dinâmica de produção de informação. Algumas coisas que não se faziam e passaram a fazer-se com regularidade. Era um tipo de informação que não se produzia daquela maneira, de dar uma informação mais explicada. A noção de que não vale a pena guardar grandes caixas para o dia seguinte. Ajudámos a abrir o debate que era muito monocórdico, não estou a dizer que hoje seja muito mais plural, mas connosco ficou mais plural. Porque começámos a dar visibilidade a temas que talvez não fossem tão visíveis.

Mas temas é uma coisa muito vasta. Para quem se apresenta como explicador...

Nós temos uma secção, podemos chamar de empreendedorismo, de startups, de novas empresas. É uma coisa que temos desde o início. É bom recordar que, nessa época, houve livros escritos contra o empreendedorismo e as startups, exaltando as virtudes do trabalho ‘tradicional’ e do sindicalismo. A nossa perspetiva era de que o país precisava e precisa de mais iniciativa, ideias, gente nova, concorrência, abertura, dinamismo. E, de alguma forma, temos procurado fazer um jornalismo nesse sentido, e não é só nas páginas de opinião, é de de uma forma genérica. É trazer grandes temas, grandes investigações. É claro que nós, nalguns temas, ajudamos a torná-los mais conhecidos, mas não fomos os únicos. Toda a gente achava impossível a sustentabilidade de um projeto só digital e demonstrámos que é possível.

A parte informativa já é sustentável só por si? Não precisam de os produtos de marketing que produzem?

Estou a falar só online. Já somos rentáveis, mas o Observador, enquanto empresa, está a fazer investimento na rádio e, portanto, ainda não tem resultados líquidos positivos.

Como vê as críticas de Pacheco Pereira e de outras figuras de outros partidos que sistematicamente dizem que o Observador é um projecto político?

Já vi políticos a dizer tudo, que o Observador ia durar seis meses porque era para eleger o Durão Barroso Presidente da República – acho que até foi o próprio professor Marcelo que disse isso –; que o Observador ia durar um ano porque ela para fazer já não sei quem ganhar as eleições... já vi tudo. Acabo por me rir porque sei que nada disso é verdade. Sei como o Observador nasceu. Fui um dos fundadores... bem, quando digo que fui um fundadore, as primeiras conversas foram na minha presença, sei como é que elas se desenvolveram todas, como foram crescendo, como é que a coisa foi evoluindo. Sei que nada disso faz nenhum sentido. Mas também sei outra coisa: sobretudo no mundo da política, quando se olha para a comunicação social e não só para o Observador, é muito difícil não ver conspirações, não ver segundas intenções e não ver outras coisas que muitas vezes não estão lá. Às vezes estão mas muitas vezes, da minha experiência, não estão. Costumamos dizer que damos visibilidade a vozes que vão desde a direita democrática à esquerda liberal. Não temos a preocupação de ser a Assembleia da República. Se tenho uma pessoa do CDS não tenho de ter uma pessoa do Bloco de Esquerda. Não é essa a nossa preocupação. A nossa preocupação é dar voz a gente livre de pensamento. Portugal está muito subrepresentado sobretudo em termos de produção de pensamento. Em termos de reflexão. As pessoas às vezes têm receio de se exprimirem e é isto que tem sido a nossa preocupação. Não corresponde a nenhuma preocupação, política ou partidária. Não é nada disso.

Acha que a preocupação dos acionistas é mesmo o pluralismo?

Nós jornalistas somos treinados para dominar a nossa subjetividade, mas somos sempre subjetivos. Ao assumir qual é o ângulo dessa subjetividade, os órgãos de comunicação estão a ser mais leais para com os seus leitores e não a fingir que são inodoros, quando isso não é verdade. E é melhor fazer isso sem entrar em tribalismos. Nós não entramos em tribalismos e procuramos dar voz a toda gente e cumprir as regras do jornalismo. Mas tendo noção de que há um ponto de partida e um ponto de vista que é assumido no estatuto editorial. A maior parte das pessoas não faz isso, mas devia fazer.

Não respodeu às críticas de Pacheco Pereira.

O Pacheco Pereira nem sequer sabe quem são os acionistas, está a falar um bocado no ar. Porque se ele fosse ler a lista dos acionistas, perceberia primeiro que tudo que eles próprios pensam de forma diferente. Ele não faz ideia de quem é o principal acionista. Ele não faz ideia de como ele pensa, porque é uma pessoa que não dá entrevistas. Está a maior parte do tempo fora de Portugal.

Mas é português ou polaco?

Português.

Vive muito na Polónia?

Passa muito tempo na Polónia. É português, sei que vive em Azeitão, mas não sei é se é português de gema de Azeitão (risos). Conheci-o há muito tempo, quando ele trabalhava no Entreposto. Depois foi para a Jerónimo Martins, tendo criado a seguir um negócio de cash and carry na Polónia. O Luís Amaral é o maior de todos, tem 40%. Temos pessoas que são super conhecidas, o Alexandre Relvas, que é um acionista importante, que pensa de forma completamente diferente do Filipe Botton, que é outro acionista, isso é público e notório. Há o António Carrapatoso...

Pacheco Pereira fala do que não sabe?

Fala com base no preconceito. As coisas têm de encaixar no preconceito dele. Ele tem um preconceito e acha que há ali uma conspiração qualquer. Ele não faz ideia quem é o Luís Amaral. Não tem nenhuma ideia.

Mudando de assunto. Escreveu recentemente que a censura está de regresso, a propósito da Carta Portuguesa de Direitos Humanos na Era Digital.

Há um norma nessa carta que dá um poder de intervenção à ERC que considero excessivo e perigoso. E pela experiência de outros países, pode levar de facto à censura. E vou falar de dois países completamente diferentes onde esta questão se está a discutir. Na Hungria, de Viktor Orban, as publicações digitais podem ser suspensas se houver queixas. Não estou a dizer que em Portugal vá acontecer exatamente a mesma coisa. Simplesmente estando as coisas na lei, o caminho está aberto. Ainda ontem vi um debate também muito severo e muito duro sobre a forma como Justin Trudeau quer regular a net no Canadá.

Esta carta de Direitos na Era Digital emana do Governo português ou da União Europeia?

É do Governo português. É uma transposição para o direito português de uma recomendação Europeia, que tem quatro anos, mas não tem valor nenhum.

E o Canadá também tem a mesma?

O Canadá está a fazer uma coisa diferente, mas a polémica é parecida. E, no fundo, trata-se de saber se no Canadá determinados emissores podem pura e simplesmente ser banidos ou proibidos de emitir.

Estamos a falar de sites?

Estamos a falar da internet. Por exemplo, se alguém quiser colocar alguma coisa no Youtube pode ter de pedir autorização a um regulador semelhante àquele que, em Portugal, dá autorização à SIC ou TVI de emitirem.

Há o perigo da ERC determinar que, por exemplo, o José Manuel Fernandes não pode escrever que é anticomunista

O problema é quem define o que é um discurso de ódio. Se eu digo que sou anticomunista, alguém pode dizer que é um discurso de ódio e pode haver pessoas com responsabilidade que vão dizer que sim. Vou dar um exemplo concreto, há pouco tempo foi posto na Universidade de Aveiro um pedaço do muro de Berlim. E houve professores da Universidade, suponho que militantes do Partido Comunista, que consideraram que colocar um pedaço do muro de Berlim na Universidade de Aveiro é estimular um discurso de ódio. Há quem defenda que esta posição não é maioritária da Universidade portuguesa, mas...

Mas no limite...

No limite há pessoas que podem considerar que alguém assumir-se como anticomunista está a usar um discurso de ódio. Porque pode defender que comunismo é uma coisa nobre e saudável, por isso não posso dizer uma coisa dessas.

Também não poderá entrevistar, por exemplo, André Ventura, porque o discurso dele pode ser considerado de ódio. E esse tal organismo pode dizer que essa entrevista não tem sentido. Pergunto, num caso hipotético.

Uma coisa é eu deixar que o Tribunal Constitucional decida sobre os problemas do André Ventura, outra é deixar que seja a ERC a decidir. Estamos a falar de níveis completamente diferentes.

Esta Carta é para a ERC? A ERC fica com este direito?

Fica com esse direito. A primeira ERC deixou muito má memória e criou muito má jurisprudência. Algumas liberações da ERC, no tempo de José Sócrates, deixaram muito a desejar.

Como por exemplo?
A ERC considerou normal que a RTP estivesse cinco dias ou mais sem dar notícias sobre a licenciatura de José Sócrates. Toda a gente discutia a licenciatura do José Sócrates e na RTP havia silêncio absoluto. Quem viesse de Marte e aterrasse em Portugal e abrisse a RTP, ficaria muito surpreendido. Na altura, só Marcelo Rebelo de Sousa que era comentador da RTP falava no assunto. Nos noticiários não havia nada. E a ERC aceitou as justificações da RTP para não se noticiar a história que envolvia José Sócrates. Estamos a falar da equipa de Azeredo Lopes e Estrela Serrano.

Olhando para as últimas nomeações da RTP, incluindo Arons de Carvalho no Conselho Consultivo Independente e de Nicolau Santos no Conselho de Administração, o que diz? Recordo-me de ter dito que Nicolau Santos não tinha a cultura, a liberdade e a independência do Público. Acha que a RTP  está a ser dominada pelo PS? 
Ele ainda não chegou lá ainda. Por isso vamos ver o que acontece. Mas tudo indica que vai chegar. A RTP é uma história muito complicada e acho que já disse tudo o que tinha a dizer. Com o estatuto que tem, por mais voltas que dê, não se consegue libertar de uma imagem de proximidade ao poder. Vamos ver o que acontece ao programa da Sandra Felgueiras. 

Acha que vai acabar?
Diria que não. Acho que não pode acabar. Já tive discussões muito pouco simpáticas com a Sandra Felgueiras nas redes sociais, por razões que não tem a ver com a Sandra, mas com a mãe da Sandra. (risos)

Fátima Felgueiras.
Sim. Não tem nada a ver com jornalismo. Tiveram a ver com processos judiciais em que estive envolvido por causa do Público. Coisas daquelas que fizeram com que hoje não tenha praticamente nada no Twitter. O Twitter faz com que nós entremos em discussões um bocado... as coisas saem-nos da boca muito rapidamente e, portanto, independentemente disso, não vou, entrar aqui a discutir…

João Galamba?
Não vou entrar a discutir nem o Galamba nem A, B ou C da Sandra Felgueiras. Nem vou discutir todos os debates onde ela foi envolvida. Não vou transformá-la nem em vítima, nem em heroína. Simplesmente, as coisas têm de ser respeitadas. A partir do momento, que há decisões das direções editoriais, quem está nas administrações e depois no poder político tem de respeitar.

O que quer dizer com isso? Explique (risos).
Basicamente, tenho que dizer que aquilo que o João Galamba fez não é tolerável, como é óbvio. Não tem nada que o distinga, daquilo que fez João Soares que o levou à demissão, quando ameaçou o Vasco Pulido Valente e o Augusto M Seabra. Acho que João Galamba não ameaçou ninguém porque é uma senhora (riso). Ele não passou esse passo. Mas chamou-lhe muitas coisas parecidas. A diferença do Twitter é que se apaga mais depressa do que no Facebook…

Acha normal as pessoas apagarem o que escrevem nas redes sociais?
Acabei de dizer que deixei de escrever no Twitter, faz com que a gente reaja por impulso, mas apesar de tudo, naquele caso concreto, na minha perspectiva, é quando se faz é melhor não apagar. O mal já está feito, o melhor é não apagar.
Há um ano dizia que estava com receio de que os socialistas conseguissem dobrar a barreira que ainda protegia a RTP.

Acha que essa barreira está de pé ou já está mesmo a cair.
Estas mudanças são a prova dos nove. Vamos ver o que acontece.

Que mudanças?
Vai entrar uma nova administração, que não entrou ainda. Vamos ver o que acontece. Essa administração é igual à anterior com um novo presidente. Que não é um detalhe. A RTP tem saído um pouco do radar e conhecendo o seu passado não deixa de ser positivo. Antigamente a RTP era um drama permanente em Portugal. E de algum modo deixou de ser. E isso, não é mau de todo.

Acha que Marcelo e Costa continuam a aparecer demais na comunicação social, ou não?
Não há dia que não apareçam.

Mas diz no Observador para não lhes darem destaque? 
Não. Nós damos as notícias todas. O que é notícia é notícia. Acho que aparecem demasiado e este ano, então, foi obsessivo da parte dos dois por causa da covid. E acho que foi negativo do ponto de vista da cultura política do país e a própria forma de gerir o país. Em muitos momentos, quando era necessário passar mensagens claras, durante o período da covid, agora é para fazer assim, agora é para fazer de forma diferente, essa clareza de mensagem perdia-se no meio de intervenções quase diárias.

A certa altura deparei-me que eu, estando mergulhado no meio de informação, já não sabia exatamente quais eram as regras para o concelho onde vivo.  Acho que não é um sinal de uma política muito saudável. Que não só deixa pouco espaço para outros, como parece que há uma certa competição. Ainda hoje comentava de manhã que o primeiro-ministro tinha ido quatro vezes ‘inaugurar’ (entre aspas) que não foi inaugurar, foi ver, uma obra ferroviária no Alentejo. Portanto, já lá foi quatro vezes.

A primeira vez em 2017, salvo erro, duas vezes em 2019 e agora uma vez em 2021. E a obra está dois anos atrasada. Já lá foi quatro vezes, como aquilo ainda não foi inaugurado pelo menos mais uma vez há-de ir. E isto é para quê? Para ter oportunidades de fotografia, televisão, poder aparecer, mostrar obra. Acho que é política à antiga. Acho que toda a gente faz em Portugal política à antiga. 

Por que acha que Costa faz política à antiga? O Costa e os outros?
Provavelmente nós próprios estamos um bocado prisioneiros disso, porque acabamos por andar atrás disto. E quando digo a mesma cantiga é porque ninguém é capaz de se libertar disto e dizer nós não vamos apenas andar de soundbite em soundbite e queremos passar para outro tema. A política está reduzida a isto.

É um espetáculo ao pé do microfone?
Do lado da política é um espetáculo, do lado do jornalístico é um pé de microfone. Acho que isto é pobre, porque, no meio disto tudo, raras vezes se discute. Das vezes que se discute no Parlamento, o debate também é mais espetáculo do que debate.

Comparemos apesar de tudo as intervenções que foram feitas em momentos precisos pela chanceler Merkel, ou por Emmanuel Macron, nos momentos de viragem ou de alerta da crise do coronavirús com as intervenções feitas pelo o primeiro-ministro e pelo Presidente da República. Nós tivemos conferências de imprensa de horas de António Costa a dar montes de conselhos. Isto é uma coisa que ninguém fixava. Aqueles montes de conselhos é para dar à imprensa e depois nós publicamos. Não é para o primeiro-ministro estar ali na televisão, a dar montes de conselhos e por vezes a mostrar mapas enganados. Porque não houve tempo para mostrá-los direitos.

As pessoas podem achar isso, mas devem pensar que temos melhores resultados do que Merkel e Macron.
Nós temos hoje, mas quando passámos por uma prova real, tivemos piores do que todos. Hoje estamos com bons resultados, mas quando fazemos o balanço do ano todo e apesar de tudo estamos particularmente bem. Quando falo de tudo, é o que aconteceu à economia, número total de mortos; mortos covid, mortos não covid. Isto é, ainda esta semana vi o número de atrasos no sistema de saúde, consultas adiadas, etc. Pior do que nós só a Bulgária. Quando olhamos para o pacote todo, nós não estamos melhor. Estamos com poucas infeções neste momento. Estamos bem.

Mas é bom ter noção que tivemos o pior trimestre em termos económicos em toda a União Europeia. Para estarmos bem, levámos muita pancada. Estamos a pagar os resultados com a pior recessão. É necessário ver como se chegou a alguns pontos. Não é só olhar para a janela do lado direito porque é a que tem as flores, é preciso olhar para o prédio todo, porque há um prédio em ruínas. O problema é que temos um prédio em ruínas. Uma parte do objectivo de andar a falar todos os dias é só mostrar a jarra das flores. E nós temos que nos preocupar com o prédio em ruínas. E, de repente, quando dermos por nós estamos de facto no meio de ruínas, como aconteceu em janeiro e fevereiro e como vai continuar a acontecer noutras áreas porque há problemas estruturais num país que vai ficar para trás. 

Vai ser uma desgraça? Para termos estes números tão baixos de infetados hipotecámos muita coisa?
Hipotecámos imensa coisa. Sacrificámos muito. Não procurámos, em nenhum momento, fazer um equilíbrio. Chegámos sempre tarde, nunca planeámos com tempo, vamos outra vez fazer aqueles disparates no verão porque já andam cheios de medo. Não se planeia, é uma total incapacidade de planear. Quando as coisas são planeadas, as coisas até funcionam. Bastou tirar um incompetente da frente da vacinação e pôr lá uma pessoa que sabe de logística para a vacinação começar a funcionar bem. Bastou acabar com balbúrdia das prioridades trôpegas dos lóbis que era passa à frente este e passa à frente aquele para ir para uma regra que toda a Europa aplicou que são as idades. Na Europa não há professores a passar à frente. Depois dos profissionais de Saúde – que naturalmente passaram à frente – a seguir acabou.

A senhora Merkel [chanceler alemã] foi vacinada quando chegou a idade dela. Não houve sequer discussão para saber se os políticos estavam à frente ou não. Foi vacinada no dia em que chegou a idade dela. Aqui não. Foi aquela confusão que se sabe. Porque é que isto agora está a correr bem? Porque, apesar de tudo, em Portugal há gente competente. Porque é que as coisas não funcionam? Porque estamos sempre a ceder às corporações, estamos sempre a ceder aos rentismos, estamos sempre a ceder aos grupos de interesse. É isso que é o nosso problema e temos que saber sair dele.

Se correu bem noutros países também pode funcionar bem em Portugal. Temos uma classe política – uma boa parte – capturada. Ou, pelo menos, os principais atores políticos, incapacidade de recrutar novos agentes políticos. Devemos ter uma das classes políticas mais envelhecidas da Europa. Chamamos novos turcos a dirigentes políticos que são mais velhos do que Cavaco Silva era quando foi para primeiro ministro. De facto, já estamos com a escala etária toda baralhada. Assim não vamos lá. É preciso chocalhar isto de alguma forma.

Não lhe chegou ver um maçom dizer que a Assembleia da República é a casa verdadeira da maçonaria onde há mais maçons?
Não ligo nada aos problemas da maçonaria, sou franco. A maçonaria é uma coisa que me choca. Muita gente anda com a maçonaria na cabeça, maçons para aqui, maçons para ali...

Opus Dei..
O Opus Dei é uma invenção absoluta. Dá muito para quando eu falo da maçonaria alguém dizer que também há a Opus Dei. Não... 

Não tem influência na sociedade portuguesa?
Não creio, sinceramente. Conheço algumas pessoas que sei que são do Opus Dei e não creio que isso tenha alguma influência. A maçonaria, como organização, acho que é mais mito que outra coisa. 

É contra a obrigatoriedade dos políticos e detentores de cargos públicos revelarem se pertencem ou não à maçonaria ou ao Opus Dei.
Não sou contra nem a favor. Já fui a favor. Não percebo por que há uma sociedade secreta. Havendo registo de interesses acho que é bom haver transparência.

Falou no passado maoísta que uma das coisas que mais o chocou foi a expulsão de pessoas por terem sido infiéis. Acha que hoje estamos a assistir a alguma coisa semelhante no pensamento da extrema esquerda? Se na altura eram os infiéis, hoje há a história das minorias oprimidas?
São coisas diferentes, muito diferentes, se bem que podemos considerar que há algumas coisas comuns. O que existia nesses grupos de extrema esquerda – ou nalguns grupos de extrema esquerda – era aquilo que se chamava moral proletária. Estudámos a história da União Soviética, a história do comunismo e verificamos que as regras da moral proletária mudaram ao longo dos tempos. Mas havia uma coisa que era típica desses grupos que era: quando há regras, são regras militares. Isso faz parte do leninismo e do dogmatismo. O que se está a passar hoje é uma coisa diferente.

É uma coisa que tem algumas raízes ideológicas, culturais ainda no marxismo e que tem a ver com alguns pensadores europeus, como Deleuze e Foulcault, mas cresceu sobretudo nos Estados Unidos, que vieram buscar essas influências à Europa. Mas é uma coisa diferente e que a Europa agora recupera até por uma questão de orfandade. As causas antigas da velha leitura ortodoxa do mundo, da luta de classes de acordo com o manifesto do Partido Comunista original de 1948 já não se aplica e o que se aplica faz-nos recordar a União Soviética. Precisamos de outras causas e é importante quais são essas novas causas que vamos adotar.

E essas novas causas, algumas vezes têm uma raíz, há uma necessidade de as construir a partir de uma construção cultural também anti capitalista. E vai pelos mais variados caminhos possíveis. As coisas depois entram em conflito porque é cada vez a defender grupos mais pequenos. Ao defender grupos mais pequenos, esses grupos não têm sempre os mesmos interesses.

Às vezes têm interesses conflituantes. Dentro, se quisermos, de uma capa que se é para combater o capitalismo temos que conquistar as almas e para conquistar a almas é preciso conquistar os espíritos e para conquistar os espíritos é preciso vencer a batalha cultural e para vencer a batalha cultural temos que ir por aí. E podemos adotar todas as causas. A causa ambiental passou a ser uma nova causa mas aí passa a ser levada como sendo a guerra climática. E aí surgem conflitos novos, como a justiça climática – que eu nem sabia o que é.

Qualquer dia nem dos deixam andar de carro, comer carne...
Mas muitas vezes essas coisas viram-se contra os mais oprimidos. Muitos dos alimentos trangéneros libertaram da fome milhares de milhões de pessoas porque permitiram que culturas que antes fracassavam deixassem de fracassar. Permitiram que certos produtos vegetais que antes não tinham certo tipo de vitaminas passassem a ter por terem pequenas alterações transgénicas e não fazem mal a ninguém. Há uma grande empresa capitalista que fez uma patente que tem aquela semente... Todas estas construções existem, muitas vezes sem se perceber que, se eu voltasse agora, por exemplo, à cultura biológica – e digo já que a nível pessoal sou um produtor biológico – morria metade das pessoas à fome.

Os movimentos antirracismo são, eles próprios, os grandes fomentadores do racismo? 
Hoje em dia os movimentos antirracistas tornaram-se fomentadores do racismo porque têm um discurso que é racista. O discurso de Martin Luther King era um discurso de igualdade. ‘Eu sonho com o dia em que todos seremos iguais’. O discurso dos atuais movimentos é um discurso que ‘porque tenho uma dívida a cobrar, os outros não são iguais a mim porque são meus devedores de qualquer coisa’. Seja ela o que for, muitas vezes nem faço ideia do que foi. Nem vou discutir qual é a dívida a cobrar, se nuns casos existe, se noutros casos não existe. Isto é uma discussão que não acaba porque a dívida seria a cobrar a muita gente diferente. A história é feita de movimentos de populações, de guerras, que se vencem e que se ganham e que perdem. Foi sempre assim.

Qual é a minha dívida a cobrar? Vou começar a falar celta em França porque os gauleses perderam a guerra para Júlio César e porque Júlio César cometeu aquilo que hoje eu chamaria alguns crimes de guerra? Teria a Gália ficado melhor com o Vercingetórix do que com Júlio César? Vou fazer esse tipo de julgamento? Nós, lusitanos, teríamos ficado melhor com o Viriato e sem o tempo de Diana? Faz sentido rescrever a história dessa forma? Depois vieram os visigodos, depois vieram os árabes, depois tudo isto se misturou com judeus... Estou a falar de nós. Quem deve a quem em Portugal? Um dia hei-de fazer um teste DNA para saber qual a mistura que tenho no sangue, saber o que é que tenho de vários sítios. É possível fazer essas coisas. Por curiosidade. Um amigo meu já fez.

Descobriu o quê?
Que tinha muita mistura. Tinha não sei quantos de judeu, muitas coisas. Ele, supostamente, é sangue azul, é aristocrata. Curioso, não é? Onde é que vou por esse caminho? A lado nenhum.

Mas escreveu que não aceita a menoridade do branco.
Não aceito a menoridade de ninguém. Não aceito a menoridade do branco como não aceito a do esquimó ou do aborígene. Mas também não aceito que digam que tenho que os ignorar e que eles têm que continuar a viver na idade da pedra. Não devo procurar que eles aprendam a ler e a escrever, tenham cuidados médicos, etc... Ou não? Devo deixá-los ficar? Deve ser esse o destino dos aborígenes? Acho que não. Quem diz aborígenes diz outros povos indígenas. Devo deixá-los a morrer? Não é só manter as culturas. Dessas culturas fazia parte morrer aos 30 anos. É isso que queremos? Devemos defender isso? Não creio que seja. As coisas são sempre mais complicadas que as simplificações do culpado e do inocente.

Vamos a sete momentos quer na vida do Observador quer de Portugal. Justiça, por exemplo...
O melhor para a Justiça portuguesa foi a prisão de José Sócrates. O pior foi a sentença do Ivo Rosa. Nestes sete anos acho que, politicamente, faço um balanço muito negativo da formação da ‘geringonça’.

Porquê? 
É uma solução política que assenta na paralisia. É uma solução política que só é possível manter na base de não realizar qualquer tipo de reformas. Manter o país paralizado, estático, sem mexer em nada. Independentemente do resto, acho que é isso. Acho que é positivo o aparecimento de novas forças políticas e destaco o aparecimento da Iniciativa Liberal.

Não sei se vai ter futuro ou não, mas é um partido que surge pelo lado das ideias. Não surge para o lado das ideias, surge como partido urbano e com pessoas relativamente novas a competir diretamente com faixas do eleitorado que antes votavam no BE. A maior parte das pessoas acha que isso não acontece, mas engana-se. Apareceu o PAN, o Chega, o Iniciativa Liberal e o Livre. Acho que, com o estado em que estávamos, é melhor ter isto tudo nesta altura, apesar de tornar menos governável. E, disto tudo, destaco a Iniciativa Liberal. Independentemente que lhe possa acontecer o mesmo que aconteceu ao Ciudadanos, crescer e implodir.

Disse que ainda está para provar que o Chega seja um partido pragramaticamente xenófobo. Acha que já se provou ou não?
No programa, acho que é igual e não mudou. O Chega insiste demasiado na tecla dos ciganos, o que faz com que explore sentimentos xenófobos. Se o Chega é um partido xenófobo? Continuo a achar que, no sentido programático do termo, não é. Mas é um partido que tem explorado, designadamente na questão dos ciganos, sentimentos xenófobos. Em boa parte por omissão de ação das autoridades em áreas onde deviam atuar. 

Economia.
O pior da economia é o que se está a passar na TAP e o que mostra sobre a forma de pressão deste Governo. O melhor foi o que se passou, apesar de tudo, com a recuperação baseada no setor do turismo e nas exportações.

Comunicação social.
O Observador foi uma boa notícia mas acho que a reação da concorrência também foi boa. Deu-nos luta. Acho que a pior coisa é manter-se um ambiente concorrencial não é totalmente transparente e continua a haver projetos cujo financiamento não se percebe, cuja lógica e financiamento não se entende.

Costumes.
Acho que uma coisa positiva é que as pessoas vivem mais ao ar livre. Há muita gente que embirra com as bicicletas, mas acho que damos mais atenção à nossa atividade física e à necessidade de termos atenção com a saúde e não apenas com aquilo que é tradição dos portugueses que é estarem a comer e a pensar na próxima refeição. Aquilo que é negativo é, apesar da evolução positiva, continuamos a não ter filhos. É um dos maiores problemas do país que é um problema demográfico que vai levar décadas a resolver, se é que se resolve. 

Pandemia.
O pior foi uma gestão que acho que foi pouco planeada. Acho que, apesar de tudo, o melhor foi a capacidade que os profissionais de saúde tiveram para reagir.

Qual é o seu editorial mais polémico?
É difícil, não sei dizer.

O melhor e o pior do Observador nestes sete anos?
O melhor foi o facto de termos superado todas as expetativas e conseguido provar que era possível fazer diferente, de forma independente, com uma grande liberdade, com gente nova e tornarmos possível o que toda a gente dizia que era impossível.

A parte pior, foi os anos de vida que consumi. Nunca imaginei – e eu costumo dizer que comecei a trabalhar num semanário, passei para um diário e acabei no online. Normalmente é ao contrário. Uma pessoa vai para coisas mais calmas no fim da vida e eu fui para uma coisa que me fez trabalhar mais horas do que alguma vez trabalhei na vida. Mas faço-o com gosto.