Carmen Posadas. “Durante a pandemia, as pessoas descobriram o maravilhoso mundo dos livros”

Na 40.ª obra literária que publica, a escritora Carmen Posadas narra a história da «pérola mais famosa de sempre; uma jóia lendária que sobreviveu a guerras, revoluções, traições, incêndios, vinganças e também a muitos amores dos quais foi observadora silenciosa»

A os 67 anos, depois de uma vida dedicada à escrita, Carmen Posadas, que já havia publicado 39 obras, decidiu narrar o percurso da pérola mais famosa do mundo. Admitindo que, ainda hoje, se sente insegura das suas capacidades, mas continua a lutar – até porque considera que as mulheres têm de lutar o dobro que os homens para chegarem ao topo – por um lugar na literatura, lança A Lenda de La Peregrina depois de se tornar conhecida do grande público com obras como Pequenas Infâmias, A Filha de Cayetana ou A Mestre das Marionetas.  

Nasceu em Montevidéu, no Uruguai, mas viveu em Inglaterra, na Argentina, na Rússia e, posteriormente, mudou-se para Espanha. Como é que foi a sua infância?

Vivi no Uruguai até aos 12 anos e tive uma infância muito feliz. A minha mãe teve uma infância muito triste e fez questão de que eu e os meus irmãos tivéssemos uma completamente diferente. Era uma menina que não queria crescer porque adorava ser criança. Penso que uma das razões pelas quais escrevo é o facto de procurar a infância que tive. Foi maravilhosa e, de alguma forma, sinto sempre a sua falta. 

O facto de o seu pai ter sido diplomata teve influência no seu desejo de conhecer o mundo e dá-lo a conhecer por meio da literatura? Por exemplo, um dos seus irmãos também é escritor.

O meu pai era um grande leitor, tinha essa paixão antiga, e, como era um pai muito próximo dos filhos, comunicava connosco através da leitura de pequenas histórias e, depois, incentivou-nos a ler. Lembro-me de quando ele narrava A Ilíada, de Homero, e parecia que viajávamos até Ítaca. Por ter vivido em países tão distintos, comecei a nutrir uma curiosidade enorme pelo mundo que me rodeia. Tinha sempre novos amigos, novas situações e novas escolas. Acredito que existem dois tipos de filhos de diplomatas: aqueles que odeiam as mudanças que ocorrem constantemente nas suas vidas e aqueles que as adoram. 

Qual foi o primeiro livro que leu sozinha?

O Ivanhoe, de Walter Scott. Tinha oito ou nove anos e senti-me muito orgulhosa de o ter terminado sem qualquer auxílio. Recordo-me que não tinha quaisquer ilustrações ao contrário das restantes obras dele.

Numa entrevista à XL Semanal, revista para a qual escreve, explicou que gosta de todos os géneros literários excetuando a ficção científica e a poesia. Porquê?

Também disse que há livros que adoramos, outros que odiamos e aqueles que nos dececionam. Aprecio algumas obras desses géneros, mas não são os meus prediletos.

Nessa conversa, explicou que a Bíblia é o livro que levaria para uma ilha deserta não só por motivos religiosos, mas também porque é uma ‘biblioteca’.

Sim, porque tem um bocadinho de tudo: sátira, contos eróticos, poesia, crónicas, mistério…

 

E se tivesse oportunidade de levar outros?

Em primeiro lugar, pegaria n’A Metamorfose, de Franz Kafka, porque li-o com 18 anos e percebi que o mundo é definitivamente kafkiano! Depois, O Vermelho e o Negro, de Stendhal, porque foi um dos poucos livros nos quais não consegui parar de pensar. Também não poderia excluir o Orgulho e Preconceito de Jane Austen: lia-o, fazia relatórios, aprendia… Ela foi a escritora que quero ser. Por outro lado, O Monte dos Vendavais, de Emily Brontë, certamente seria problemático se fosse publicado hoje. Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, está à altura de Cervantes e Shakespeare! Os meus livros preferidos destes são Dom Quixote e Macbeth. E o Guerra e Paz, de Lev Tolstói, apesar de sentir que, por mim, poderia saltar-se a parte da guerra. 

A paixão pela escrita parece correr na família. O seu irmão Gervasio seguiu as suas pisadas.

É quase como um veneno, num bom sentido!

Abandonou os estudos universitários para casar. Arrepende-se?

Não se pode dizer que estive na universidade porque estudei História apenas durante mês e meio. Casei-me com 19 anos: as pessoas, normalmente, estudam, trabalham e depois casam. Eu casei e trabalhei depois! Gostaria de ter uma educação mais formal, digamos assim, mas a vida deu-me uma grande bagagem. Sinto que aprendi tudo de uma forma muito desorganizada e pouco sistemática. 

Teve duas filhas. Em que é que a sua vida mudou quando decidiu ser mãe?

Tive a minha primeira filha com 21 anos e a outra quase de seguida. Quando estavam na creche, pensei «O que é que quero fazer com a minha vida?». Entendi que precisava de ter uma profissão, como secretária, mas parecia-me aborrecido. Então, encontrei um curso de Escrita Criativa – com duração de aproximadamente dois anos – lecionado por um escritor e comecei a tirá-lo. Escrevi o meu primeiro livro para crianças, por parecer mais fácil, porque era extremamente insegura. No decorrer desse tempo, aprendi que temos de levar a literatura a sério, mas há uma parte lúdica, e, por outro lado, comecei a ler como uma escritora: é completamente distinto de ler como leitor. Um leitor quer passar um bom bocado, mas um escritor repara na construção das personagens, no comportamento das mesmas, na estrutura frásica, na gramática… E foi por ter aprendido tanto que decidi dar um curso de escrita, juntamente com o meu irmão, via online. Os escritores são como os cozinheiros: nunca te ensinam a receita completa e guardam os seus segredos. Decidimos fazer o oposto: contar a receita completa. Não a nossa, mas sim a de escritores como Charles Dickens ou Fernando Pessoa. Até hoje, mais de 6000 estudantes passaram por nós e muitos deles publicaram livros, escreveram guiões para cinema e televisão… É recompensador. 

Em 1988, apresentou o programa Entre lineas, na RTVE. Ser jornalista a tempo inteiro alguma vez se afigurou como um sonho ou essa opção nunca esteve em cima da mesa?

Gostei muito, mas, a não ser que dirijas o teu próprio programa, acabas por ser um busto falante. Foi interessante conhecer muitos autores, mas não me identificava com aquilo que tinha de fazer. Nunca vi o jornalismo como carreira.

O jornalismo trata bem as temáticas culturais?

Infelizmente, não presta atenção à cultura e dá a entender que a mesma passa por áreas completamente diferentes como a do desporto ou a da culinária. Não percebo o motivo. 

O que se pode fazer para que este panorama se modifique?

Quando as pessoas se interessam pela cultura, os meios de comunicação fazem o mesmo. Há um fenómeno que estranho muito: há pessoas que nunca leram um livro na vida e publicam as suas próprias obras. Apresentadores, atores, chefes de cozinha…

Têm ghostwriters.

Exatamente. 

Também escreveu sob pseudónimo. Porque é que decidiu não assinar com o seu nome?

Tinha mais ou menos 40 anos e ainda só tinha escrito literatura infantil. A minha editora perguntou-me se estaria disposta a escrever uma novela cor de rosa, de chick lit, e, a brincar com ela, disse que arruinaria a minha reputação! Contudo, gostei muito da experiência. 

Em 1998, ganhou o prémio Planeta com Pequeñas Infamia. Como é que se sentiu ao ser reconhecida?

Foi um grande marco na minha carreira. Nessa época, estava casada com um senhor que tinha uma posição muito importante, o Mariano Rubio, governador do Banco de Espanha, e olhavam-me um pouco por cima do ombro porque era mais velho e poderoso do que eu. Como se eu pintasse quadros e escrevesse romances e ele trabalhasse. A forma como as pessoas me encaravam mudou a partir daí.

É verdade que escreveu El síndrome de Rebeca: guía para conjurar fantasmas, há mais de 20 anos, inspirando-se no relacionamento que teve com o seu marido?

O meu primeiro marido, Rafael de Cueto, era bonito, gostava das minhas amigas, enquanto o Mariano era tranquilo e compreensivo. A verdade é que, e creio que disse isto numa entrevista antiga, aquilo que me levou a ficar apaixonada por um homem 20 anos mais velho foi o facto de o admirar muito. Então, em 1998, publiquei este ensaio, baseando-me no filme ‘Rebecca’ de Hitchcock e, a partir daí, começou a usar-se muito o termo ‘Síndrome de Rebeca’ em Espanha, ou seja, diz respeito a uma espécie de ciúme retrospetivo em que um parceiro tem ciúmes doentios de um antigo namorado do outro. Não suporta o passado amoroso do mesmo e tal influencia muito o seu comportamento.

Para escrever o ensaio, colocou um anúncio num jornal.

Sim. Não se usava a Internet e comecei a receber centenas de chamadas. Escolhi os 30 casos mais significativos. À época, recorri a um provérbio japonês de que o meu marido gostou muito: «O amor é como a porcelana. Se a deixares cair ao chão, talvez possa ser recomposta, mas nunca mais poderá guardar perfume no seu interior».

Quais foram os casos que a chocaram mais?

Quando procuramos um/(a) companheiro/(a), repetimos os mesmos padrões ou optamos pela antítese. Por exemplo, eu fiz o segundo, mas há quem não consiga parar de pensar nos namorados anteriores. Uma amiga minha colocava o pijama do ex-marido em cima da cama todas as noites e um homem perguntou à ex-mulher onde é que tinha comprado o vestido de noiva para que a nova esposa subisse ao altar vestida do mesmo modo. 

Depois de ter publicado 39 livros, como é que decidiu contar a história daquela que é designada como «a pérola mais famosa do mundo»? Já tinha conhecimento do percurso invulgar da mesma?

Tudo começou com uma jóia de família esquecida e reaparecida após a morte da minha mãe, um anel com uma grande pedra azul. Ela havia herdado a jóia, em forma de pingente, da minha avó e esta já a tinha recebido da sua própria mãe, isto é, a minha bisavó. E aqui está, quatro ou cinco gerações depois, diferente em cada uma das suas reencarnações, mas eternamente jovem depois de ser um testemunho de tantas vidas e paixões, de tantos sonhos realizados ou orações não atendidas. 

Como é que associou as duas histórias?

Basicamente, andava a pesquisar, na Internet, informação para um dos artigos que escrevo para a revista XL Semanal e, como redigi no livro, deparei com um quadro que conhecia mas que nunca me tinha chamado particularmente a atenção. Era um que Antonio Moro havia pintado de Maria Tudor. Esta mulher foi rainha de Inglaterra e segunda mulher de Filipe II e é recordada como A Sanguinária. Percebi que, no quadro, exibia uma pérola esplêndida e solitária. Perguntei-me se seria a famosa La Peregrina porque sabia que Filipe II lha havia oferecido. Como é que havia ido de Espanha até Hollywood? Costumo dizer que se os objetos falassem, contar-nos-iam os seus segredos mais indizíveis, mas também os mais alegres e engraçados! Ou seja, não consigo que falem, mas acho que a La Peregrina fala por si através de pinturas de grandes mestres que a eternizaram como Antonio Moro, Pantoja de la Cruz, Van der Hamen, Rubens ou Velázquez. Até a condessa D’Aulnoy a descreveu como «Extraordinária e tão estúpida quanto uma pequena especialista». Também o duque de Saint-Simon, que a admirava na época de Filipe V e a menciona nas suas memórias. Após a morte de Maria I de Inglaterra, em 1558, foi entregue aos cuidados da monarquia espanhola. 

A pérola foi encontrada por um escravo africano, na costa da ilha de Santa Margarida, no Golfo do panamá, em meados do século XVI.

Muitas pessoas afirmam que a descoberta data de 1513. A jóia foi dada a Dom Pedro de Temez e o escravo foi recompensado com a liberdade. 

Foi valorizada desde os primeiros momentos ou foi ganhando o valor atual por ter sido tão estimada progressivamente?

Após a Guerra da Independência Espanhola, começou aquela que é vista como a segunda vida de La Peregrina. Já em 1808, o irmão mais velho de Napoleão Bonaparte, Joseph Bonaparte, tornou-se rei de Espanha, e quando após cinco anos foi forçado a abandonar o Reino levou consigo a pérola. Entregou-a mais tarte ao seu sobrinho Louis-Napoleão, mas a pérola foi vendida a James Hamilton e ficou na família até 1969, até que foi colocada em leilão na Sotheby’s. Foi aqui que tiveram início as «andanças pelo mundo» de que falo no livro. São 500 anos de História que está muito bem documentada.

Durante quanto tempo investigou o percurso de La Peregrina para conseguir transmiti-lo no livro? Quantos livros leu?

Não consigo dizer um número certo porque foram muitos! Houve alguns que pareceram não ter grande utilidade na altura, mas, por exemplo, se um não me dava informação acerca da vida de Filipe II, levava a que entendesse como é que as pessoas falavam naquela época, aquilo que comiam, como era o interior das suas casas…

O romance conta com vários narradores, de acordo com cada período.

São narradores tangenciais. Na época de Filipe II escolhi um vendedor de sanguessugas porque apercebi-me de que a Medicina era uma desgraça. Por isso é que o monarca perdeu todos os filhos e enviuvou várias vezes. No caso de Filipe III, a narradora é freira, pois a religião tinha um peso muito grande. Já com Filipe IV, é Nicolasito Pertusato, é ele quem vende no canto do Las Meninas de Velázquez. 

O ator norte-americano Richard Burton ofereceu a pérola como presente de amor, em Dia de Namorados, à atriz Elizabeth Taylor.

Sim. Em dezembro de 2011, a pérola, integrada num colar de diamantes Cartier, foi vendida como parte integrante das jóias de Elizabeth Taylor em leilão na Christie’s, em Nova Iorque. Assim, a La Peregrina foi vendida em Nova Iorque por 11,8 milhões de dólares. 

A atriz quis escrever sobre a pérola. O que é que a demoveu?

A questão é que muitos atores de Hollywood queriam continuar a ser protagonistas mesmo quando as suas carreiras terminavam. Por exemplo, Jane Fonda quis fazer ginástica e Charlton Heston contava histórias da Bíblia. A Liz Taylor quis escrever as histórias das suas jóias, mas entendeu que, enquanto umas tinham muito para contar, outras não tinham História. Por isso, desistiu do projeto. 

Mas deu um lamiré daquilo que sentia pela jóia na autobiografia.

Sim, na My Love Affair with Jewelry, de 2002. «Foi durante as filmagens de um filme em Las Vegas. Quando o Richard não estava a trabalhar, ficava sempre com um humor negro e irascível. Acabara de me oferecer La Peregrina, e Ward Landrigan, da leiloeira, tinha-a enviado de Nova Iorque. Pendia de um colar finíssimo em forma de corrente de platina rematada por umas pérolas minúsculas, e encantava-me senti-la pendurada ao meu pescoço. A pérola era tão tátil que não conseguia parar de a acariciar». É desta forma que ela começou o relato. «A história desta pérola é muito invulgar. Quando adquirimos La Peregrina, entregaram-nos um pequeno folheto com a sua história e árvore genealógica, bem como uma lista de pessoas que a tinham possuído. Era simplesmente inacreditável». 

E, no fim, narrou um episódio muito peculiar em que temeu pela «sobrevivência da pérola».

Precisamente. «Estava na hora de comerem, e os cachorrinhos devoravam com felicidade a comida das suas taças. Enquanto estava a olhar para eles, a dizer ‘Olá, meus bebés queridos’, de repente, apercebi-me de que um deles estava a mastigar um osso. Demorei uma eternidade a perceber. ‘Espera lá’, pensei, ‘nós não damos ossos aos nossos cães, e muito menos quando são pequenos! O que está ele a mastigar?’» e foi aí que compreendeu que na boca de um dos cachorrinhos «estava a pérola mais perfeita do mundo. E graças a Deus não tinha ficado arranhada».

No livro, explica que, apesar de se ter esforçado, não conseguiu descobrir aquilo que tinha acontecido à pérola.

Os compradores podem permanecer no anonimato e, por isso, não descobri aquele que comprou a jóia. Na nota da autora, no final do livro, escrevi que «esteja onde estiver, La Peregrina dormita, porque é sábia e sabe melhor do que ninguém que tudo passa. Como passaram as guerras a que sobreviveu, as revoluções, as traições, os incêndios, as vinganças e também os muitos amores dos quais foi observadora silenciosa».

E acrescenta que se divertiu a fazê-la falar.

Sim, porque me senti uma testemunha muda não só de fragmentos da História, mas também daquela que descrevo como «assombrosa, fascinante e sempre imprevisível natureza humana». 

Não esconde que, apesar de saber que o atual proprietário é de um país árabe, poderia ter inventado a identidade do proprietário da jóia com a «carta de corso» que a literatura lhe outorga.

Sim, porque como esclareci, a tentação era grande! Imagino que possa ter sido oferecida à xequesa do Catar, comprada por Mohammed Bin Rashid, emir do Dubai, ou por Mohammed Bin Salman, príncipe herdeiro saudita, que se relaciona, na Arábia Saudita, com a morte de Jamal Kashoggi. Qualquer uma destas pessoas pode ter na sua coleção a pérola mais famosa do mundo apesar de não a exibir.

Estranha essa realidade? Qual é o atrativo de ter um objeto que vale quase doze milhões de dólares se não o mostrarmos a ninguém? Faço esta mesma pergunta no final d’A Lenda de La Peregrina. «Das minhas obras de arte, apenas eu desfruto e as ratazanas do palácio» é uma frase que Catarina, a Grande, gostava de dizer, por isso, citando-me mais uma vez, talvez o proprietário desta jóia seja alguém tão antipático como ela!

Que feedback tem recebido? Parece-me que o livro agrada tanto a leitores intelectuais como ‘populares’, digamos assim.

A cultura tem vindo a ser negligenciada desde o início da pandemia de covid-19.

A pandemia foi muito dura para artistas de outras vertentes como atores. No entanto, acho que os escritores foram afortunados nesse sentido porque tiveram oportunidade de ler e escrever mais do que nunca. Por outro lado, alcançámos mais pessoas porque muitas não liam mas, depois de estarem fechadas em casa e somente verem televisão ou estarem ao telemóvel, descobriram o maravilhoso mundo dos livros. Não é comparável com mais nenhum. Espero que ninguém se esqueça desta ‘descoberta’.

Já ganhou inúmeros prémios ao longo da sua carreira. Acredita que o seu trabalho é devidamente reconhecido ou o reconhecimento que mais importa é o dos leitores?

O reconhecimento que tenho é-me suficiente, mas a verdade é que gosto de ser reconhecida porque sempre quis romper com o cliché que é associado às escritoras. As mulheres têm de esforçar duplamente, em relação aos homens, para chegarem longe.

Como é que tem vivido a pandemia? Muitos artistas relatam que não se sentem inspirados para continuar a produzir, enquanto outros produziram mais do que nunca. 

Há quem se sinta ‘paralisado’ e não consiga escrever uma única linha, porém, a pandemia não me afetou porque, em primeiro lugar, não perdi ninguém próximo e, em segundo lugar, não estava a escrever sobre o presente. Nesse caso, o cataclismo que vivemos teria tido um impacto muito forte. Curiosamente, publiquei A Lenda de La Peregrina, em novembro, e achei que não seria recebido com o entusiasmo habitual. No entanto, foi muitíssimo bem recebido pela crítica e já fiz muitas apresentações virtuais. Estive nos EUA, na Argentina e na Colômbia sem sair de casa! A pandemia trouxe-nos tantos desastres mas, pelo menos, estamos mais próximos por meio das novas tecnologias. E devo confessar que estava muito atrasada na escrita do texto e o confinamento permitiu que o terminasse antes da data prevista!

Tem assumido algumas posições polémicas, nomeadamente, acerca do feminismo.

Já disse isto noutras entrevistas e repito: aquelas que mais sofrem com os desastres da defesa extrema das mulheres são as próprias mulheres. Quando a defesa é bizarra e ridícula, automaticamente os homens pensam que as mulheres são todas loucas. A Universidade de Granada até propôs mudar os nomes dos meses: janeiro seria janeira, fevereiro transformar-se-ia em fevereira, etc. Mas o que é que vamos resolver com isso? Devíamos estar mais preocupados com temas como a disparidade salarial. 

Como encara a situação política espanhola?

Honestamente, com surpresa. É como um circo: vemos anões, trapezistas, elefantes, tigres e não sabemos para que lado devemos olhar. É inacreditável!

Tem um método de trabalho estipulado?

Sento-me cadeira em frente ao computador por volta das oito da manhã e, aconteça o que acontecer, só me levanto pela hora do almoço. Às vezes, consigo escrever uma ou duas páginas seguidas e fico maravilhada. Noutros dias, quando pareço ter bloqueios criativos, dedico-me à escrita dos meus artigos da revista XL Semanal ou à revisão de outras coisas em que estou a trabalhar.

Já está a escrever o próximo livro?

Se sim, pode adiantar algo sobre o mesmo? Não gosto de falar de livros que ainda não existem. 

O que quer para o futuro?

Tenho a sorte de me dedicar a algo que posso fazer até ao fim da minha vida. Isso tranquiliza-me. Se fosse desportista, a minha carreira teria terminado aos 40 anos.