Mente (In)quieta

Uma janela para outro mundo

Como se tivessem ficado fechados numa cápsula do tempo, em Nampula, onde se declarou transmissão comunitária do coronavírus, não se ouve falar em vacinas, nem se contam, nas mercearias e botequins, os mortos ou infetados por Covid-19. Não se usam máscaras, a não ser que se aviste a polícia, nem há espaço para distanciamento social. A lista de preocupações é outra.


por Sofia Aureliano

Fechem os olhos. Foi o que fiz quando ouvi um amigo contar-me o cenário que hoje se vive em Moçambique. Parecia que estava a mergulhar no livro de História e Geografia de Portugal do 5º ano do meu filho, onde as figuras representam as ruas em 1347, em tempos de Peste Negra. Quando os judeus eram os bodes expiatórios e a bruxaria ou o veneno faziam cair um em cada três europeus.  Não havia cura. Nem sequer se chegou perto, à época, de encontrar uma causa. Deduzia-se apenas o óbvio: a falta de higiene e de saneamento básico, a circulação livre dos animais pelas ruas surrentas e imundas, partilhando os espaços com os humanos, a fome e a má nutrição, a ausência de casa, de teto ou de colmo, de uma cama que não fosse de palha não ajudavam a travar a Grande Peste que, durante quatro anos, dilacerou a Europa.

Avançamos no tempo até 2021. Mais de seis séculos e meio depois, a Europa não se reconhece. Evoluiu, modernizou-se, é muito mais do que se podia sequer fantasiar nos sonhos mais vanguardistas, na Idade Média. Mas não deixou de ser vítima de um vírus mortal, de alcance mundial, que se propaga cada vez mais rápido. Temos do nosso lado a ciência. E em menos de um ano, encontrou-se uma resposta científica para travar o vírus.

No mesmo planeta, a sul, a realidade é outra. Concentro-me em Moçambique, um dos países mais pobres do mundo, de onde tive recentemente imagens e histórias contadas na primeira pessoa. Mas estou certa de que o mesmo texto poderia ser sobre outras paragens.

Os séculos parecem não ter deixado as mesmas marcas de passagem por ali. Como se tivessem ficado fechados numa cápsula do tempo, em Nampula, onde se declarou transmissão comunitária do coronavírus, não se ouve falar em vacinas, nem se contam, nas mercearias e botequins, os mortos ou infetados por Covid-19. Não se usam máscaras, a não ser que se aviste a polícia, nem há espaço para distanciamento social. A lista de preocupações é outra: a fome, a falta de saneamento, a escassez de meticais que paguem o trabalho, a educação que não podem assegurar e o futuro que não veem ser viável para os filhos. A saúde. É uma enorme preocupação, mas vai muito além da Covid-19. Pudessem eles ter acesso a qualquer vacina, e dariam graças sem querer saber de graus de eficácia, reações adversas ou efeitos secundários. Esses vivem-nos todos os dias em que lhes é privado o acesso a condições dignas de vida.

Esta realidade existe abaixo da linha do Equador, escondida a uns quilómetros de terra batida das praias paradisíacas que ansiamos poder voltar a visitar. Como turistas que se banham no éden terrestre, instalados em resorts cuja diária serviria para alimentar umas dezenas destas famílias locais. Mundos à parte, que escolhemos, na maioria das vezes, não ver. “Olhos que não veem, coração que não sente”.

Conto esta história com dois propósitos. O primeiro, é que vos dê o mesmo murro no estômago que senti ao ouvir a descrição destas vidas reais, contrapondo à pequenez do que deixo que me aflija no dia-a-dia. Senti-me risível a pensar na apreensão que percentagens e gráficos me causam quando, para estas pessoas, os eixos nunca saem de zero. Entre os locais, não se fala de datas de início de vacinação, quanto mais de primeiras doses ou esquema vacinal completo. Senti-me muito menor do que eles por deixar que me inquietem coisas tão mesquinhas a que chamamos de problemas, como filas de espera, dificuldades de agendamento, pequenos atrasos, atendimentos menos simpáticos ou entediados, enquanto eles seguem com a vida, empurram-na, com muito maior custo e sem tempo para reclamações. Abanou-me, como espero que vos abane. Não para deixarmos de ser exigentes e de termos sentido crítico. Mas para conseguirmos relativizar quando tantas vezes cedemos e nos deixamos ser movidos pela raiva no cometário fácil ou na acusação óbvia.  As coisas podem não estar bem connosco e temos direito de exigir que melhorem, se depender de alguém que isso aconteça.

Mas é bom lembrar-nos que, noutras geografias, há sobreviventes que, não merecendo, parecem ser filhos de um Deus menor.

O segundo propósito é mais estratégico. Mais do que nunca, desta vez, não podemos olhar para o lado. Felizmente, não dependemos de solidariedade, generosidade ou altruísmo. É  por puro pragmatismo e espírito de sobrevivência que o mundo ocidental vai ter de dar a mão àqueles que se escondem para lá das montanhas e dos vales de terra batida, porque enquanto o vírus existir em qualquer parte do mundo é um perigo eminente para toda a população mundial.

Neste aspeto, o Sars-Cov2, sendo provavelmente o menor dos problemas destes povos habitualmente esquecidos, acaba por lhes servir de milagre por colocá-los no mapa e nos obrigar, a todos, a vê-los bem, como são e onde estão. E depois de ver, já ninguém pode indulgentemente virar a cara.

A frase que normalmente aparece como missão associada à união e à cooperação internacionais e à defesa de direitos humanos - “ajudar os países menos desenvolvidos”  - assume agora uma proporção diferente, sustentada num móbil que a torna de alcance  mais realista: a sobrevivência dos países desenvolvidos depende da erradicação global do vírus, que apenas se atinge se houver intervenção nos países em desenvolvimento.

Desta vez, não será humanitária, mas obrigatória. E urgente. O que acelera muito a  estratégia de cooperação e a efetiva ajuda ao chamado terceiro mundo. Em breve, terão de chegar as vacinas a todo o lado e, associadas a elas, esperemos que algumas intervenções para melhorar as condições de vida destas sociedades. Porque o vírus é um inimigo coletivo, reincidente que, como um vilão da Marvel, se torna cada vez mais forte à medida que se espalha, e que só juntos conseguiremos eliminar. 

Portugal doou 50 mil doses da vacina AstraZeneca que chegaram a Maputo a 5 de julho. O governo francês enviou, no mesmo dia, 108 mil vacinas Covax. A população de Moçambique é de aproximadamente 30 milhões de habitantes. Atualmente, cerca de 23 milhões vivem abaixo do limiar da pobreza.

Podem abrir os olhos. A “viagem” terminou.

Enquanto nos entretemos a brincar aos números, ao “vou ou não vou vacinar-me” e nos damos ao luxo de questionar a ciência, do outro lado do mundo, o que se joga todos os dias é a vida. Sem roleta.

E, como esta janela, há ainda muitas outras por abrir.