Sociedade

Hospitais vão ter de abrir mais camas para doentes com covid

Em Lisboa há 90 doentes internados em cuidados intensivos, mas internamentos sobem também no Norte e no Algarve. Fernando Maltez, diretor do serviço de doenças infecciosas do Curry Cabral, defende aplicação de coimas e maior controlo nas fronteiras.


A região de Lisboa e Vale do Tejo está à beira de ultrapassar o patamar de 92 camas de cuidados intensivos ocupadas com doentes com covid-19, a capacidade solicitada há cerca de três semanas aos hospitais. Na altura, os hospitais receberam orientações para passar de 71 camas de UCI para 92, o que se revela insuficiente para responder ao aumento de casos, que apesar de algum abrandamento em Lisboa não se reflete em menos doentes a dar entrada nos hospitais. Começaram entretanto a aumentar também os doentes internados no Algarve e no Norte, na última semana com a subida mais acentuada de diagnósticos. No espaço de uma semana, os diagnósticos na região Norte mais do que duplicaram, passando de 1300 para 3350 novos casos nos últimos sete dias.

Lisboa continua no entanto a registar a maioria dos diagnósticos, com mais de 8 mil novos casos de covid-19 na última semana e mais de metade dos internamentos a nível nacional.

A Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo confirmou ontem ao i que este domingo estavam internados nos hospitais da grande Lisboa 395 doentes com covid-19, dos quais 90 em unidades de cuidados intensivos. São mais 17 doentes a precisar de suporte de vida do que há uma semana, sendo que entretanto se registaram altas e óbitos.

O presidente da Comissão de Acompanhamento da Resposta Nacional em Medicina Intensiva já admitiu que se chegue aos 100 doentes em UCI esta semana em Lisboa. Ao Público, João Gouveia apontou para a necessidade de 120 a 125 camas na região e a possibilidade de transferir doentes, com impacto na atividade não covid. Segundo o i apurou, nos hospitais da grande Lisboa antecipa-se que seja também preciso dar apoio à região de Algarve, da mesma forma que houve doentes enviados para o Sul nos momentos críticos da pandemia no inverno. O Algarve é neste momento a região com maior incidência de novos casos a nível nacional, aproximando-se dos 600 casos por 100 mil habitantes, com 1600 casos nos últimos sete dias, sendo a região com menos camas hospitalares dado ter muito menos população do que o Norte ou Lisboa.

 

Situação acompanhada ao dia

Ao i, a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo sublinhou que os planos de contingência para enfermaria e UCI “são dinâmicos e ajustáveis”. Questionada sobre se já houve novas orientações para a abertura de mais camas, o que em junho implicou diminuir as camas de UCI afetas a doentes não covid, a ARS indicou que a situação é acompanhada diariamente e “em função dessa análise são tomadas medidas para ajustar a disponibilidade de camas.” Reforçou ainda que, além de haver capacidade instalada, “o SNS funciona em rede – com a ARSLVT a dar resposta a outras regiões quando é necessário e vice-versa.”

Ao que o i apurou, não houve ainda orientações para suspensão de consultas ou cirurgias ou de férias de profissionais de saúde, mas o cenário continua em cima da mesa.

 

“Não pode haver mensagens dúbias”

Ao, i Fernando Maltez, diretor do serviço de doenças infecciosas do Hospital Curry Cabral, que neste momento tem o maior número de doentes internados com covid-19 na região de Lisboa – 95 doentes ao todo, 20 em UCI – afirma que não se nota ainda uma abrandamento na entrada de novos doentes, pelo contrário. “A média de idade dos doentes internados ronda os 55 anos e são maioritariamente pessoas não vacinadas”, explica o médico. “Os doentes que temos tido vacinados são maioritariamente de faixas etárias mais velhas e que não tinham ainda as duas tomas completas e o facto de terem infeção tanto pode estar relacionado com não terem desenvolvido imunidade protetora, pela própria idade, ou com variantes que escapem mais a à vacina, mas tudo isso ainda está em estudo.”

Fernando Maltez considera que neste momento, em termos de enfermaria, a procura é gerível, confirmando que as camas de UCI estão todas ocupadas. “Neste momento ainda se vai conseguindo gerir, mas quanto mais camas tivermos de abrir para doentes covid maior probabilidade de termos de prejudicar a atividade não covid. Para já não estamos aí”, diz.

Se em termos hospitalares considera que a atuação está a ser “proporcional” à situação epidemiológica, defende que em termos comunitários considera que relatos de festas ilícitas e ajuntamentos mostram que a necessidade de controlo da epidemia não está a ser percecionada. “Tirando a vacinação, em que as coisas têm corrido bem, em termos de adesão às medidas de proteção o que vemos é que as pessoas não estão a cumprir com as medidas que se tem pedido insistentemente, seja de distanciamento, de uso de máscara. Seja por cansaço seja por não acreditarem, não está a haver a adesão que gostaríamos”, lamenta, sublinhando que a maioria dos doentes que dão entrada no hospital não tem uma perceção de onde se infetou, havendo casos de contágio em convívios. “Penso que precisamos de insistir na mensagem, não haver mensagens dúbias e contraditórias, com fazermos os alertas e outros virem dizer que está tudo bem e aplicar as coimas a quem prevarica. Penso que as pessoas têm de sentir um pouco mais na pele as infrações em que estão a incorrer”, apela o médico, defendendo também maior controlo nas fronteiras. “As pessoas não deviam poder passar apenas com um teste negativo, deviam fazer quarentena. Uma pessoa pode ter um teste negativo e estar em período de incubação e não possa vir a desenvolver infeção”, diz, sublinhando que esta já era uma preocupação anterior aos certificados digitais da covid-19, que vieram facilitar as deslocações internacionais e nacionais mesmo de quem não está ainda vacinado. Atualmente a quarentena à chegada a Portugal aplica-se a passageiros provenientes de África Do Sul, Brasil, Índia, Nepal e Reino Unido.