Viver Para Contar

Passagens desniveladas

Nunca soube a razão por que um homem de aspeto saudável se interessava tanto pelos problemas da deficiência, ao ponto de ter um programa exclusivamente dedicado ao tema. Parece que adivinhava o seu destino.


Parece o argumento de um filme, mas infelizmente não é. Na sequência de um documentário que fiz na RTP em 1977, chamado O 25 de Abril, Três Anos Depois, a administração da empresa, presidida por Edmundo Pedro, chamou-me para elogiar o trabalho.

Eu era um colaborador eventual, sem qualquer ligação à RTP, mas fizeram questão de organizar uma reunião plenária da administração para pessoalmente me felicitarem. E umas semanas depois convidaram-me para dar aulas no Centro de Formação da empresa. Criaram para esse efeito uma disciplina que se chamou Escrita Para Televisão. 

Hesitei muito em aceitar. Eu já era arquiteto, trabalhava num ateliê, e o ensino não me seduzia. Mas o convite era tão desvanecedor e foi tão insistente que acabei por aceitar, embora em regime de part-time. Trabalhava no Centro de manhã e no ateliê de arquitetura à tarde.

Estive na RTP três anos, entre 1977 e 1980, e a experiência de dar aulas não foi brilhante. Mas tive ‘alunas’ que viriam a ser famosas, como Margarida Mercês de Melo, Manuela Moura Guedes ou Isabel Baía, e conheci por dentro um meio que desconhecia, o que acabou por ser interessante. 

O diretor do Centro era um engenheiro de nome Jaime Filipe, um homem simpático, que tinha um programa na RTP chamado Novos Horizontes, dedicado às barreiras arquitetónicas que condicionavam as pessoas com problemas de mobilidade.

Nunca soube a razão por que um homem ainda relativamente jovem, de aspeto saudável, se interessava tanto pelos problemas relacionados com a deficiência, ao ponto de ter um programa televisivo exclusivamente dedicado a este tema. 

Num tempo em que quase ninguém falava disso, a que se deveria um interesse tão intenso? Pois bem: depois de sair do Centro, soube que Jaime Filipe teve um grave problema de saúde, julgo que um AVC… e se viu incapacitado para andar e atirado para uma cadeira de rodas. O homem que, enquanto pessoa saudável, tanto combatera a favor dos deficientes, via-se subitamente nessa situação! E confrontado com as barreiras que denunciara durante anos a fio!

Parece que adivinhava o seu destino.

Vem esta história triste a propósito do email que recebi de um leitor, Martins Barata, que reza assim: 

«Ando desde Setembro de 2020 a denunciar junto da Câmara de Lisboa e do Instituto de Infraestruturas de Portugal o abandono a que está votada a Passagem Inferior da Estação de Alcântara (indigna mesmo para um país do 4.º mundo) e a aberrante construção recente da Passagem Superior do Museu dos Coches (Estação de Belém) sem qualquer resposta construtiva daquelas instituições. A CML nada disse, mesmo instada pela Provedoria de Justiça. Não têm qualquer consideração pelos cidadãos pagantes de impostos/taxas e taxinhas que permitem o seu (não) funcionamento.»

A acompanhar o email, Martins Barata anexava o documento enviado às citadas instituições, onde denunciava o estado de enorme degradação da passagem inferior de acesso à estação ferroviária de Alcântara (Linha do Estoril), com escadas rolantes avariadas há 20 anos, e os problemas relativos à passagem superior de acesso à estação de Belém e ao Cais Fluvial, junto ao novo Museu dos Coches: demasiado alta, com um elevador em local errado, etc.

E acrescentava: «Soube que o Plano de Recuperação e Resiliência contempla 45M€ para as questões de mobilidade mas se não houver fiscalização (nomeadamente pela Associação Salvador) eles esfumar-se-ão por redes de lóbis/amigos».

Há muito tempo que pensava escrever sobre este tema das passagens desniveladas, sobretudo das superiores. 

Além das escadas para acesso dos peões, elas dispõem de rampas para as pessoas em cadeiras de rodas.

Ora, estas rampas constituem um quebra-cabeças urbanístico, pois ocupam uma área enorme e têm um impacto estético brutal. E, cumpre acrescentar, são um pouco humilhantes para os utilizadores, que têm de andar às voltas, para trás e para diante, ou em espiral, para vencer a altura.

Para evitar estas situações, pensei que seria muito mais fácil (e até económico) instalar elevadores. Acabar com as rampas e instalar elevadores. Claro que teriam de ser aos pares, para haver sempre um funcional. Um estaria a uso e o outro em stand by – com um sistema em que, mal o primeiro se avariasse, o segundo entraria automaticamente em funcionamento, dando ao mesmo tempo um alerta para a empresa de manutenção com vista à sua reparação imediata.

A ideia era tão simples que, para não estar vulgarizada, deveria ter algum problema que eu não estaria a ver e a inviabilizasse. Sucede que, numa viagem aos EUA, observei-a em vários locais. E não me dei conta que levantasse problemas.

Em vésperas de eleições autárquicas, aqui fica uma sugestão aos candidatos a presidentes e vereadores. Abandonem os complexos, inestéticos e pouco funcionais acessos em rampa às passagens superiores, que às vezes nem sequer são viáveis no espaço disponível, e instalem elevadores nas condições apontadas – solução mais amigável urbanisticamente e mais cómoda para os utilizadores.

E, já agora, apelo aos candidatos à Câmara de Lisboa para terem em conta a reclamação do leitor Martins Barata sobre as passagens de Alcântara (inferior) e Belém (superior). O engenheiro Jaime Filipe, se ainda, cá estivesse, também agradeceria.