Opiniao

O Príncipe da Nova Esperança

 Moedas conquistou algo que nem Marcelo Rebelo de Sousa, numa campanha sui generis conseguiu quando foi candidato ao município da capital, contra Jorge Sampaio, em 1989. O seu feito político é muito maior do que a então inesperada vitória autárquica que Rui Rio teve sobre Fernando Gomes, no Porto, em 2002, ou até a fugaz passagem de Santana Lopes, em Lisboa.


Por José Miguel Bettencourt

Jurista

Na noite eleitoral autárquica, o Pântano não existiu. Em vez desse desfecho, surgiu uma nova reserva moral da política portuguesa e da esfera da social-democracia nacional: Carlos Moedas. O ímpeto vitorioso que alcançou tornou-o um príncipe da nova esperança colocando-o num patamar muito à frente do seu tempo. Ganhou, por mérito próprio, o estatuto de político de dimensão superior, onde o verdadeiro poder não é recebido, mas conquistado.

Surpreendeu a política e os políticos, contrariou sondagens e previsões, comentadores, académicos e jornalistas. A sua vitória ficará registada como um marco na história democrática, podendo representar o início de um novo ciclo político, na medida em que alterou a expectativa das forças partidárias, levou por um lado, ao atual inquilino de São Bento a sentir-se amedrontado (talvez vislumbrando um cenário entre a provocação de uma crise política  imediata ou a inevitabilidade de uma remodelação governativa de horizonte limitado), por outro, obrigou Belém a rever a agenda política que tinha como previsível e até a considerar que o mandato da legislatura vigente chegará ao fim, “se isso for possível”, e já em São Caetano à Lapa fez com que se ganha-se uma certeza: Moedas tem o peso de tudo influenciar. Nasceu um novo líder, com um significado muito especial, e que representa um dos ativos mais sólidos da política atual. A sua ascensão meteórica faz lembrar, em certo sentido, a de outros nomes, de percurso surpreendente, que se tornaram grandes na política nacional. O historiador Freire Antunes escreveu um dia sobre um dos maiores, o “meteoro da década de 80”, referindo-se a Francisco Sá Carneiro.

A presença de Carlos Moedas em campanha e no contacto direto com os cidadãos, percorrendo ruas e casas durante longos meses, revelou-se genuína e fez a diferença numa era de cinzentismo eleitoral e político.

Na verdade, Moedas conquistou algo que nem Marcelo Rebelo de Sousa, numa campanha sui generis conseguiu quando foi candidato ao município da capital, contra Jorge Sampaio, em 1989. O seu feito político é muito maior do que a então inesperada vitória autárquica que Rui Rio teve sobre Fernando Gomes, no Porto, em 2002, ou até a fugaz passagem de Santana Lopes, em Lisboa. Esta vitória deu-lhe legitimidade para decidir alcançar tudo o que quiser ainda ser, definindo o melhor caminho a seguir. Lisboa será agora o seu quartel-general, onde irá investir todo o seu capital político. É o alvo das maiores expectativas dos lisboetas e dos portugueses, em geral, o que aumenta as responsabilidades que o aguardam.

Mas como chegou Moedas até aqui? A “sorte”, por vezes, dá muito trabalho. Carlos Moedas sabe bem disso, daí nunca ter desperdiçado as oportunidades que a vida lhe foi dando. O seu percurso profissional e académico é, em grande parte, a resposta a esta pergunta. O seu trajeto político já o vinha orientando para um promissor desfecho. Soube ir construindo o seu caminho fora do circuito da política partidária, nunca dependendo dela. Seguiu uma máxima cada vez mais distintiva, “estar na política, apesar da política”. 

Foi um dos mais jovens secretários de estado da presidência e um dos mais jovens comissários europeus. Quando, em 2015, se torna comissário europeu, representando Portugal na Comissão Europeia, depressa demonstra competência, domínio dos dossiês, revelando estar à altura de tais desafios, destacando-se como um dos mais promissores comissários entre os seus pares. Liderou, de forma enérgica, uma pasta responsável pela gestão de muitos milhares de milhões de euros, que envolveu a Ciência, Tecnologia e a Inovação Europeia. Já antes, em 2011, aceitara ser candidato à Assembleia da República, como deputado, pelo distrito de Beja, superando com mestria esse difícil combate. Ao abdicar da sua missão na Fundação Calouste Gulbenkian, onde era recentemente administrador, para abraçar uma improvável vitória como candidato à Câmara de Lisboa, Moedas deixou para trás o conforto de uma vida realizada. Convenceu-se de que seria possível vencer, de que há valores por que vale a pena lutar. Acreditou genuinamente na sua vontade, tinha uma ideia e delineara um projeto ambicioso, mas possível para Lisboa, defendendo o que acredita ser o melhor para a cidade. 

Os amigos mais próximos descrevem-no como um homem especialmente bem-humorado, de trato fácil e próximo, humanista convicto, com grande verticalidade e honestidade intelectual, atento ao detalhe, estudioso e conhecedor do mundo. Do resultado que obteve, podemos já tirar ensinamentos úteis para fazermos as mudanças tão desejadas na forma de fazer a política, onde prevalece uma dose grande de incompreensão da realidade do país e ainda uma certa resistência e acomodação à mudança de paradigma, ao acreditar ser possível vencer, arriscando.

O novo Presidente de Lisboa encontra uma cidade em que, nos últimos anos, se acentuaram consideráveis níveis de desigualdade, de pobreza, de exclusão social, em que se assistiu à fuga de multinacionais, investimento e empresas nacionais, à escassez crescente de postos de trabalho, ao afastamento dos jovens e das famílias para as periferias, em que se penalizou a classe média e os menos favorecidos. Em bom rigor os lisboetas decidiram aplicar a lei de Gresham, optando por escolher a boa moeda, em detrimento de uma má moeda (que há muito vinha desvalorizando). Foi esse o julgamento consciente que os eleitores fizeram.

Ultrapassado o difícil caminho de assegurar uma governação para a Câmara Municipal Lisboa, a seguir virá o cabo da boa esperança.

A ação promissora de Moedas pode ajudar Lisboa a reencontrar a dimensão necessária para se afirmar como capital entre capitais, transformando Lisboa numa cidade verdadeiramente cosmopolita, moderna e virada para o Futuro.