Opiniao

O que se joga no Mar da China?

Serão os chineses tão diferentes de nós que não lhes interesse a liberdade? Em que se baseia Guilherme Valente para tal afirmação? 


Por António Manuel de Paula Saraiva, Arquiteto paisagista

O que se joga hoje no Mar da China? Eis o título de um interessante artigo de Guilherme Valente publicado neste semanário, e que merece alguma reflexão.

1. Que se passa no Mar da China?  Embora tal seja o título do artigo, o seu autor não diz o que aí se passa – limitando-se a considerar o problema de Taiwan, e considerando que tudo se deve às «interferências dos EUA».
Ora, no Mar da China desenrolam-se dois processos:

– O primeiro é que a China construiu pequenas ilhas artificiais em águas internacionais no Mar do Sul da China, e passou a considerar este mar como seu, afrontando os desejos/direitos dos outros países que o circundam – Filipinas, Vietname, Brunei, Indonésia, Malásia e Taiwan;

– O segundo é que a China pretende recuperar Taiwan, uma ilha habitada por 23 milhões de chineses mas de facto independente e separada da China Continental desde 1949 – final da guerra civil entre comunistas e nacionalistas. Sucede que a maioria dos habitantes de Taiwan não quer fazer parte da China Continental (detalhe que para o governo chinês é irrelevante).

Assim – estamos em presença de um processo histórico já muitas vezes repetido: as grandes nações sempre tentaram apoderar-se das nações mais fracas ou dos seus recursos.

2. Sendo história velha, parece que este artigo não se justificaria.

Mas uma frase no texto de Guilherme Valente fez disparar as minhas defesas: «Com o significado que lhe atribuímos, a expressão, ‘liberdade’ não diz nada a 95% dos chineses e ‘igualdade e fraternidade’ cultivaram-nas muito antes de nós. Para os chineses, a divisa não foi ‘liberdade, igualdade, fraternidade’, mas ‘riqueza, poder e honra’ » (1).

3. Ora, serão os chineses tão diferentes de nós que não lhes interesse a liberdade? Em que se baseia Guilherme Valente para tal afirmação? É verdade que, historicamente, parecem ser mais acomodados do que os europeus: a China é um país único, enquanto a Europa está dividida em 50 países! Mas isso são águas passadas. Quando os chineses puderam escolher a liberdade, escolheram-na inequivocamente:

– Em Hong Kong, elegendo maioritariamente deputados defensores da democracia (o que levou a China, numa primeira fase, a não permitir que tomassem posse deputados eleitos, e numa segunda fase – cortando o mal pela raiz – a submeter os candidatos a uma aprovação prévia (!);

– Em Taiwan, em que o partido mais votado não só não advoga a união à China como promete resistir pela força em caso de invasão.

4. É que a ‘liberdade’ não é uma ‘invenção’, nem se deve aos ‘americanos’. O artigo 1.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos assim reza: «Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos». 

O anseio da liberdade é tão básico que não se limita aos humanos – existe também nos animais.

A liberdade, no fundo, é a possibilidade de exprimirmos o nosso ‘ser’, e quem não aspira a ela não ‘é’.

5. Aliás, se analisarmos a própria trilogia indicada por Guilherme Valente (´riqueza, poder e honra’), encontramos o anseio de liberdade. A China era até há pouco assolada por fomes periódicas, e a maior parte dos homens e mulheres vivia plantando arroz na lama, ou fazendo de animais de carga (a força animal quase não era usada). Hoje a situação é, felizmente, melhor; mas a antiga vivência não pode deixar de ter ficado inscrita no subconsciente do povo – e ser rico, ter poder, é ter a liberdade de escapar a essa triste sorte. Foi o medo de novas fomes que levou à ‘Lei do Filho único’, segundo a qual os casais só poderiam ter um filho (lei aprovada em 1980 e só em 2015 revogada). 

6. Permita-me o leitor que avance mais um pouco. Ao defender-se que a China, um grande e antigo país, funciona perfeitamente sem liberdade e atinge tão bons resultados no campo económico, social e tecnológico – no ano passado enviou com sucesso uma sonda para Marte –, pode induzir-se a ideia de que a liberdade é dispensável. Mas admito que tal não tenha sido a intenção de Guilherme Valente. 
 
(1) É duvidoso pensar que na China fosse muito prezada a ‘igualdade’. De facto, segundo o confucionismo, doutrina oficial nesse país durante mais de 20 séculos, a harmonia era baseada no dever de cada um aceitar o seu lugar nas diferentes relações: os filhos deviam obediência aos pais, o irmão mais novo ao irmão mais velho, a esposa ao marido, os jovens aos mais velhos, os súbditos aos governantes. E quanto a ‘fraternidade’, o conceito equivalente chinês era ‘benevolência’, uma atitude não entre iguais, como a fraternidade, mas de quem tem poder face a quem não tem.