Hoje Escrevo Eu

A Rua da Piscina

Sejamos objetivos, quando os presidentes das duas maiores câmaras do país não levam para casa 3000 euros por mês (contando com cerca de 1000 euros de despesas de representação) e gerem orçamentos da ordem das centenas de milhares de milhões de euros – sendo que Lisboa ultrapassa mesmo os mil milhões –, espera-se o quê?


A campanha (ou pré-campanha) para as eleições de 26 de setembro tem sido fértil em iniciativas disruptivas com o propósito de dar nas vistas, ganhar notoriedade ou simplesmente provocar os adversários.

Umas mais patéticas do que outras, como é normal, tal como as mensagens dos milhares de cartazes que de norte a sul do país supostamente promovem os candidatos às câmaras e assembleias municipais e às juntas de freguesia.

Os debates televisivos também não ajudam à mobilização dos eleitores, porque os candidatos caem sistematicamente nas frases feitas, nas promessas vãs ou nos discursos ocos.

São, na sua esmagadora maioria, pouco qualificados.

É o que há.

É o que temos.

Sejamos objetivos, quando os presidentes das duas maiores câmaras do país não levam para casa 3000 euros por mês (contando com cerca de 1000 euros de despesas de representação) e gerem orçamentos da ordem das centenas de milhares de milhões de euros – sendo que Lisboa ultrapassa mesmo os mil milhões –, espera-se o quê?

E se os vereadores ganham 80% do vencimento bruto do presidente (ou seja, no caso de Lisboa e do Porto 2800 euros brutos mais 600 de despesas de representação – o equivalente ao que Miguel Sousa Tavares acha que ganha um jovem em Portugal) e decidem sobre projetos de muitos milhões e também os gestores das empresas municipais têm os respetivos vencimentos indexados à mesma tabela, por que razão nos haveríamos de admirar?

Com certeza não seria pelo vencimento que se usava dizer que ser eleito presidente ou vereador com determinada pasta era o mesmo que ganhar o euromilhões, o totoloto e a lotaria, tudo junto e sobejando mais do que o suficiente para distribuir por familiares, amigos e clientelas.

Por isso também se diz que os mais qualificados só concorrem às autarquias quando têm ambições políticas ou quando têm espírito de missão e outros rendimentos que lhes permitam o sacrifício em nome da res publica.

De outro modo, não há milagres: ou são o que são ou vão ao que parece que vão.

E enredam-se em jogadas, manobras e querelas políticas que pouco servem as populações.

Veja-se o exemplo de uma bem recente polémica de campanha: numa daquelas iniciativas muito mais para as redes sociais e para o espaço mediático do que propriamente para o eleitorado local, o PSD do Seixal resolveu ‘rebatizar’ um conjunto de ruas do concelho com o objetivo anunciado de o libertar do comunismo.

A discussão no espaço público – nas redes sociais e nos media – centrou-se na resposta de comunistas e socialistas a oferecer tareia aos autores da pilhéria e destes a responderem com pedidos de proteção e queixas-crime e com explicações de que apenas tinham utilizado papel para cobrir as verdadeiras placas e foi só para ‘o número’, porque logo trataram de as destapar.

A questão essencial da toponímia, com nomes de ruas e praças repetidas ou sem qualquer relação com a terra, ninguém discutiu nem quis debater.

É que este não é um problema do Seixal, nem da Margem Sul. É um problema comum a todo o território nacional, seja no continente ou nas ilhas.

Na Madeira, o Aeroporto Cristiano Ronaldo provocou reações, mas a verdade é que o jogador é, de longe, o português mais falado em todo o mundo e que projetou também o arquipélago à escala global.

Já em Lisboa, não se percebe por que razão o aeroporto foi batizado com o nome de Humberto Delgado, mas ninguém se incomodou com isso.

Aliás, não faltam praças, avenidas e ruas país fora com o nome do general, independentemente de este ter ou não ter alguma relação com as terras – ao ponto de dar também nome à Praça que fica nos Aliados, ladeada pela Avenida dos Aliados, no Porto, sem verdadeiramente se perceber muito bem qual é.

Como não se entende por que razão são também às centenas as praças, avenidas e ruas da República, 25 de Abril, 1.º de Maio, da Liberdade, Luís de Camões ou Elias Garcia.

Não há personalidades, figuras, acontecimentos históricos, culturais, até desportivos ou patrimoniais que diversifiquem e enriqueçam a toponímia e a identidade das terras?

Que raio, não há ruas da Piscina aos pontapés?

Mário Soares, por exemplo, dá nome a praças, avenidas e ruas na Amadora, em Oeiras, na Póvoa do Lanhoso e até no Funchal, mas só tem uma placa com o seu nome em Lisboa num bocadinho de jardim do Campo Grande, em frente à casa onde viveu, na Rua Dr. João Soares, seu pai.

Não há nexo. Sobram os clientelismos e as obediências políticas e outras no pensamento de quem decide.

Sem grandeza, sem lógica, sem cultura.

País fora. A toponímia é tudo menos o que devia ser. Mas é o que há. E, pela amostra, o que vamos continuar a ter.

 

Partiu Jorge Sampaio. Democrata. Humanista. Estadista. E um Homem Bom.