Entrevista a Ema Paulino, presidente da ANF

"Os farmacêuticos podem ajudar se for necessária a vacinação de reforço"

Para a responsável da Associação Nacional de Farmácias (ANF), os centros de vacinação, ‘tal como estão organizados, são estruturas que não são sustentáveis no tempo’. Ema Paulino acredita que será necessário ‘atempadamente preparar a possibilidade de as farmácias entrarem na rede’.


Que balanço faz destes primeiros meses à frente da ANF?

Neste momento, estamos a trabalhar em dois níveis: um deles está relacionado com a necessidade de rever todos os dossiês que são importantes do ponto de vista interno, em termos de organização do próprio grupo ANF, de acordo com aquelas que tinham sido as nossas linhas programáticas – nomeadamente as que se referem aos primeiros cem dias de mandato – e que estão relacionadas com uma proposta de alteração estatutária e de reorganização dos próprios serviços do grupo ANF com vista à necessidade de promover a ‘separação’ entre a área associativa e a área empresarial. Como tínhamos dito durante o período eleitoral, a nossa intenção não era ocupar cargos, por exemplo, nos órgãos de administração das empresas e, portanto, estamos a rever todo esse processo e a identificar pessoas para ocuparem esses cargos. Por outro lado, também fomos confrontados com solicitações de envolvimento das farmácias por parte do Governo, nomeadamente em relação à questão dos testes comparticipados, e também nos estamos a aproximar com bastante velocidade da época gripal e, como tal, estamos a preparar a rede das farmácias para dar boa resposta. No fundo, tem existido um equilíbrio entre assuntos mais internos, mas que são importantes do ponto de vista de compromissos eleitorais, e depois tudo o que está relacionado com a atividade normal das farmácias que não pode parar e com os desafios que nos são apresentados. Mas o balanço, de uma forma geral, é positivo, no sentido de que sentimos que estamos a avançar e vamos conseguir cumprir com os prazos que nos tínhamos proposto. 

Nessa altura, tinha dito que nos primeiros 100 dias iam pedir uma auditoria às contas da ANF. Como encontrou as contas da associação?

A auditoria já foi pedida e já foi iniciada. A auditoria não está só relacionada com as contas, está também relacionada com processos e identificar como é que determinados processos foram conduzidos no grupo ANF para identificar oportunidades de melhoria. Os dossiês sobre os quais nos queríamos debruçar foram identificados.

Ainda não sabe como estão as contas da ANF?

Isso sabemos. Temos já as contas praticamente fechadas do primeiro semestre. Confirma-se que a situação de tesouraria do grupo ANF suscita preocupações. Estamos em contacto com a banca para recuperar as negociações que já tinham sido feitas e que já estavam praticamente concluídas em termos de processo de reestruturação da dívida para fazer face a essas dificuldades de tesouraria. Temos algumas questões que ainda estão pendentes e estamos a discutir com a banca para poder finalizar um acordo que seja compatível com as necessidades. Mas as preocupações que foram suscitadas por esta lista estavam mais relacionadas com o acordo que estava a ser firmado pela anterior direção. Confirmaram-se as dificuldades de tesouraria que já estavam identificadas. 

Qual tem sido a resposta da banca?

Da parte da banca tem havido abertura, até porque não se trata de uma situação de falência. O grupo ANF tem ativos importantes e estamos confortáveis com uma negociação equilibrada para fazer face a esta dificuldade de tesouraria que se coloca neste momento. Com uma reestruturação da dívida bancária, que é um instrumento utilizado pelas empresas quando se deparam com este tipo de circunstâncias, teremos um futuro mais confortável e que nos permita continuar a prestar os serviços às farmácias e à sociedade de uma forma sustentável. 

Nestes primeiros meses que feedback tem tido por parte dos associados?

Bom. Claro que estes processos quando se iniciam há sempre uma primeira fase que vai no sentido de conhecer os dossiês para que possamos tomar decisões mais esclarecidas e os associados também percebem esta circunstância. Acredito que estão tranquilos relativamente aos compromissos que assumimos. Vamos organizar já um conselho nacional no próximo mês de outubro e temos um calendário para realizar uma série de reuniões com os associados durante o mês de setembro e aí iremos fazer um ponto de situação mais direto com os associados em relação ao que temos vindo a fazer e quais são as perspetivas futuras. A rede de farmácias sempre foi conhecida pela sua união e é essa união que queremos promover e estamos convictos que irá contribuir para que o grupo ANF também saia mais uma vez reforçado.

Os farmacêuticos tiveram um papel importante durante a pandemia. Um deles diz respeito à realização de testes. Como está a procura?

O nível de procura continua elevado também devido às necessidades em termos de utilização de determinadas infraestruturas, desde a rede de restauração à hotelaria. E além desta questão dos testes comparticipados pelo SNS temos também uma série de municípios com os quais foram estabelecidAs parcerias. Penso que estamos já num momento de maior equilíbrio em termos dA oferta e da procura, mas, como é obvio, na primeira semana em que foi anunciada a comparticipação dos testes assistiu-se a efeitos a partir do dia a seguir à publicação da resolução e houve alguns constrangimentos iniciais em termos de marcação. Também estamos, neste momento, a preparar o lançamento para a população em geral de um instrumento online que permitirá às pessoas agendar o seu teste de uma forma mais rápida, na sua farmácia de preferência. As farmácias que fazem os testes continuam pressionadas e a solução deste agendamento eletrónico poderá aliviar um pouco a pressão, nomeadamente em termos de chamadas. 

Nem sempre há vagas...

Como as medidas que são aplicadas à restauração, aos casamentos e aos batizados, que decorrem, normalmente, ao fim de semana, exigem que o teste tenha sido realizado em determinado período de tempo antes do evento, o que faz todo o sentido, e estamos a falar aqui normalmente de 48 horas, as quintas, sextas e sábados são particularmente pesadas e aí aconselhamos as pessoas a fazerem um agendamento atempado, porque pode ser mais difícil encontrar vagas nesses dias.

Já se falou na hipótese de os testes deixarem de ser comparticipados...

Não temos nenhuma informação e é importante clarificar essa circunstância o mais rapidamente possível, porque as farmácias já têm agendamentos para setembro e algumas até já têm agendamentos para outubro, porque as pessoas têm casamentos, batizados ou viagens marcadas para essa altura. Ao dizermos que os testes estão ao abrigo da comparticipação pelo SNS ou pelos municípios é completamente diferente do que as pessoas saberem que têm de pagar o teste. É uma questão de gestão de expectativas e também foi pedido este esforço às farmácias. Na ANF identificámos várias formas para apoiar os associados nesta realização de testes, houve alterações em termos de recursos humanos, houve farmácias que contrataram recursos humanos adicionais e, como tal, seria muito importante termos informação atempada sobre as expectativas para que as farmácias também possam gerir este processo.

Nem todas as farmácias fazem este tipo de testes....

Exato. E algumas delas ainda se estão a adaptar na expectativa que possam contribuir para este esforço, mas também não nos podemos esquecer que estamos em pleno período de férias das próprias equipas e, por isso, algumas farmácias poderão não ter tido capacidade durante estes meses – particularmente julho e agosto – de participar, mas poderiam ter essa disponibilidade a partir de setembro. 

Foi anunciada a criação de uma bolsa de voluntários de estudantes para apoiar as farmácias. Como está esta iniciativa?

A Ordem dos Farmacêuticos teve a iniciativa de lançar uma bolsa de voluntários, num esforço que foi apoiado pelo próprio Infarmed e, desde logo, as associações de farmácias, nomeadamente a ANF, participaram no sentido de fazer a correlação entre os voluntários e as farmácias. Isso tem sido muito bem recebido por parte das farmácias e por parte dos estudantes de farmácia.

O papel dos farmacêuticos poderia ter sido mais relevante durante a pandemia?

Pensamos claramente que a rede de farmácias tem potencial para poder ser utilizada em vários níveis e potenciar a nossa participação, tanto ao nível da comunicação – das recomendações que, como sabemos, vão sendo alteradas ao longo do tempo e, portanto, as equipas das farmácias estão amplamente capacitadas para ir contextualizando essas alterações e reforçando as recomendações da Direção-Geral da Saúde –, como também nesta questão dos testes antigénio, onde gostaríamos de ser envolvidos, numa fase mais atempada da preparação deste tipo de medidas para que possamos também dar uma resposta mais rápida e mais alinhada com aquelas que são as intenções do Governo. Temos também a questão da vacinação contra a covid-19, em que mostramos a nossa disponibilidade até numa perspetiva de serem necessários eventualmente doses de reforço, etc. Achamos que os centros de vacinação, tal como estão organizados, são estruturas que não são sustentáveis no tempo, ou seja, muito provavelmente não se vão perpetuar e será necessário atempadamente preparar a possibilidade de as farmácias poderem entrar na rede, juntamente com os centros de saúde, para promover as doses, por exemplo, de reforço. Os farmacêuticos têm sido identificados como profissionais que têm dado um contributo importante, o que mais apontamos é a questão do planeamento e do nosso envolvimento na preparação das ações. Agora, também percebemos que muitas das medidas vão sendo tomadas muito dependentes do contexto epidemiológico, que muda todos os dias. Percebemos isso, mas se tivéssemos uma plataforma de diálogo permanente, onde pudéssemos também participar dessas discussões e dessa monitorização da situação epidemiológica, podíamos, desde logo, ir apresentando as nossas recomendações e sermos envolvidos nas soluções. E essa plataforma de permanente de diálogo não existe, ou pelo menos, não nos tem envolvido enquanto associação representativa das farmácias.

Durante este período de pandemia, as farmácias foram o primeiro recurso para muitas pessoas...

Sem dúvida e, muitas vezes, em relação a questões relacionadas com as alterações extraordinárias deste período, em termos de enquadramento legal. Sabemos de muitas pessoas que, por exemplo, tiveram dificuldade de acesso a receitas para continuarem a sua medicação crónica e as farmácias, através da relação que têm com as pessoas, foram adiantando essa terapêutica para que não houvesse falhas. Foram até identificadas uma série de oportunidades de melhoria nessa relação das farmácias com os centros de saúde e com os médicos prescritores para que este tipo de circunstâncias não tivesse um impacto negativo nas pessoas. Mas da parte das farmácias sempre houve essa preocupação de estarmos centrados, acima de tudo, no interesse máximo da pessoa e de encontrar as soluções para garantir a continuidade das terapêuticas, quer através da entrega ao domicílio, quer através da dispensa de medicamentos hospitalares nas farmácias comunitárias. O que esperamos é que dentro deste contexto possam surgir ensinamentos e possam surgir as necessárias adaptações ao quadro regulamentar que nos preparem melhor para este tipo de circunstâncias no futuro, ou seja, para que não sejamos novamente apanhados desprevenidos. 

Prometeu na sua candidatura ‘Um Novo Rumo’. Já existe?

Penso que se nota precisamente nesta questão da separação da área associativa da área empresarial. Neste momento, já estamos a substituir os conselhos de administração das empresas dentro dessa filosofia. Também ao nível da direção, somos pessoas que estão nas farmácias todos os dias, sentimos as necessidades dos nossos colegas na nossa própria pele. E sentimos que o facto de termos essa proximidade ao dia a dia das farmácias também nos permite identificar onde é que estão os principais constrangimentos à atividade e propor soluções.