Internacional

Afeganistão. O mundo e os talibãs

Com a retirada das forças dos EUA o mundo vai-se habituando à ideia de ter de lidar com um Governo de talibãs.


Enquanto o pouco que sobra da resistência aos talibãs é varrido, o mundo vai-se habituando à noção de que é preciso interagir com o novo emirado do Afeganistão.

Se para os países ocidentais negociar com o regime «não significa reconhecimento», nas palavras do responsável pela política externa da União Europeia, Joseph Borrell, a China mostra-se particularmente entusiasmada, mantendo a embaixada em Cabul aberta e prometendo reforçar as relações com o país (ver texto ao lado), e tanto a Rússia como o Paquistão e o Irão também estão no jogo. 

No que toca aos europeus, os critérios básicos para lidar com os talibãs foram deixados claros nesta sexta-feira. A prioridade é garantir salvo-conduto aos aliados e funcionários afegãos para sair do país, bem como a outros que temem pela vida, que a ajuda humanitária – essencial à sobrevivência de milhões de afegãos que dependem dela para aceder aos serviços mais básicos, alimentação e até água – continua a chegar e que se impeça uma nova vaga de refugiados rumo à Europa, como se viu com o eclodir da guerra na Síria – sendo que esta última condição parece poder entrar em contradição com a primeira.

«O nosso envolvimento dependerá do cumprimento destas condições», salientou Borrell, citado pela Associated Press. «Afeta-nos, afeta a região, a estabilidade internacional, e tem um impacto direto na segurança europeia».

Aliás, até a Casa Branca tem sugerido a possibilidade de cooperar com Cabul a nível do combate ao Estado Islâmico de Khorasan, ou IS-K, um grupo rival dos talibãs responsável pela morte de 13 soldados americanos e mais de 150 civis afegãos, num atentado suicida contra o aeroporto de Cabul, durante a evacuação.

A resposta a esse ataque, com o bombardeamento de alvos do IS-K via drone, ilustra bem a promessa do Presidente dos EUA, Joe Biden, de acabar com as longas campanhas de ocupação americanas como no Iraque e Afeganistão – que, de qualquer maneira, já pareciam estar a decair, com cada vez menos tropas empenhadas nesse tipo de operações ao longo da última década – e apostar na continuação da guerra ao terror à distância, com recurso a poder aéreo além fronteiras e pequenas equipas de forças especiais, que entram, matam e desaparecem.

Não deixa de ser um cenário preocupante para os civis afegãos. O último ato da ocupação americana, com drones a bombardear suposto alvos do IS-K, orgulhosamente anunciado pela Casa Branca, afinal, segundo o Washington Post, terá resultado no massacre de uma família inteira, cujo veículo foi atingido, incluindo sete crianças e o seu pai, funcionário de uma organização não-governamental dedicada a distribuir ajuda alimentar em campos de refugiados. «Estamos todos arruínados», lamentou um dos seus familiares, Ramin Yousuf, ouvido pela NBC. «A família desapareceu». 

Resistência

Se para muitos afegãos há um certo alívio pelo fim da guerra, e com a possibilidade que iniciativas diplomáticas mantenham a ajuda humanitária a fluir, para as mulheres que tiveram a coragem de protestar perante o palácio presidencial, nesta sexta-feira, enfrentando cara a cara combatentes talibãs pesadamente armados, a sensação é de desespero. Mas também de desafio.

«Estamos em risco, mas temos de lutar, até morrer. Se o nosso sangue trouxer vida a outras pessoas, é ok para nós», explicou uma manifestante a uma repórter da Euronews, rodeada por dezenas de outras mulheres.  «A nossa liberdade de expressão, resulta do nosso poder», lia-se nos papéis que levavam na mão, enquanto contavam que os talibãs escorraçaram à pancada os homens que apoiaram o protesto, expulsando as mulheres da frente do palácio e dizendo-lhes que o seu lugar é em casa.  

Já no vale de Panjshir, a uns 125 km a norte de Cabul, o vice-presidente Amrullah Saleh continua a resistir, ao lado de Ahmad Massoud , filho do mentor de Saleh, Ahmad Shah Massoud, conhecido como o Leão de Panjshir, antigo líder da Aliança do Norte. Mas a região, onde se juntaram dezenas de milhares de forças apoiantres do anterior Governo, está totalmente cercada, com cada vez mais talibãs a aglomerarem-se em seu redor, com os combates a escalarem esta sexta-feira, avançou a Reuters.