Cultura

D. Maria II, a rainha que só quis ser mulher e mãe

A exposição inaugurada no Palácio da Ajuda dá-nos a conhecer a última rainha portuguesa, a mulher que aos sete anos era rainha, aos 15 foi entronizada e, nas duas décadas até à sua morte, reinou num dos períodos mais conturbados da história nacional, não tendo ambicionado outra coisa que escapar à ‘maldita política’ para gozar a felicidade doméstica junto da família.


É uma imagem que nos seduz há muito, a de um monarca em derrota, em vão tentando recuperar restos, fulgores de um dourado império, talvez porque essa ruína acaba por espelhar a desolação íntima de todos os homens, arrastados para conflitos que, por mais mesquinhos ou ridículos, e mesmo quando podem decidir tudo, nenhuma paixão despertam, apenas causando um terrível desgaste. Única monarca europeia a nascer na América, no Rio de Janeiro, onde a corte portuguesa ainda estava sediada em consequência das invasões napoleónicas, a vida de D. Maria II foi marcada por um desejo de escapar à «maldita política», libertar-se dos afazeres amargos a que a obrigava a sua posição, a todos esses aspetos do domínio político que obrigaram que a sua verdadeira vocação enquanto mulher e mãe desaparecessem «por detrás da fachada necessária da Rainha». Agora, uma exposição inaugurada na última semana de maio no Palácio Nacional da Ajuda (PNA), em Lisboa, mais de dois séculos depois do nascimento da nossa última monarca do sexo feminino, e apenas a segunda em toda a história nacional, oferece-nos um vislumbre do que foi a sua vida, por meio de uma construção dessa intimidade, bem aos olhos dos homens escondida, à margem da dor, do caos e da desolação. Afinal, esta mulher, herdeira dos Braganças do Antigo Regime, tinha apenas sete anos quando se tornou Rainha de Portugal, em 1826. Depois da morte do avô, o rei D. João VI, o seu pai, D. Pedro IV, preferindo a coroa imperial do Brasil, cuja independência proclamara em 1822, cedeu-lhe por abdicação o trono, mas na tentativa de matar dois coelhos de uma só cajadada, ele que se gabava das suas convicções rasgadamente liberais, outorgou uma Carta Constitucional aos portugueses e determinou que a futura rainha casaria com o tio, o infante D. Miguel, cujas simpatias pró-absolutistas poderiam vir assim a ser neutralizadas pelo juramento da Carta e pelo consórcio com a sobrinha. Como relata a historiadora Maria de Fátima Bonifácio, que assina a biografia da Rainha no catálogo da exposição, em 1828, D. Pedro enviou a filha para a Europa, para a corte do avô materno, o imperador Francisco I da Áustria, a fim de ser educada com vista às funções transcendentes que a aguardavam. Só que enquanto a jovem Rainha cruzava o Atlântico, o tio e presumido futuro marido, D. Miguel, ‘usurpou’ o trono português e fez-se confirmar Rei absoluto pelos Três Estados do Reino, a 23 de junho desse ano. Sabido este facto em Gibraltar, onde a Rainha aportou em setembro, o marquês de Barbacena, que a acompanhava como tutor, resolveu rumar a Inglaterra, onde D. Maria foi acolhida com as honras reservadas às «testas coroadas».
Entronizada aos 15 anos, em 1834, o seu reinado duraria até à sua morte, em 1853. Como nos diz Oliveira Martins, em Portugal Contemporâneo, «D. Maria II era mulher e quase criança; um ser a propósito para essa ficção singular de monarquia sem autoridade, de rei que não governa […] a fim de preencher esse lugar vago a que o liberalismo chama trono. Ninguém melhor servia do que uma criança apenas mulher, pessoa sem querer, símbolo em vez de realidade, como os vultos de palha que se põem nas searas para afugentar os pardais vorazes». O seu reinado dura 19 anos, morrendo precocemente, com apenas 34 anos, tal como o pai. Entre 1837 e 1853, teve 11 filhos do casamento com D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha (1816-1885). Apenas sete sobreviveram. D. Maria morreria no 12.º parto, na madrugada do dia 15 de novembro de 1853. O historiador José Miguel Sardica, comissário da exposição, explica que os sucessivos e pouco espaçados partos lhe haviam fragilizado a saúde. «A iconografia e os testemunhos mostram, nos seus últimos tempos, uma mulher excessivamente gorda e com dificuldades respiratórias, já sem a beleza juvenil dos primeiros retratos». Por comparação, lembre-se a descrição que foi feita da rainha por Bulhão Pato, na altura em que, aos 17 anos, se casou com D. Fernando: «Sem ser bela, era uma graciosa figurinha de princesa de raça. Estatura elegante, cabeça altiva, tez branca e fina, de uma macieza de cetim. Olhos castanhos claros e de muita luz; o beiço inferior carnudo, um pouco belfo, como o dos Braganças. Gracioso o corte da boca, mas firme como o seu caráter».

No mesmo dia em que morre a mulher, D. Fernando assume a regência do reino, terminada a 16 de setembro de 1855, quando D. Pedro, o filho, completou 18 anos e foi entronizado Rei. Nas suas memórias, o pai dos filhos de D. Maria homenageia a mulher, lembrando que «toda a sua vida foi repleta de acontecimentos e na sua curta duração teve experiências tão duras, e pôde por vezes ver os homens sob um aspeto tão desfavorável, que não se lhe podia levar a mal um desprezo pelos humanos por vezes levado ao excesso». Mas se passará à história com o cognome de ‘Educadora’, é o próprio comissário da exposição que admite que o rótulo peca por excesso, notando que, «pelas vicissitudes da sua infância e da sua adolescência, saltando de país em país à procura da sua coroa, órfã de mãe muito jovem (em 1826), com um pai preocupado, mas distante, entregue a aias e precetoras, e feita rainha sem ter podido gozar verdadeiramente a juventude, D. Maria não pôde receber uma sólida instrução». Sardica diz que a monarca sabia ler e formar as suas opiniões, mas que «nunca educou ou refinou o gosto artístico e poucas vezes, na condução do Estado, se preocupou pessoalmente com a promoção da cultura». A Rainha que, em carta a Vitória, de Inglaterra, datada de 8 de maio de 1842, dizia que o seu desejo era que o país «fosse uma rotina, uma sucessão certa de dias iguais e serenos», alguém que só desejava a tranquilidade, para se poder entregar à felicidade doméstica, junto da sua «trupe», como ela dizia, viveu as quase duas décadas do seu reinado como se contrariada, sentindo o país «completamente desorganizado». E Bonifácio adianta que, «se alguma coisa distinguiu o reinado de D. Maria foi a luta contra a revolução, que acabou por empurrá‑la para os braços de António Bernardo da Costa Cabral, um plebeu ambicioso, enérgico e audaz que lhe prometia vencê‑la, e mantê‑la vencida». Por outro lado, e ainda que se considerasse portadora do génio dos Braganças, «durante o cabralismo (1842-1846), achou que era uma boa ideia fazer estradas, mas é duvidoso que tivesse uma noção precisa sobre a sua exata utilidade. Também se preocupava com as chuvas demasiado prolongadas, porque as inundações arruinavam os lavradores. Não se lhe conhece mais nenhuma visão política».

Talvez a mais justa apreciação do perfil desta nossa monarca tenha saído da pena da escritora Ester de Lemos, que no centenário da morte de D. Maria vincou que, «ao vê-la viver com intensidade e minúcia a vida de família, começamos a compreender que não era a ambição nem a vaidade pessoal o que a levava a lutar pelo fortalecimento do Trono; eram, sim, as suas convicções monárquicas, o seu brio, o seu respeito pelas insígnias reais».
D. Maria II, de princesa brasileira a rainha de Portugal, 1819-1853, assim se chama a exposição organizada em conjunto com o Museu da Presidência da República, e que estará patente na Galeria do Rei D. Luís do Palácio da Ajuda até 29 de setembro. É justo reconhecer, como destaca a ministra da Cultura, Graça Fonseca, que, bem para lá dos habituais e enjoativos encómios que, nestas alturas, trocam entre si os diferentes agentes políticos, este «é um exemplo do trabalho dos museus na investigação histórica das suas coleções, que se traduz na conservação e restauro dos acervos», e isso fica claro no esforço de reunir obras de arte, objetos e documentos de natureza e proveniência vária para evocar a vida e obra de D. Maria II, desde as suas origens, educação, vida familiar e personalidade, bem como a sua relação com as cortes europeias, o seu casamento com D. Fernando de Saxe-Coburgo Gotha, e a sua época e reinado. Organizada como uma narrativa biográfica, a exposição compõe-se de doze núcleos, e complementada pelos estudos que integram o catálogo, fornece-nos um exemplaríssimo esforço que depressa nos faz esquecer o atraso na celebração do bicentenário do nascimento da monarca, convocando-nos para esta cativante evocação de uma figura histórica que é trágica por existir entre dois mundos, duas tradições em choque.

José Alberto Ribeiro, diretor do PNA, destaca como, entre as peças provenientes de diferentes museus do património nacional, autarquias e coleções privadas, contam-se algumas recentemente restauradas pelo Laboratório José de Figueiredo, nomeadamente várias joias pessoais da Rainha e a Coroa de Portugal, peça simbólica que há mais de duas décadas não é observada pelo público, assim como outros restauros patrocinados pelo Museu da Presidência da República. «Fazem ainda parte da mostra muitos objetos da profusa iconografia da rainha, dispersos em Portugal continental e ilhas, que dificilmente se voltarão a juntar. Resultado da pesquisa histórica que constitui o trabalho diário dos museus, é, a título de exemplo, apresentado pela primeira vez algo de tão inédito como particular – uma madeixa de cabelo da soberana, datada de 1829, que foi enviada ao rei D. Luís por ocasião do nascimento do rei D. Carlos, no Palácio da Ajuda, em 1863, por um nobre brasileiro que conviveu com a jovem D. Maria no Brasil».
Esta exposição assume ainda preponderância por anteceder e, de algum modo, preparar o caminho para a inauguração do Museu do Tesouro Real no Palácio da Ajuda, momento em que abrirá ao público a recém-construída ala poente, com os tesouros de ourivesaria e regalia da Casa Real Portuguesa. O que deverá acontecer no último trimestre do ano.