Viver para Contar

Foi bonita a festa!

A festa do título do Sporting foi uma enorme demonstração de fé clubística. Por isso, é natural que muitos benfiquistas e portistas tenham ficado com a chamada ‘azia’. É natural e humano.


Como expliquei na crónica anterior, sou desde criança adepto do Belenenses, mas nesta época também torci pelo Sporting.

Por muitas razões. Porque simpatizo com Rúben Amorim, porque o clube sofreu um abalo tremendo com as diatribes de Bruno de Carvalho, porque este presidente tem sido injustamente um mouro de pancada, porque perdeu os melhores jogadores, porque tem pouco dinheiro para investir na equipa, porque constituiu um grupo muitíssimo jovem, com uma maioria de jogadores portugueses.

Há muito boas razões, portanto, para um ‘outsider’ apoiar o Sporting.

O que é mais estranho é que, ganhando tão poucos campeonatos – o Sporting venceu quatro campeonatos nacionais nos últimos 40 anos! –, tenha tantos (e tão entusiásticos) adeptos.

É verdadeiramente extraordinário!

A força do Sporting ficou bem à vista na festa do título que teve lugar há oito dias – e que indignou muita gente, por razões diversas.

Diga-se o que se disser, ninguém esperava uma enchente tão grande. E perante aquela demonstração de fé clubística, é natural que muitos benfiquistas e muitos portistas tenham ficado com a chamada ‘azia’. É natural e humano. Mesmo assim, não ficou nada bem a Pinto da Costa classificar os festejos como «uma vergonha».

Devo dizer que, ao contrário da maioria dos portugueses, achei aquela festa soberba. Foi a celebração mais entusiástica de um título a que já assisti. Nem Benfica, nem FC Porto, nem qualquer equipa estrangeira tinham feito algo de igual ou parecido. Por todo o lado onde o autocarro com a equipa passava havia magotes de gente em delírio. Em todas as praças – Campo Grande, Entrecampos, Campo Pequeno, Saldanha, Marquês de Pombal – a equipa foi recebida com fogo de artifício; e não um foguito qualquer, mas um fogo de artifício de belo efeito durante vários minutos.

É certo que no Marquês houve confrontos indesejáveis entre adeptos e a Polícia. Mas a dimensão dos distúrbios acabou por ter importância limitada perante a magnitude da festa.

Temos de perceber as coisas como são e não ver tudo pelo lado negativo. Estava ali gente que esteve durante meses confinada em casa, sequiosa de liberdade. Estavam ali adeptos que não sabiam há quase duas décadas o que era ganhar um campeonato (e alguns, nascidos depois, nem sequer sabiam o que isso era). Ora, esperava-se o quê? Que essa gente se comportasse de forma serena e circunspecta, como se assistisse a um desfile de moda?

Para os manifestantes, aquele foi o momento de uma explosão de sentimentos durante muito tempo reprimidos: de felicidade, de liberdade, de orgulho, até de raiva.

E – adianto eu – o futebol precisa destas explosões. Estranho será quando já não arrastar multidões e deixar de provocar emoções. Aí estará moribundo. Aquelas comemorações foram um hino ao futebol e uma demonstração da sua força.

Comparar aqueles festejos com a Festa do Avante! ou com as celebrações de Fátima, como alguns fizeram, não tem pés nem cabeça. Será comparável a festa de um título de futebol, que é um acontecimento único, inesperado e invulgar, com um evento partidário ou religioso que se realiza todos os anos de forma programada e não tem nada de imprevisto?

Até por isso, não culpo a Polícia, nem a CML, nem a DGS, nem o ministro Cabrita, nem os adeptos do Sporting, nem ninguém: foi uma festa grandiosa, inesquecível, e isso é que importa reter.

Julgo que os maiores problemas foram provocados por dois erros aparentemente menores: o atraso na saída da camioneta da equipa em relação ao horário previsto (que fez aumentar o tempo de espera e portanto a tensão dos adeptos) e a colocação de grades no Marquês de Pombal (que provocou uma grande acumulação de gente num espaço pequeno).

Quanto à vitória dos leõezinhos, ela foi épica.

Recordo vários jogos ganhos no fio da navalha. Os dois contra o Gil Vicente, em que o Sporting esteve a perder quase até ao fim. O jogo com o Santa Clara, vencido no último lance. O empate com o Belenenses, obtido do mesmo modo. A vitória sobre o Benfica em Alvalade, quando o empate já parecia fechado. A vitória heroica em Braga, com menos um jogador durante quase 80 minutos.

Diga-se ainda que o Sporting apontou o caminho aos outros clubes. E não só na tática de 3X5X2, que hoje já quase todos usam. Mas também na estratégia.

1. Os clubes portugueses têm de apostar em primeiro lugar nas suas academias. Dar oportunidades na equipa principal aos jovens formados no clube.

2. Espremidas as academias, os clubes grandes devem ir buscar jogadores a clubes portugueses mais pequenos, que já estão habituados ao nosso futebol.

3. Se ainda faltar algum jogador, devem procurá-lo em mercados baratos, como os sul-americanos.

Rúben Amorim seguiu esta receita. Por falta de dinheiro mas também por convicção: foi comovente ouvi-lo falar dos seus «miúdos». E conseguiu unir a equipa em torno de uma ideia. E conseguiu depois unir todo o clube em volta da equipa. Foi um feito enorme. Como é que um jovem treinador entra num clube feito em cacos, com pouco dinheiro, esbulhado dos melhores jogadores, que viveu momentos de angústia, e consegue refazer a equipa e ser campeão nacional?

Aquilo que o experiente Jorge Jesus não conseguira com Bruno Fernandes, Acuña, Wendel, Rui Patrício, Bas Dost, Gelson Martins, William Carvalho, Adrien Silva, etc., conseguiu o inexperiente Rúben Amorim com meia dúzia de garotos e outros jogadores que se consideravam acabados.

Depois deste milagre, queriam que os adeptos não festejassem? Deixemos o politicamente correto. Que os benfiquistas e os portistas não tenham gostado, é natural. Agora que comentadores independentes tenham denegrido uma festa que mostrou a enorme pujança do futebol, isso é menos compreensível.

Eu sei que não falei da covid. Deixei-a propositadamente para o fim. Mas, parafraseando Jorge Sampaio, apetece-me dizer: «Há mais vida para lá da covid». E se havia momento em que esta frase se justificava, era aquele.

Até vou mais longe: faça-se daquele problema uma oportunidade. Veja-se daqui a uns dias se aquelas comemorações provocaram um aumento significativo dos contágios no país (ou em Lisboa). Se sim, tirem-se as necessárias consequências. Se não, podemos todos dormir mais descansados, pois as aglomerações deixam de representar um perigo.