Sociedade

"A vantagem que temos em relação aos ingleses é que podemos aprender com os erros e os êxitos deles"

A ministra da Saúde clarifica que quando não afasta cenário de desconfinamento está a pensar numa situação em que a pressão da covid-19 voltasse a ser extrema e recusa divergência com o PR ou que tenha pedido para sair do Governo. Admite cansaço, mas também que as dificuldades da pandemia a têm tornado uma pessoa mais tolerante. Exemplo inglês pode ser seguido cá? Há apreensão mas admite que não está fechado. A vantagem, assume, é que vai dar para ver como corre lá.   


 

Foi um conselho de ministros mais demorado esta semana. Dentro do Governo há consenso sobre como responder a esta quarta vaga?

Os conselhos de ministros são sempre dias pesados na vida no Governo. Os dias com pandemia covid são mais complexos, sobretudo quando estamos em fases menos claras relativamente à situação pandémica. Quando estamos numa fase de transição, em que já temos vacinação mas não podemos abandonar por completo as medidas não farmacológicas, é mais difícil tomar decisões. Estamos perante uma doença que já não é nova mas numa fase nova.

Disse que a situação não é tão clara porque não se percebe a trajetória ou o que pode ser mais eficaz?

Quando digo que não é tão clara é porque é menos evidente qual é a melhor opção a tomar. O que temos com clareza é que os números estão a subir. Na última semana temos um aumento de 54% na incidência. Agora o que sabemos é que estamos a tentar maximizar uma arma que antes não tínhamos, que é a vacinação. Se não fosse a variante delta, com esta taxa de vacinados estaríamos muito mais confortáveis e tranquilos.

Tem estimativas?

Não, mas temos a perceção de que se a variante delta não tivesse aparecido a situação seria diferente. Portanto, não digo que a situação epidemiológica não seja clara, a melhor forma de reagir perante ela é que é menos preto ou branco. O senhor primeiro-ministro tem dito muitas vezes que quando a situação é muito crítica, não resta dúvida sobre o que é preciso fazer. Quando está muito tranquila, também não resta dúvida. Estas zonas na sombra é que são mais difíceis. Neste momento temos três circunstâncias que poderão ter um efeito. Por um lado, o encerramento das aulas.

As crianças e jovens vão estar menos juntas.

Sim, poderão estar mais na rua, mas apesar de tudo não é o ambiente de sala de aula fechada. As escolas foram sempre a última coisa que dissemos que queríamos fechar, mas em termos de eficácia é uma das medidas que retira mais contactos. Nas férias escolares o movimento nas grandes cidades abranda. Este é um fator que vamos ver agora se potencia aquilo que se pretende, que é achatar. Por outro lado temos a vacinação: são 850 mil doses que esperamos ter a mais esta semana. E em terceiro lugar, o efeito das temperaturas. Da mesma forma que ficámos muito vulneráveis com o frio, à partida, sendo um vírus respiratório, o que alguns especialistas têm dito é que seria muito estranho se não houvesse um abrandamento.

Foram esses fatores que levaram a aliviar as restrições de horários, substituindo-as pelo certificado digital?

São restrições diferentes. Não é uma restrição ‘porta fechada’, mas é um condicionamento. Perguntava-me sobre consenso, o Governo decide por consenso e é do debate entre todos que se encontram as soluções que melhor refletem a sociedade, que não é só saúde.

No conselho de ministros é a voz mais cautelosa?

Eu sou ministra da Saúde, portanto não me vou transformar na ministra das Finanças ou da Agricultura. Cada um tem de fazer o seu papel e os conselhos de ministros têm essa riqueza. À Saúde cabe a preocupação com a saúde, mas sabendo bem que saúde não é só serviços de saúde, também é o resultado da economia, da estrutura social. A saúde mental das pessoas começa a estar visivelmente afetada pela exposição a estas variações, à incerteza. A política do Governo em relação a medidas não farmacológicas tem sido sempre a mesma: medidas proporcionais.

Uma estratégia que chegou a ser contestada noutras fases por epidemiologistas como Manuel Carmo Gomes, que alertaram que dessa forma se corre atrás do vírus.

Sim, mas aí foi mesmo uma escolha. Se não formos proporcionais, a sociedade não entende. Uma das coisas que se dizia era que podíamos ter sido mais precoces no fechamento no final do outono, início do inverno. Na altura a perceção social não era de modo a aceitar esse fechamento e temos tido até agora em Portugal uma coisa que nos tem sido muito favorável, que é termos feito o combate à pandemia com uma relativa adesão social.

Sente isso mesmo agora?

Sinto. Claro que sabemos que há incumprimentos, saturação, mas acho que as pessoas têm genericamente acatado. E o incumprimento tem de ser combatido com informação, educação.

Olhando para trás, podia ter havido uma atuação mais rápida em Lisboa em maio? Acabámos por ver no Algarve e no Norte o mesmo fenómeno, com mais concelhos a recuar no desconfinamento.

Há fatores que nos levam a não reagir a este aumento de casos como reagiríamos há um ano.  Hoje vemos os casos a subir e vemos internamentos a subir, mas felizmente não sobem à mesma velocidade. A vacinação é o grande escudo, embora todos os escudos tenham falhas. A verdade é que tivemos a penetração da variante delta numa altura em que estávamos mais desconfinados do que outros países. Temos andado em contraciclo, tivemos um janeiro e um fevereiro muito maus, baixámos muito a incidência com um confinamento prolongado e quando a variante delta se começou a espalhar já estávamos mais desconfinados do que outros países. 

Além do azar no timing, não houve excesso de confiança?

A questão dos tempos é muito importante. A corrida contra o tempo da vacina é mesmo uma realidade. 

Em maio não havia uma sequenciação genética tão contínua. Houve 15 dias sem dados, que foi quando a variante delta ganhou um peso maior em Lisboa. Porque é que a análise não foi intensificada mais cedo?

O INSA fez uma alteração da metodologia. Nessas semanas o que aconteceu foi que o método de análise deixou de ser uma vez por mês para passar a ser uma extração semanal. Houve um intervalo nessa perceção dos nossos resultados, não quer dizer que a situação não estava a ser acompanhada. Aliás foi isso que determinou que numa fase precoce tenhamos restringido a circulação na Área Metropolitana de Lisboa, porque tínhamos estimativas da prevalência da variante delta baseadas nos resultados PCR que já apontava para 50%, 60% e antecipou-se o que viria a ser um espalhamento no país e ao nível da Europa. A Alemanha restringiu os voos para Portugal, mas agora já foram repostos porque também têm a variante delta dominante.

O Governo impõe agora certificados digitais na restauração nos concelhos de risco ao fim de semana e nos hotéis. Há muitos casos associados a estes setores?

Não, a questão é a seguinte: quando limitámos os horários não foi só para restauração, limitámos para todas as atividades exceto aquisição de bens essenciais ao fim de semana à tarde. Isto com base no que foi a experiência no final do ano passado: apesar de tudo, enquanto tivemos essas medidas em vigor, não baixamos a pique mas controlámos a subida. Sabemos que o que resolve mesmo é ficar em casa, mas não nos podemos permitir isso, por todas as razões. A estratégia tem sido procurar sempre formas de cortar a transmissão. Onde é que as pessoas estão mais expostas: locais de convívio, interiores, sem máscara. E é nessa lógica que agora se adaptam as medidas. Em termos epidemiológicos, o que sabemos é que a maioria dos casos têm origem familiar, agora isso resulta dos inquéritos e também pode resultar de ser mais fácil de fazer essa ligação quando há um caso em casa. 

Tem sido muito questionada a constitucionalidade destas novas medidas. Sendo jurista de formação, sente-se confortável ou estaria mais com a declaração de estado de emergência?

O estado de emergência tem um peso, foi pensado para um enquadramento que não é um enquadramento pandémico, portanto desde logo há essa dissonância entre aquilo para o qual o nosso estado de emergência foi concebido e uma pandemia no século XXI. Penso que tem havido uma preocupação muito grande, e tem mesmo, com os princípios em presença, do seu equilíbrio e da proporcionalidade das escolhas, portanto nessa medida sim, sinto. É evidente que um quadro diferente, que espero que exista para uma outra pandemia, poderá dar maior certeza.

O Governo criou agora uma comissão para rever o quadro jurídico e avaliar uma nova uma lei de emergência. Porque é que não o fez mais cedo?

Um contexto de crescimento exponencial não é provavelmente o melhor momento.

Não podia ter avançado no ano passado?

Falámos muito disso. Há muita coisa que se começa a redigir e acaba por se optar por deixar ficar. Começámos a fazer alguns exercícios de escrita de alteração de algumas normas, até ao nível da lei de saúde pública. Achámos que não era o melhor momento quando estamos debaixo das circunstâncias. É bom haver algum distanciamento.

Já recusou várias vezes afastar o cenário de um novo confinamento.

Sim, recusei a afastar. Espero que não aconteça, espero que não seja necessário, mas estamos a falar de uma pandemia e de uma pandemia que tem contornos que ainda não conhecemos completamente. É evidente que todas as vacinas que administramos tornam esse cenário mais longínquo e mais um cenário perfeitamente hipotético.

Mas em que cenário concreto é que admite que o país possa ter de confinar?

O cenário de saturação do sistema de saúde é um cenário extremo e de alarme social.

Portanto não é algo que esteja em causa se for atingida a linha vermelha das 245 camas de UCI ocupadas, a única que ainda não foi ultrapassada.

Não. As 245 camas são um indicador. Sabemos que 245 camas é muito menos do que já tivemos ocupado, não queremos chegar aí.

Quando tivemos 900 camas de UCI ocupadas, chegou a haver um total de 1400 camas de UCI a serem utilizadas mas isso só foi possível porque se interromperam cirurgias. Admite um confinamento como medida só num cenário desses ou num cenário intermédio em que fiquem em causa cirurgias e resposta aos outros doentes?

Não creio que isso seja sequer equacionável.

Pergunto-lhe no sentido de clarificar este debate das últimas semanas, em que o PR recusa um novo confinamento e o Governo parece deixá-lo em aberto. 

Penso que todos desejamos que tal cenário não aconteça, não se torne necessário. E que todos tudo faremos para que não estejamos sequer lá perto. Custou-nos tanto o estado de emergência, o fechamento das escolas, que aquilo que claramente dizemos é que não queremos lá chegar. Agora, num cenário de hipóteses, afastar qualquer solução não me parece possível... depois se calhar também é uma maneira de expressão.

Assume uma divergência com o PR nesta matéria?

Não. Cada declaração tem o seu contexto e mesmo uma pessoa relativamente inexperiente nestas lides sabe que às vezes o contexto em que falamos é interpretado de uma forma que não é exatamente a que queremos dar às palavras. A forma como vejo as declarações de todos os que se pronunciaram sobre essa matéria é que não queremos chegar lá nem perto.

Não houve só essa declaração do PR: já criticou discursos alarmistas e fundamentalistas e ainda esta semana lembrou que há vida para além da pandemia.

Mas estamos de acordo quanto a isso. Todos sabemos que há vida para além de cada uma das situações mais difíceis que sobre nós se abatem.

Não há então um afastamento de ideias sobre a pandemia, pelo menos da sua parte, entre Governo e Presidente da Republica?

Há uma perceção clara: não acredito que nenhum ator não considere que não estamos numa situação que tem muitas incertezas mas que hoje é melhor do que a que tínhamos antes das vacinas. Esta semana estive no Centro Hospitalar Vila Nova de Gaia/Espinho com o senhor primeiro-ministro. O presidente do conselho de administração lembrou que tínhamos lá estado em agosto e foi na altura que se autorizou a despesa para a compra das vacinas. Olhámos um para o outro com aquela sensação: ‘pois foi’. Foi há menos de um ano. Na altura, com uma esperança ainda muito distante, autorizou-se a despesa, vários milhões de euros. E as vacinas apareceram, foram mesmo avaliadas,  chegaram mesmo no dia. Sim, tivemos uma terceira vaga, temos agora a variante delta. Claro que haveria várias formas de lidar com o momento que estamos a passar. E já se começa a ver que países estão a ter atitudes diferentes. O Reino Unido está a ter uma atitude um bocadinho diferente.

Está também numa fase mais adiantada em termos de cobertura vacinal, tem o dobro da população vacinada, que é o ponto em que vamos estar em setembro.

Vamos estar antes. Temos hoje 36% da população com as doses completas da vacina.

No Reino Unido, dois terços dos adultos têm já a segunda dose e 86% a primeira dose, que segundo o que tem sido afirmado pela task-force é algo que teremos em setembro.

Sim, temos um mês, um mês e meio de atraso em relação ao Reino. Mas são sempre opções. Inglaterra toma esta decisão no seu contexto vacinal, vemos países como a Nova Zelândia ou Austrália que seguiram sempre abordagens mais restritivas.

As projeções europeias e da Universidade de Washington é que continue a verificar-se um aumento de infeções, com menor impacto nos internamentos e óbitos, mas a subir. Se isso acontecer,  teremos mais cada  vez mais concelhos em risco elevado e muito elevado. Se a incidência não baixar, qual é a perspetiva para o levantamento de restrições?

A primeira resposta continua a ser que esperamos que a vacinação contrarie esse efeito. Todos os dias estamos a fazer mais de 100 mil inoculações, é uma grande diferença, não estamos apenas à espera que os casos baixem. Há aqui um esforço muito forte.

Mas aí foi o ponto do Reino Unido: o país anuncia o levantamento das restrições com base na vacinação, mas à espera que os casos aumentem. O ministro da Saúde diz que o  vírus não vai ser eliminado e vão para a frente estando à espera de 100 mil casos diários, lidando com o número de internamentos e óbitos que isso implicar.

Nós não estamos a fazer isso.

Não se imagina a ter a postura do seu homólogo daqui a uns meses?

Não imagino. Também não sei se a postura do ministro inglês é exatamente essa, não li todas as declarações. Há aqui um patamar de sofrimento, de doença e de morte ao qual não nos podemos tornar indiferentes.

Mas sendo que as vacinas não previnem totalmente a transmissão, pode acontecer a incidência não baixar, pelo menos não tanto como no verão passado. Nesse cenário, as medidas poderiam ser aliviadas quando houvesse 70%, 85% da população vacinada?

É provável que não baixe para o nível do verão passado, a questão é com que gravidade aparecem os casos. São perguntas que exigem uma resposta que ainda não temos escrita. Não é uma questão de falta de planeamento, estamos a aprender à medida que os dados nos vão surgindo. Imagine que tínhamos uma incidência importante, ela não tinha repercussão nos internamentos, não tinha sequelas – e isso hoje ainda está a ser avaliado – isso torna o fenómeno muito mais aceitável.

Nesse sentido perguntava se em alguma momento admitia descartar-se a incidência e passar só a olhar para a vacinação e outros indicadores?

Só e apenas, não sei. Daquilo que conhecemos hoje do controlo da doença, seria muito arriscado. Enquanto estivermos a subir, será sempre difícil pensar em reaberturas. Mas tal como em relação ao confinamento, também em relação a esse tema não há hipóteses completamente fechadas. A vantagem que temos em relação ao Reino Unido é que podemos aprender com os erros ou êxitos deles. Vamos acompanhar de perto aquilo que possam ser os resultados da decisão do Reino Unido, que como sabe está a ser muito contestada pela comunidade científica e que à partida nos deixa bastante apreensivos. Mas o que é que nesta pandemia não nos deixa apreensivos? É um bocadinho ter a humildade de dizer que não há certezas absolutas e que há princípios que regem as nossas atuações. A proteção das pessoas desde logo. E proteger as pessoas não é só a vida, é garantir sanidade mental, meios de subsistência, contactos com quem se gosta, outras atividades. Churchill dizia que se não houver cultura, de que é que nos servirá estar vivos. É neste jogo de princípios e valores que temos de encontrar um caminho.

Para já esta estratégia de avaliações semanais e decisões por concelhos em função da incidência é para manter ao longo dos meses de verão?

Sim, para ganhar tempo para se vacinar.

Apesar de os cuidados intensivos não estarem em sobrecarga, tem havido críticas de que com mais de 40 mil infetados para seguir a atividade dos cuidados primários está mais uma vez a ser prejudicada. A recuperação da resposta aos outros doentes que tinha apontado para este ano pode ficar abalada por esta quarta vaga?

Sim. Estamos a ter três atividades concorrenciais: a atividade normal, a resposta à covid-19 e a vacinação. Não há dúvida nenhuma de que os sistemas de saúde, e não é só o nosso, continuam debaixo de uma pressão imensíssima. Agora, pelo menos da vacinação, já começamos a ver um fim à vista, podendo depois haver revacinações.

Mas tendo em conta que os casos continuam a subir, está prevista alguma medida adicional para mitigar um possível impacto na resposta nos outros doentes? Já disse que não podia afastar nenhum cenário, nomeadamente suspensões de férias.

A medida é a vacinação. O que esperamos é que as pessoas pela vacinação fiquem menos doentes, tenham menos necessidade de recorrer. Até aqui, apesar dos resultados não apagarem os 15 meses de pandemia, estão à vista. Terminámos 2020 com uma atividade assistencial inferior à do ano anterior e, se 2021 fechasse agora, os primeiros cinco meses do ano já eram superiores não só aos primeiros cinco meses de 2020 como em metade das linhas de produção já são superiores ao que foi feito nos primeiros cinco meses de 2019, que foi o ano com mais atividade de sempre no SNS.

Em que áreas há recuperação?

Nos cuidados primários, tanto consultas médicas, de enfermagem e de outros técnicos tiveram mais atividade nos primeiros cinco meses de 2021 do que nos anos de 2020 e 2019. Nos cuidados hospitalres, as linhas da consulta externa e cirurgia têm melhores números em maio de 2021 do que em maio de 2020 mas estão ainda um bocadinho abaixo de maio de 2019. Concretamente, fizeram-se menos 9 mil cirurgias do que em maio de 2019. Em comparação, perdemos na greve dos enfermeiros 9 mil cirurgias e portanto é uma coisa que se pode recuperar. É grave, mas é recuperável. Agora sabemos que a forma de trabalhar nos hospitais se alterou. Quando acabou a greve cirúrgica, os diretores dos hospitais diziam que podiam recuperar a atividade em força. Quando a primeira vaga terminou e se começou a recuperação, a atividade foi recuperada em força mas com uma logística maior por causa dos circuitos e das medidas de proteção. Ficámos mais lentos. Hoje as coisas estão mais rotinadas. Mesmo em relação aos doentes de covid, os médicos dizem que já os conseguem tratar com mais tranquilidade. 

Esta semana ouvimos a Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares questionar o que é feito de task-force não covid, que nunca se pronunciou ou apresentou resultados. Tem estado a trabalhar esta task-force ou não se concretizou?

Existe um grupo de trabalho para a recuperação da atividade assistencial em contexto não covid, formado pela ministra, pelo secretário de Estado Adjunto e da Saúde, pelo coordenador da resposta em medicina intensiva e os quatro coordenadores das principais áreas afetadas: doença pulmonar obstrutiva crónica, diabetes, doenças cerebro-vasculares e oncologia.

E o que lhe dizem? Um inquérito do Movimento Saúde Dia concluiu que mais dois terços dos médicos consideram que os doentes tiveram um forte impacto da pandemia e que os cuidados foram afetados.

Com certeza que houve um impacto grande. O que se esperava, que o SNS fosse o único serviço da sociedade num mundo paralelo? Não houve um impacto em todos os setores, nas escolas?

Mas que avaliação é feita? Há um levantamento das áreas mais afetadas?

Estamos focados em recuperar. Há áreas em que é mais fácil perceber o que ficou por fazer: listas de espera para cirurgia são listas de espera para cirurgia.

Mesmo aí o problema pode não estar totalmente representado: desde 2017 que a lista de espera não era tão baixa porque houve menos referenciações no ano passado. Onde estão estas pessoas?

Algumas já terão dado entrada no sistema. Não basta fazer o diagnóstico, é preciso ter soluções. E ter soluções é fazer atividade assistencial. E o que acho que francamente todos temos de fazer, administradores, médicos e enfermeiros, é tratar das pessoas. Os estudos são muito importantes, mas não resolvem o problema das pessoas.

Mas a task-force fez alguma proposta para alguma área?

Só me parece que valha a pena ter grupos, task-forces, quando existem para fazer coisas. Não temos um problema de diagnóstico das situações. O foco tem sido ‘muito bem: como estão os rastreios oncológicos da mama aqui, ali e acolá. O que falta para funcionar?’ O que temos feito é a discussão de detalhes, não é a discussão de estratégias. Tem sido um contacto com os diretores dos agrupamentos de centros de saude, com os coordenadores oncológicos nacionais, com coordenadores de rastreios, para se perceber o que falta, porque é que não está a funcionar, porque é que as pessoas não estão a aderir.

Dos relatos que chegam do terreno, o que a preocupa mais?

A situação dos doentes oncológicos, pela sua gravidade, e uma situação ainda não percebida completamente pela sociedade que é o impacto da pandemia na saúde mental. Se quisermos ser alarmistas, coisa que não cultivo, vamos ver muitos efeitos após a pandemia, também fruto do sedentarismo, do tabagismo, do consumo de álcool.

E sente o SNS preparado para responder a isso? No caso da saúde mental, há anos que se fala de um défice de psicólogos nos cuidados primários.

Sinto sobretudo o SNS com vontade de agarrar a oportunidade que tem em instrumentos como a lei do Orçamento de Estado de 2021, que já tinha um reforço na área da saúde mental, como o Plano de Recuperação e Resiliência para fazer essa luta. Sei que tinhamos um plano de saúde mental para cumprir há vários anos, mas quando se insere esta rubrica ou a aposta em cuidados continuaos e maior integração de cuidados não é inocente, sabemos que precisamos.

Como diz, são reforços previstos há anos. Continua a haver casos sociais internados nos hospitais por falta de resposta social e de cuidados continuados.

Se temos esses casos, temos de agilizar a resposta.

Mas o reforço dos cuidados continuados nas últimas legislaturas nunca tem chegado às metas que sao estabelecidas.

Estao agora estabelecidas de novo no PRR e estavam previstas inicialmente para 2012.

Tal como a meta de atribuir um médico de familia para todos os portugueses.

Há várias metas que têm sido dificeis de alcançar, mas isso não significa desistimos delas. E vamos enfrentado efeitos adversos. O pico de aposentações de médicos de Medicina Geral e Familiar estava previsto.

Era isso que ia perguntar: sabia-se que estes anos, 2021, 2022 e 2023 iam ser anos de picos de saída de médicos de família, mas ainda assim este Governo tal como o anterior iniciou funções prometendo o médico de família a todos os portugueses. Como?

Quando fazemos as projeções de médicos de família consideramos as pessoas que num determinado período vão adquirir a condição de se poderem reformar e as que adquirem a condição de se tornarem especialistas. Depois há vários fatores que podem fazer variar estas duas linhas: nem todos se aposentam e desde 2010 existe um regime especial para trabalho de aposentados, que agora foi maximizado. Depois nem todas as pessoas que atingem os graus de especialistas ficam no SNS.

Chegou a admitir, tal como o seu antecessor, pactos de permanência para que os médicos ficassem no SNS após a conclusão da especiaidade. Essa ideia caiu?

Neste momento o que nos parece mais sólido é a dedicação plena, que já está prevista na Lei de Bases de Saúde, e é o que estamos mais próximos de conseguir executar. Vários  setores a reclamam e haverá disponibilidade dos profissionais para aderirem a um regime destes.

Mas já existe uma proposta concreta para oferecer de novo exclusividade aos médicos no SNS?

Estamos num bom momento de trabalhar esses temas, na medida em que temos esse compromisso. Dissemos que este ano não era um bom momento para a implementar, porque tem de ser negociada.

Mas com duas levas anuais de novos médicos de família e perdendo especialistas que poderiam ficar com condições diferentes de trabalho, não lhe custa ver essas saídas?

Claro que custa, e por isso é que estamos a trabalhar a grande velocidade para ter um instrumento. Naturalmente não será nem aceite por todos nem para todos, nem é do interesse de uns nem de outros.

Será só para os médicos de familia?

É uma possibilidade face à circunstância que temos em cima da mesa com a dificuldade de conseguir uma equipa de saúde familiar para todos.

Mantém a meta de garantir médico de família a todos os portugueses?

Claro que sim.

Até ao final da legislatura?

Uma meta não quer dizer que seja até ao final da legislatura exequível. Não vejo que seja exequível a não ser com uma medida desse tipo, cujo efeito ainda não conhecemos.

A exclusividade a avançar seria no próximo Orçamento de Estado?

Sim, em 2022.

Se fosse aplicada nos concursos do próximo ano, chegaria para atingir a meta?

Ainda daria três concursos até ao final da legislatura, de onde decorre que a lógica não está mal, é preciso é trabalhar.

Portanto será uma proposta no próximo Orçamento do Estado?

Não disse isso. No ano passado já houve partidos que o reclamaram. O que assumimos foi que em 2021 não havia condições para essa discussão. Não havia ambiente. As mesas negociais para a última revisão da carreira médica foram centenas de horas. Era mais um concorrente a tudo o resto. E mesmo do ponto de vista de análise e de estudo é preciso ter alguma disponibilidade para analisar racionalmente das coisas.

No ano passado foi muito criticada pelo planeamento do outono/inverno. Este ano vai ser diferente? Já está a pensar no inverno?

Naturalmente. Para já, no ano passado tivemos um plano de outono/inverno que foi apresentado ainda no outono.

Já se estava no fim de setembro. O Observatório Português do Sistemas de Saúde ainda há pouco tempo voltou a considerar que em termos de planeamento, antecipação e envolvimento, o plano de inverno não existiu. Acha que é injusta a critica?

Não classifico críticas como justas ou injustas, classifico as críticas como oportunidades de aprendizagem e melhoria.

Este ano vai haver plano para o outono/inverno mais cedo?

Neste momento, já estamos a trabalhar nesse tema, aliás como já foi referido foi pedido o apoio de peritos à equipa da Dra. Raquel Duarte e do Prof. Óscar Felgueiras.  Agora a verdade é que não podemos antecipar muito, porque há uma série de aspectos que vão ser decisivos para o regresso à escola e para o inverno e que dependem de fatores que não conhecemos integralmente.

Esta semana o coordenador da comissão de vacinação adiantou que o parecer sobre vacinação de crianças vai estar pronto antes do arranque do ano letivo. Não é um pouco em cima do acontecimento?

Daqui até lá são dois meses e não vai ser na véspera. Que eu saiba, há um país que já decidiu que vai vacinar crianças a partir dos 12, que é a Alemanha, e os outros estão a analisar. Esperamos na última semana de agosto poder abrir a vacinação abaixo de 18 anos. Temos é de perceber como avançamos.

O setor privado e social vão ser envolvidos no planeamento do inverno?

Vamos entrar em breve na negociação dos contratos-programas com os hospitais para 2022 e avaliar este ano. Há hospitais que se propõem a fazer mais, o que se pode traduzir numa resposta ao que ficou por fazer, mas a nossa articulação com outros setores, além de já existir no SIGIC, vai continuar a existir, enviando antecipadamente e preventivamente  doentes não covid para outros setores. Aliás nenhuma dessas respostas foi descontinuada, agora têm é pouca utilização.

Recusou esta semana no Parlamento a acusação do PSD de descalabro nas contas do SNS perante o aumento nos pagamentos em atraso e do défice do SNS.

Temos de ter cuidado com as palavras. Num ano em que olhamos para outras notícias sobre como fecharam as contas de outros setores privados, que vemos que os custos com equipamentos de proteção individual aumentaram, em que estamos a fazer tudo por tudo para aumentar as respostas... O que esperam, que digamos aos profissionais de saúde que vão trabalhar mais e nao lhes paguemos nada?

Mas sendo cronicamente tensa a relação ente Saúde e Finanças, espera um reforço do orçamento no próximo ano?

No meu caso não tem sido nada. Há algum ministro que não tenha essa expectativa?

Sim, mas a ideia que existe é que se para a covid-19 se facilitaram verbas e até contratações, noutras questões mais do dia a dia continua a haver constrangimentos. Além de reforço orçamental, espera conseguir mais autonomia nos hospitais?

Acho que há coisas deste período pandémico que não vão voltar atrás e algumas são positivas. Se o SNS, apesar da pressão, respondeu bem como respondeu, foi porque teve autonomia em muitas coisas que habitualmente não tem. E portanto essas lições não se vão esquecer. Nem os hospitais as esquecem nem as equipas de gestão vão aceitar velhas formas de trabalhar. Introduzimos formas de controlo orçamental por força da crise económica. Se calhar é uma ironia do destino dizer que uma outra crise, de uma outra natureza, vai ter um efeito de alterar a forma como trabalhamos. Mas eu também não advogo bar aberto para nenhum setor. O orçamento de qualquer setor é em função da riqueza produzida no país. Evidentemente que tudo são escolhas. A Cultura com o orçamento da Saúde faria certamente muitas coisas interessantes.

Mas tem algum patamar onde gostava de colocar o orçamento da Saúde?

É uma discussão que vamos ter nas próximas nas semanas.

O que costumam dizem as comparações internacionais é que o SNS consegue fazer mais com relativamente pouco investimento, mas isso é feito à custa de carolice, sacrífico, tempos de espera e no limite nos meios disponíveis nos diferentes locais, até na Direção Geral da Saúde. O que pergunto é se tem uma ambição maior?

Tenho, mas não vou contar. São questões discutidas entre colegas antes de serem públicas.

Conhecia os corredores da saúde há muitos anos. A sua perspetiva mudou desde que chegou ao Governo e nos últimos meses? Descobriu que virtudes e vícios?

Sim, a perspetiva daqui é diferente. Há mais virtudes e há mais defeitos também. Acho que é importante que o SNS tenha mais espírito de trabalho em rede. E isso não só sistemas de informação nem é só dinheiro, é uma questão de perceção.

Viu-se em Lisboa uma certa guerrinha entre hospitais da periferia e centrais.

E é inconcebível.

Mas foi o que aconteceu.

É inconcebível. Qualquer gestor do SNS não é gestor de uma unidade, é membro de um grupo. É gestor de uma entidade que pertence a um grupo. Da mesma forma que um ministro não é ministro de uma pasta, é ministro de um Governo. Perceber que nem todas as instituições têm essa visão incorporada é uma coisa que me doeu um bocadinho. Coisas que me alegraram muito: perceber que as pessoas têm uma capacidade até de nos dar uma palavra de alento quando as coisas não estão fáceis. Mesmo sem ser em contexto covid-19, temos presidentes de conselhos de administração, médicos, que se for preciso fazem bancos. Que correm riscos financeiros e de multas de Tribunal de Contas diários.

Pelos orçamentos que não tapam as pernas até ao fim.

Mas as pessoas assumem esse risco. Vê-se muita coisa de forma diferente num ministério e vê-se a ligação com outros setores.

Já esteve em alta e em baixa na popularidade. Está surpreendida consigo própria, com a sua resistência, pessoal e política?

Não tenho muito tempo para pensar nisso, para ser mesmo franca. É evidente que dão mais alegria as avaliações positivas.

Mas sente que mudou com a pandemia? Esta semana no Parlamento houve um bate boca depois do deputado Jorge Gomes fazer um elogio ao SNS, onde foi tratado, com o PSD a pedir humildade. Reagiu de uma forma conciliadora, que nem sempre tem sido o seu registo.

Sim, se me pergunta se mudei, mudei. Não tem a ver com ser um registo diferente ou não, a vida atua sobre todos. Estas dificuldades tornaram-me mais tolerante. Quando me passo, passo, mas estou mais tolerante.

No passado teve momentos mais irascíveis. Pode ser uma mudança positiva para a governação?

Acho que sim. A pressão a que qualquer membro do Governo está sujeita é brutal, numa pandemia admito que seja pior. Estamos preocupados em entregar resultados e o nosso primeiro-ministro é muito focado nos resultados… Eu não era política como sabe, não tinha qualquer experiencia e todos os membros do Governo trabalham muitíssimo com a preocupação de honrar os compromissos. Não é só com a preocupação ‘isto não está a correr bem’, é mesmo pesado quando não se consegue. E portanto esse é o foco. E de vez em quando por causa disso ficamos cansados, stressados e rebentamos. Mas em relação à necessidade de envolver os outros, sim. Esta pandemia mostrou a necessidade da interdependência e quando percebemos as raízes disso ficamos melhorar preparados para dialogar com os outros. Tive experiências maravilhosas de disponibilidade de setores privados, sociais, de pessoas que nos ajudaram a fazer mais bancos, a abrir mais camas. Tudo isso influencia.

Ficou com uma ideia mais simpática do setor privado da saúde?

O setor privado e o setor social foram essenciais para a resposta à pandemia. São essenciais.

Já foi várias vezes a noticiada a sua intenção de sair do Governo.

Isso não é verdade. Com toda a transparência.

Que está farta, cansada.

Mas quem é que não está cansado?

Portanto não pediu para sair nem vai usar uma formulação mais suave como a de Augusto Santos Silva, que espera que o PS a deixe voltar para o instituo ou para outro sítio...

Da mesma forma que quando o senhor primeiro ministro entendeu num determinado momento que eu era útil, quando entender que não sou útil irei à minha vida. Neste momento estamos no meio de uma pandemia, há um PRR para executar! Agora cansada, ninguém estará à espera que eu diga que não estou cansada. Daí até dizer que não estou cá para continuar enquanto o país e o primeiro-ministro precisar, não.

Descobriu o bichinho da política?

A política é  a possibilidade de fazer diferença na vida das pessoas. Às vezes queixamo-nos das coisas, que não estão bem, se queremos que não seja assim temos de tomar posição. Estar na política é uma forma de tomar posição.

E tem isso mais vincado hoje do que quando tomou posse, essa vocação?

Talvez, mas não sei se é uma vocação, a minha vida já deu tantas voltas.

Para relaxar já ouve outra música além da Internacional?

Já disse e é mesmo verdade: tenho muito menos tempo para ouvir música do que antigamente. O Spotify foi-me instalado pelo Sr. Filinto e felizmente pôs-me coisas bastante tranquilas como jazz, Sting e ando nessa onda. Estou com imensas saudades de ir a concertos, festivais de teatro.

Agora já pode ir com certificado.

Não tenho tempo.

Continua a haver críticas à comunicação na pandemia. Reconhece que há problemas?

Temos feito o melhor em cada momento. Houve um momento em que tentámos comunicar quotidianamente, houve momentos em que tentámos espaçar para não cansar as pessoas.

Mas agora nesta fase, por exemplo, a diretora-geral da Saúde não fala publicamente há três semanas.

Como há pouco disse, a DGS não é só a diretora-geral, e o dr. Valter Fonseca esta semana deu uma entrevista. Às vezes as pessoas tentam que os outros não se saturem delas. Mas sim, tomámos boa nota dessas críticas e estamos a tentar corrigir. Nós ouvimos.