À Esquerda e à Direita

Racismo à moda do Estado

Mamadou Ba conseguiu um emprego – no Estado – à conta de se dizer antirracista, apesar de estar sempre a apelar à violência. Não nos esqueçamos do que disse sobre o homem branco, apesar depois ter vindo com a história metafórica. Mas não é por isso que acho que deva perder a nacionalidade portuguesa ou por sofrer ataques de quem quer que seja.


Não há muito a fazer. As pessoas reagem com as garras bem afiadas a qualquer coisa que não gostem ou com a qual não concordem. Procurar saber o que os outros pensam ou desejam é quase uma aberração. Vamos a casos concretos. Quando aqui no Nascer do SOL ou no jornal i fizemos entrevistas a figuras como André Ventura, para saber o que pensam e pretendem implementar se algum dia tiverem poder, caiu o Carmo e a Trindade. Muitos comentários negativos nos chegaram e muitos outros foram colocados nas redes sociais, muitos dos quais de jornalistas. Que estávamos a dar voz a um fascista (!), que era indecente e que merecíamos arder no inferno.

Que algumas pessoas pensem isso, ainda percebo, agora jornalistas? Não querem estes saber o que pensam as pessoas que estão na política? Não têm os leitores direito a conhecerem os atores políticos? Sempre achei isso uma parvoíce até porque aprendi a ouvir os outros e a perceber que não há nada melhor do que saber o que os outros pensam. Para votar neles ou não.

Ontem foi o contrário. Ainda mal tinha acordado e já tinha várias mensagens de pessoas a protestarem contra a entrevista de Mamadou Ba ao i. «Como é possível darem destaque ao maior racista que vive em Portugal», questionavam-me. Acho extraordinário que ninguém tenha dito: «Ainda bem que o entrevistaram para sabermos, ainda melhor, o que tal figura é».  E estou perfeitamente à vontade pois já escrevi várias vezes que acho Mamadou Ba um dos maiores racistas da nossa praça – Ventura ao pé dele é um verdadeiro menino. Mas não querem as pessoas saber o que deseja e quem é um membro da associação SOS Racismo e que foi contratado várias vezes pelo Governo? Eu quero, e agradeço a entrevista que deu ao i deste fim de semana, onde faz declarações tão simples como esta: «O Estado português é o garante do monopólio da violência através da Polícia».

Alguém fica com dúvidas depois de uma afirmação destas? Mamadou diz que não vive em Portugal por razões pessoais, mas que nada tem a ver com as muitas ameaças de morte que recebe. André Ventura também recebe muitas ameaças de morte e vive por cá...

Como é sobejamente conhecido por quem me lê e por quem me conhece, abomino o racismo e a violência. São duas das coisas que mais me incomodam e gosto de estar bem longe das duas. Mas Mamadou Ba conseguiu um emprego – no Estado – à conta de se dizer antirracista, apesar de estar sempre a apelar à violência. Não nos esqueçamos do que disse sobre o homem branco, apesar depois ter vindo com a história metafórica. Mas não é por isso que acho que deva perder a nacionalidade portuguesa ou por sofrer ataques de quem quer que seja. Os democratas devem olhar para os racistas com desprezo e procurar evitar que os mesmos difundam a sua doutrina sem terem o contraditório. Por isso, acho que as entrevistas como a do i servem precisamente para se dizer ao mundo o que não devemos ser.

O ódio que está dentro de Mamadou – que calculo que não desapareça enquanto todos os brancos não andarem com uma cruz às costas pelo seu passado colonialista, como se em África não tivesse havido escravatura antes da chegada do homem branco – é algo que devemos abominar. Já agora, em Angola e Moçambique, para não falar na Guiné Bissau, quantos anos de guerra existiram depois do colonialista sair de lá? Quantos ‘irmãos’ não foram escravizados e assassinados em casa? Personagens como Mamadou querem reacender ódios passados, mas há sempre a esperança que o povo veja o que se passa quando Marcelo, por exemplo, vai à Guiné ou a Angola, onde o povo genuinamente mostra como estamos unidos pelo passado. A língua comum, onde existe, é uma mais valia que nenhum político ou racista de serviço vai exterminar. E vejam a riqueza da mistura de milhares de famílias de um lado e de outro do Atlântico e do Índico, já agora. O cruzamento de culturas é fantástico, mas como sabemos não agrada aos Mamadou da vida.

vitor.rainho@sol.pt