Cultura

Bárbara Tinoco: "Para se ser compositor é preciso ser corajoso"

Há um mês apresentou o seu novo EP (Desalinhados) e já está em contagem decrescente para lançar o seu primeiro álbum: ‘o mais genuíno que provavelmente vou escrever na vida’. Compositora e cantora, acha poético ter molduras vazias penduradas nas paredes de casa, gosta de jogar Catan e a melhor reação que pode receber do público no final dos concertos é dizerem-lhe que foi ‘bué divertido!’


Na biografia do teu Instagram tens a frase: ‘Um amigo disse-me que eu escrevo canções utópico-romântico-deprimentes’. Podes comentar?

Sim, um amigo disse-me isso mesmo [risos]. As minhas músicas são de facto um bocado utópico-romântico-deprimentes, achei que ele tinha acertado e, é engraçado porque ele vive comigo na minha casa, mas não sabia que tinha sido ele a dizer isso. Há uns tempos eu disse-lhe: ‘tenho no meu Instagram a tua frase e não sabias que tinhas sido tu a dizer?’, e ele respondeu: ‘por acaso achei que era muito inteligente, mas não sabia que tinha sido eu’ [risos].

Quando estávamos a decidir o sítio para fazer as fotografias, surgiu a hipótese da Rua Cor de Rosa, no Cais do Sodré, porque, à semelhança de muitos artistas, também começaste por atuar em bares. Que recordações tens desses tempos?

Sim, tocava mais no Bairro Alto, num bar chamado Jam Club. É um bar com um público muito estrangeiro. Tocava sempre para estrangeiros muito bêbedos. Foi durante um, dois anos. Tinha 19/20 anos. Pouco tempo depois de começar a minha carreira, tive de deixar de tocar no bar. Mas adorava, era um emprego. Tocava duas vezes por semana e ganhava uns trocos. Foi uma fase muito gira.

A música faz parte da tua vida desde sempre. O teu avô tinha uma loja de instrumentos musicais que depois passou para o teu pai, aqui em Lisboa, certo?

Sim, ficava na estação do Rossio, quando ainda havia lojas dentro da estação, e tinha outra na rua da Madalena. Depois o meu pai teve ainda mais uma na estação de Entrecampos, que é a de que me lembro melhor. Mas com a venda de instrumentos online, as lojas começaram a ir um bocado à vida.

Costumavas passar lá muito tempo?

Sim, o meu pai levava-me quando não havia escola ou quando estava doente e alguém tinha de ficar comigo.

Tens irmãos?

Sim, tenho duas irmãs mais novas, são mais ‘piquinitas’.

Começaste a compor desde muito cedo. Quando tinhas 16 anos escreveste o Antes Dela Dizer Que Sim, que foi o teu primeiro single. Esse tema e o Sei lá, o teu segundo single, são hoje platina. Quando escreveste sobre estas vitórias, disseste: «Hoje os meus dois primeiros singles são platina. Atribuídos à menina que escrevia canções no seu quarto e morria de vergonha de cantar para alguém». Significa então não eras a protagonista dos espetáculos da escola?

Apesar de tudo sempre fiz essas coisas na escola, os teatros e assim, mas nunca era a personagem principal porque nunca fico em primeiro lugar em nada. Mas fiz teatro, costumava cantar e toda a gente sabia que eu cantava, mas tinha muita vergonha. Muita gente diz que eu tinha mais vergonha de cantar para a família e para os amigos do que propriamente para estranhos: se a minha família pedisse para eu tocar eu não tocava [risos]. Desde muito miúda que escrevo canções, em vez de brincar com as bonecas estava a fazer canções.

Sendo assim, em casa, à mesa com os teus pais, nunca houve o problema de terem que te estar sempre a chamar a atenção: ‘Bárbara, à mesa não se canta!’?

Não, não. Eu cantava no meu quarto e era muito disciplinada, só até às 21h30 porque tinha respeito pelos meus vizinhos [risos].

Por que decidiste ir ao The Voice?

Acho que quando temos um sonho e queremos muito fazer uma coisa temos medo de fazê-la mal. Eu sempre quis ser compositora, mas não dizia em voz alta a ninguém porque sempre que o fazia soava ridículo porque os sonhos criativos são sempre estúpidos até que alguém nos diga: ‘por acaso até tens jeito’. Por isso, nunca dizia a ninguém. Quando fui para a faculdade acabei por ir estudar música, que era uma coisa que sempre quis e os meus pais não me deixavam. Tinham muito medo que eu quisesse esta vida para mim, porque sempre souberam que era o que eu queria, mas acabei por vir para esta vida na mesma [risos]. Quando cheguei à faculdade comecei a estudar música e depois pareceu-me lógico ir ao The Voice, foi uma decisão que tomei e pensei: ‘a partir daqui saberei se tenho talento ou não e terei de arranjar um novo sonho se não tiver’.

E foi um dois em um, já que acabaste por interpretar uma música escrita por ti. Isso também te assustou?

Antes de querer ser intérprete queria ser compositora, era muito mais isso que eu queria. Depois apercebi-me de que era muito difícil dar as canções, mas só percebi isso muito mais tarde. De repente, dar uma canção sobre a minha vida, sobre mim, uma coisa tão íntima, era muito difícil e só me apercebi disso em crescida [risos].

Como é que foi tornares-te um dos nãos mais bem-sucedidos de sempre deste tipo de programas de talentos?

[Risos]. Acho que a minha história é fixe por vários motivos: primeiro, porque é a melhor história para início de carreira de sempre; e depois porque quando recebemos nãos são sempre escondidos, ou seja, nunca ninguém sabe os nãos que recebemos, mas, no meu caso, toda a gente soube. Todas as meninas e meninos que estão a escrever canções nos seus quartos aos 13 anos podem olhar e pensar que os nãos que vão receber também podem não sê-lo – e podem até ter mais confiança neles próprios, coisa que eu tinha zero. Acho que é uma história bonita e que parece ser contada num livro, mas é mesmo a minha vida.

Embora não tenhas passado, conseguiste mostrar a tua canção, o teu talento e recebeste a aprovação do público…

Sim, saí de lá muito, muito feliz mesmo. Principalmente porque tive oportunidade de tocar uma das minhas canções - e é uma coisa que vou sempre agradecer ao programa - porque podiam simplesmente ter saltado para outro [concorrente]. Mas falaram comigo e deram-me essa oportunidade.

Depois de o programa ter sido emitido [1 de outubro de 2018], o Pedro Barbosa, manager de vários nomes da música portuguesa, como Miguel Araújo, Tatanka e The Black Mamba, contactou-te através das redes sociais…

Sim, sim. Mandou-me uma mensagem no Instagram, muito poético eu sei [risos].

É a parte boa das redes sociais? Aliás, mesmo nesse campo, o teu caso também é muito positivo, ainda agora fizeste uma publicação a referir isso mesmo, que os comentários ao teu novo EP eram todos bons...

Sim, é verdade, eu não tenho haters. Eu costumo dizer isso, mas qualquer dia aparece um ‘ai não tens?!’ [risos]. Mas não tenho muitos e fico muito contente com isso. Obviamente que não será assim para sempre porque quando fazemos uma coisa nunca vamos agradar a toda a gente, e ainda bem. Se agradássemos a todos o mundo era uma seca. Ainda bem que há pessoas que não gostam das coisas que eu faço e que quando ouvem a minha música na rádio dizem: ‘fogo, está a dar esta miúda outra vez, já não posso ouvir isto’. Mas ainda bem que também há pessoas que gostam e que põem mais alto. Essa dualidade é importante.

Quando te apresentaste, pensavas que poderia ser música para um nicho e ficaste surpreendida quando a maioria gostou?

Eu fazia música para mim, mas agora penso mais no que gostava de fazer. Quero fazer música para toda a gente: que a minha irmã Bia, que tem 10 anos, consiga perceber e a minha avó também. Se estiver a dizer coisas que se calhar são demasiado modernas, que as consiga dizer de uma forma que até a minha avó consiga gostar da canção ou a minha mãe ou a minha tia ou as pessoas da minha idade.

Em 2019 fazes a abertura de concertos do João Só. Também foi um passo importante para ti, para começares a ambientares-te ao público e ao mundo do espetáculo?

Foi muito, muito, importante. O João Só ensinou-me muitas coisas, uma delas foi que o humor é o melhor amigo do músico e deu-me muita confiança porque eu começava os concertos dele durante 30 minutos a tocar guitarra e a cantar sozinha. Neste momento, eu praticamente já nem guitarra toco nos meus concertos, mas naquele tempo tocava e tudo fora de ritmo. Deu-me muita confiança.

Por que é que deixaste de tocar guitarra?

Porque eu toco muito mal e eu gosto das pessoas que ouvem a minha música. Gosto que sejam felizes nos meus concertos, por isso tento não ferir-lhes os ouvidos [risos].

Entretanto tens a passagem pela edição de 2020 do Festival da Canção, como intérprete de Passe-Partout, da autoria de Tiago Nacarato. Como foi sair do universo de compositora para ser intérprete de uma canção de outro músico? Foi um desafio?

Aceitei logo. Mas foi difícil porque eu nunca tinha interpretado uma canção que não tinha escrito e é uma canção que nunca escreveria – é muito diferente daquilo que eu sou e daquilo que penso. Mas é totalmente o que o Tiago é, achei isso giro. Na altura até estávamos indecisos entre duas e eu disse: ‘Tiago é esta!’, ele confiou em mim e fomos uma equipa até ao fim.

Dizes com graça que sempre que entras nalguma coisa nunca ganhas, que estás habituada aos ‘prémios de participação’. Quando o Tiago Nacarato te convidou avisaste logo que iriam ficar em segundo lugar?

[Risos]. Eu se calhar devia tê-lo informado que eu tinha um bocadinho esse karma e essa sina, mas não lhe disse [risos]. Mas eu sinto que ganhámos de certa forma, fizemos uma tour juntos, foi a primeira vez que preparámos uma atuação e sinto que cresci imenso a fazer esse programa, aprendi muito. Ganhámos, porque ganhar não é só ter o prémio. Aliás, no meu caso, nunca é ter o prémio, portanto tenho mesmo que ganhar noutras coisas [risos].

E foram os mais votados pelo público e isso também conta...

Também conta e conta muito, é verdade. Mas a canção que ganhou [Medo de Sentir] é muito fixe e ainda bem que elas ganharam, fico muito contente pela Elisa e pela Marta [Carvalho]. Entretanto já estive com a Elisa em estúdio a fazer canções e ela canta mesmo bem. Não há aqui rivalidades com os vencedores [risos].

Ainda sobre o passe-partout: costumas emoldurar retratos ou és mais de publicar nas redes?

Em nossa casa, durante um ano, havia molduras nas paredes mas estavam todas vazias. Nós achávamos meio poético e íamos deixando andar, na verdade era só preguiça porque já ninguém imprime fotografias. Agora por acaso mudei de casa e na casa nova não temos molduras, mas provavelmente vai acabar da mesma forma, a casa cheia de molduras vazias [risos].

2020 foi um ano muito complicado para a cultura. Lançaste recentemente o EP Desalinhados, produzido ao longo do último ano. Este trabalho surgiu como forma de lidar com a pandemia ou já era um projeto pensado?

O EP surgiu de forma muito natural. Acho que já estou a trabalhar nele há mais ou menos dois anos, ou seja desde o início da minha carreira. Comecei a conhecer muitas pessoas, muitos artistas, muitos compositores absolutamente incríveis e eu, que compus a minha vida toda sozinha no quarto, apeteceu-me muito sair de mim e perceber como é que as outras pessoas faziam música. Fui conhecendo e gostando muito destas pessoas que participam no meu EP: o António Zambujo [Gisela], a Carolina Deslandes [Estrelas], a Diana Martinez [Loira], o Tyoz [Salada Com Molho Cor-de-Rosa], a Bárbara Bandeira [Cidade] e o Carlão [Advogado]. Gosto muito deles e a única coisa que não dá para fazer na música é fazê-la com pessoas com quem não te dás bem, que não pensam da mesma forma que tu ou que não têm os mesmos instintos. É um projeto que me deixa muito orgulhosa e acho que é a coisa que fiz que mais gosto. Acho que vou gostar mais deste [EP] do que do meu álbum, porque foi um projeto muito diferente e muito divertido de fazer.

E curiosamente neste EP participam três cantores que já foram mentores do programa The Voice [António Zambujo, Carolina Deslandes e Carlão]. É uma boa sensação?

É verdade [risos]. É muito fixe, muito fixe ter tido a oportunidade de trabalhar com todas estas pessoas, espero ter a oportunidade de trabalhar com mais. Este EP tem uma sonoridade… todas as canções são diferentes, mas fazem parte de um todo e acho que é um projeto muito giro. Se alguém quiser ir ouvir... [risos].

O tema ‘Gisela’, uma das seis canções do EP, tem uma história engraçada porque inicialmente não era para ser com o António Zambujo, certo?

Na verdade a canção não era para ser um dueto, era uma canção que eu ia dar a outra pessoa para interpretar e ainda bem que essa pessoa não aceitou porque ia custar-me muito ter dado essa canção. Eu acho que aquela pessoa ouviu a canção e pensou: ‘isto não sou nada eu, a miúda errou completamente’, mas acontece. Não fiquei nada triste e, lá está, depois deu origem a gravar a música com o Zambujo, que eu não achava nada que iria querer gravar comigo e foi o meu manager que nos juntou. Eles são amigos e o António Zambujo disse logo que sim, às 3h da manhã, numa mensagem por WhatsApp, três minutos depois de termos enviado a música.

Mais uma vez, o que parecia estar a correr mal no início terminou no sítio certo?

Eu acho que é assim com todas as pessoas, confesso. A vida é feita 50% de infelicidades e outros 50% de felicidades. Eu sou uma pessoa muito positiva e romântica, acho que as coisas más vão dar origem a coisas boas, ou nos fazem crescer ou aprender ou dão origem a novas oportunidades. Eu tenho muito essa perspetiva romântica da vida [risos].

Ainda no EP tens outra canção, intitulada Salada Com Molho Cor-de-Rosa…

A Salada Com Molho Cor-de-Rosa é um poema da Adília Lopes, que é a minha poetisa preferida. O poema fala sobre um relacionamento do início ao fim. Acho que antes os nossos avós conheciam-se, esforçavam-se e lutavam e era para a vida toda; na nossa geração é mais: ‘ok corre mal, arranjamos outro’. É tudo muito fácil, rápido, descartável. Portanto, eu acho que nós já vamos todos um bocado a medo, chegamos a uma certa idade e pensamos: ‘já sei como é que isto vai acabar, vou mesmo dar-me a esse trabalho?’. Acho que essa canção fala um bocadinho sobre esse medo, ter muito medo de se estar apaixonado. A minha vida amorosa é muito divertida [risos].

Depois deste EP, vais lançar o teu primeiro álbum, no outono. Não sei se já tens título, porque sei, que quando toca a títulos, deixam-te um bocadinho de fora dessas escolhas, não é?

Sim, eu sou péssima. Ninguém me deixa dar títulos a nada. Na verdade, o meu pai é que deu o título da maior parte das canções do meu álbum. Ninguém me deixou dar o título do EP, eu queria A Cidade de Estrelas, mas não me deixaram [risos]. Foi o meu amigo Ricardo Pereira - o que disse a minha frase que está no Instagram – que deu o nome [ao EP]. Estávamos no sofá e, no dia anterior a ter de entregar, ouvimos o EP do início ao fim e ele disse: ‘e se fosse Desalinhados?’. E assim ficou [risos].

E o que podemos esperar do teu primeiro álbum?

É o álbum mais genuíno que provavelmente vou escrever na vida porque foi um álbum que não sabia que ia ser um álbum e, portanto, eu nunca mais vou conseguir fazer um álbum assim porque a partir daqui vou sempre pensar que alguém vai ouvir. Este álbum escrevi de mim para mim. Não quero estragá-lo com as músicas que escrevo agora e, portanto, é um álbum pequenino: são as melhores canções que escrevi enquanto não era artista e, como eu sou muito nova, não são assim tantas [risos]. Não quis estragá-lo com ‘canções crescidas’ e por isso é um álbum feliz e triste e utópico-romântico-deprimente [risos].

Fala-se muito do facto de as tuas canções serem autobiográficas. Já aconteceu guardares uma canção porque não querias dar a conhecer determinada parte da tua vida ou porque sentiste que te poderias estar a expor demais?

Não, nunca aconteceu. Às vezes pedem-me dicas e eu acho que para se ser compositor é preciso ser corajoso. Eu não faço música a pensar em nada, faço de mim para mim e depois espero que as pessoas gostem. É verdade que as minhas músicas são autobiográficas, quem está a ouvir as canções está a ler o meu diário, que é um bocadinho chato, mas também acho que é por isso que as pessoas gostam das minhas canções. Eu escrevo coisas que elas também pensam ou que já viveram porque nós vivemos todos as mesmas coisas em alturas diferentes e momentos diferentes, mas há pelo menos algumas coisas que todos já vivemos.

Antes de lançares uma música choravas muito com medo que ninguém gostasse. Ainda te acontece?

Não. Aconteceu muito com o Sei Lá porque quando lanças a primeira música e tem sucesso tens muito medo de nunca lançar outra que tenha tanto sucesso. De repente a minha carreira era um sonho muito grande que se estava a tornar realidade e se ficasse a meio caminho era pior do que nunca ter começado. Estava com muito medo. Isso passou-se especificamente com o Sei Lá, lembro-me perfeitamente que chorei imenso e o meu manager a gozar imenso comigo a dizer que eu era ridícula e que a música ia correr bem. Agora sou tranquila. Há umas pessoas que não vão gostar, outras que vão gostar muito. Vai haver uma [canção] que eu vou adorar que ninguém gosta e há outra que toda a gente vai adorar que eu não gosto. Faz parte de fazer música [risos].

Somando o Antes Dela Dizer que Sim e o Sei Lá tens mais de 16 milhões de visualizações. És muito atenta aos números?

Sempre! Vejo todos os dias como é que estão as minhas canções, como é que evoluíram, se tenho mais um comentário, leio todos os comentários. Sou bué aquela compositora que faz uma cena e tem logo de mostrar, não sou nada de guardar e de deixar amadurecer, não, não, está maduro logo e mostro logo [risos]. A primeira pessoa que ouve as minhas canções é o meu manager, ele é muito bom a perceber que tipo de canção é.

E os teus pais?

Os meus pais têm toda a importância na minha vida de outra forma. Os pais são as pessoas que mais gostam de nós no mundo. Eu almoço todos os domingos com eles, não almoço todos os domingos com o meu manager [risos].

Em 2020 tinhas agendados vários espetáculos e também irias estrear-te nalguns festivais de verão, como o Rock in Rio. Foi um ano muito difícil para ti?

Foi um ano absolutamente horrível para a cultura. Eu tenho sorte porque sou uma miúda, tenho 22 anos. Pude ficar em casa, não sou médica nem enfermeira e, portanto, fiquei em casa a ler os meus livros e sou muito privilegiada. Nesse sentido, sinto que a pandemia foi muito boa para mim porque a minha carreira tinha começado muito rápido e eu não estava preparada, estava a ser tudo demasiado, eu não estava a saber lidar. Aquela pausa fez bem à minha carreira e deu-me espaço para criar, para trabalhar neste EP, para preparar o meu álbum, para gravar videoclipes... Mas, por favor, que nunca mais ninguém se esqueça da cultura. Um país sem cultura é um país triste.

No próximo mês de novembro vais atuar no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, e no Coliseu Porto Ageas, no Porto. Lembras-te do primeiro concerto a que assististe?

O primeiro concerto a que assisti foi um concerto de Iron Maiden, no Altice Arena, tinha 18 anos. Foi pena porque tocaram o álbum novo e eu tinha ouvido os antigos, mas foi giro [risos].

O que gostarias que as pessoas dissessem quando saem dos teus concertos?

Foi bué divertido!                                                                                                                                               

Divides casa com dois amigos, pedem-te concertos privados ou para pores a viola no saco?

Eu vivo com o Tyoz e com o Ricardo, que é professor no conservatório, é uma casa de música. Na nossa casa há música em toda a parte [risos].

Nos tempos livres o que costumas fazer? Além de gostares muito de ler, já soube que também és fã de jogar Catan e que até chegaste a ir a um torneio nacional?!

Fui ao torneio e fiquei para aí em 7o lugar no meu ano, perdi estupidamente [risos]. Mas sim, eu gosto muito de jogos de tabuleiro, tenho uma grande coleção. Tenho uma lista que posso recomendar às pessoas se precisarem [risos].

Fizeste 22 anos em novembro último e partilhaste a seguinte frase: ‘continuo a ter o quarto super desarrumado, a chegar sempre atrasada, a vestir a roupa ao contrário e a não ter coragem de fazer uma tatuagem’.

Todas essas coisas continuam a ser verdade hoje [risos].

Mas gostavas de fazer uma tatuagem?

Gostava. Quando fiz esse post o meu pai logo a seguir mandou-me uma mensagem a dizer: ‘Bárbara, a tua mãe informou-me que puseste um post no Instagram a dizer que vais fazer uma tatuagem e digo-te já que estás proibida’. Pensei: ‘tenho 22 anos e o meu pai ainda me ameaça via WhatsApp a dizer que não posso fazer uma tatuagem’ [risos]. Eu gostava, mas se fizer vai ser num sítio em que não olhe muito para ele para o caso de me arrepender... Acho giro nas outras pessoas e acho que tenho pinta para usar, mais ou menos, se calhar não tenho mas acho que sim [risos].

Vais obedecer aos teus pais por enquanto?

Sim, e quando fizer não lhes vou dizer. Vão ter que descobrir por eles próprios e ter a desilusão a seu tempo [risos].

Com o regresso dos concertos tem sido bom este reencontro com o público?

Tem sido muito bom. Eu tenho visto que há imensas salas esgotadas, claro que também é mais fácil encher uma sala a meio gás mas, por outro lado, estão sempre esgotadas. E, não é só na música, também no teatro, cinema... Sou uma pessoa que consome muita cultura nacional e não é só porque é fixe ou para ser intelectual, não tem nada a ver. Eu gosto e há cenas portuguesas muito boas. Há muito o preconceito do ‘ah, é português não vou ver’. Vou imensas vezes ao cinema ver filmes portugueses e sou a única pessoa na sala, isso é triste. Se não apoiarmos aquilo que nós fazemos, e que fazemos bem, ninguém vai apoiar. Há muitas peças bem feitas, bem interpretadas, bem escritas...

Tens algum artista ou banda em que neste momento estejas mais viciada? Ou tens ouvido mais o EP?

Eu nunca mais vou ouvir o meu EP na vida, já lancei, não oiço mais. Eu acho que ninguém ouve a sua própria música, acho eu ou pelo menos eu não oiço [risos].

E quando passa uma música tua na rádio?

Não, mudo de estação.

Mudas?

Primeiro fico bué feliz e obrigada rádio, não deixem de passar a minha música, mas eu fico tipo eia não, não, não, não, não, vamos lá, quero mudar para Dua Lipa [risos].

Mas porque estás farta?

Opa, porque nós ouvimos muito as canções antes delas saírem. Eu acho que acontece muito do género, imagina, eu sou muito de ouvir uma música, vicia naquela altura e depois, passado um tempo, ouço uma ou duas vezes. Com as minhas músicas acontece um bocado isso, vicio enquanto estou a compor e enquanto preciso de ouvir muito para dar aqueles ajustes finais - depois disso ouço a mistura cinquenta vezes, ouço a produção outras trinta e depois já não consigo ouvir mais a música.

Há algum artista português ou internacional que estejas a ouvir mais nesta fase?

O que é que saiu tipo incrível? Olha saiu o álbum dos Wet Bed Gang, o projeto da Carolina Deslandes, Mulher, que é absolutamente incrível, não sei se já ouviram, mas vão todos ouvir que é mesmo incrível. O álbum do António Zambujo, Voz E Violão, têm saído imensas coisas e eu partilho no meu Instagram. Se me seguirem eu sou uma pessoa que estimula bastante a cultura [risos].

Com o Dia Mundial da Criança à porta, qual é o teu lado mais infantil?

Precisamente a questão do quarto, tenho sempre o quarto desarrumado e não vai mudar [risos]. Se a minha mãe entrasse neste momento no meu quarto tinha um ataque: ‘o que é isto? Eu não te eduquei assim!’.

Então há três problemas: o quarto desarrumado, a possível primeira tatuagem e o facto de te faltar uma cadeira para terminares o curso de Ciências Musicais…

Todos os domingos em que vou almoçar com os meus pais falamos sobre isso [faltar uma cadeira pata terminar o curso], literalmente todos. Eu confesso que há duas coisas sobre mim que acho poéticas que são: sou uma letrista que não sabe escrever, dou imensos erros ortográficos, recuso-me a aprender certas coisas - imagina, se visses um texto meu ficavas tipo: ‘esta miúda tem 10 anos?’. Eu escrevo bué mal, não sei usar pontuação, o a com h ou sem h... Toda a gente me explica e eu não aprendo porque é estúpido, estar lá o h ou não estar, para mim é confuso e sempre foi. E acho giro ter um curso sem ter, acho poético e divertido. É estúpido, é. Todas as coisas que disse são estúpidas, mas eu gosto disso em mim [risos].