Sociedade

António Vaz Carneiro: "Com o mesmo dinheiro da covid-19 podíamos curar a maioria dos cancros"

Segunda-feira, às 20h, António Vaz Carneiro abre o mestrado de epidemiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa com uma aula sobre a pandemia de desinformação científica na covid-19. Crítico sobre a forma como foi gerida a crise, fala sobre o lado irracional que tomou o debate e sobre a maior frustração: não se colocar o mesmo esforço na prevenção e cura de doenças cardiovasculares e cancro. 


Compreendemos o que ouvimos e lemos? É a pergunta que dá mote à aula que vai dar esta segunda-feira na Aula Magna. A covid-19 vem mudar os manuais? 

Sim e não. A comunicação em Medicina é algo estudado há muitos anos. Há muita preocupação dos sistemas de saúde de tentar comunicar com os cidadãos. Por cidadãos entendemos as pessoas que têm saúde, os doentes, os familiares, os jornalistas, as associações. Se alguém tem Alzheimer, é muito melhor se os doentes e cuidadores conhecerem bem a doença. Uma pessoa com doença coronária beneficia imenso em saber o que deve ou não deve fazer.

E falta de literacia já era uma das preocupações pré-covid.

Sim, em todo o mundo. Sabemos que a comunicação de dados em saúde é difícil. Ao longo dos anos tenho-me concentrado na parte da investigação clínica e em como transmitir às pessoas estudos que têm consequências para os doentes. E mesmo sem falar da biomédica básica, temos estudos cada vez mais complexos, cada vez mais informação e portanto chegamos a uma tempestade perfeita em que a nossa capacidade de compreender aquilo que nos está a ser dito é muito pequena perante a complexidade.

Na covid-19 isso foi levado ao expoente da loucura, com novas informações todos os dias.

A covid-19 nesse sentido trouxe os problemas a que já estávamos habituados e trouxe problemas novos. Se nós não soubermos o que é uma taxa, se disser que a taxa de infeção da covid-19 baixou de 13% para 10% ninguém percebe o que estou a dizer. As pessoas ficam com uma vaga ideia e tecem as suas considerações em função disso. Se perguntasse à maior parte das pessoas como interpretam o facto de uma vacina ser 95% eficaz, dirão ‘é fácil: se 100 doentes apanhavam covid-19, vacinando-os só apanham cinco’, quando não é nada disso. 

Significa o quê?

Pensando por exemplo num ensaio da Pfizer: olharam para perto de 43 500 pessoas e dividiram-nas em dois grupos: 21 700 receberam as duas doses da vacina e as outros um placebo. Ao fim de dois meses de seguimento, os não vacinados tinham 162 infeções, uma incidência de 162 casos por 21 700, enquanto do outro lado eram oito casos por 21 700. Portanto houve uma redução de 95% da incidência nos vacinados. O que é que isto nos diz? Duas coisas. Que a incidência é relativamente baixa nos vacinados mas que as pessoas vacinadas também se infetam, infetam-se é menos. Claro que depois temos resultados importantes na redução de internamentos, severidade, mas a pessoa vacinada continua a ter risco. Qual é o risco? Oito em 21 700. E isto é alto ou baixo? Baixo. Por exemplo ,imaginemos o estádio da Luz, que leva cerca de 60 mil pessoas, mais ou menos três vezes esta amostra. Se as condições fossem idênticas às do ensaio, ao fim de dois meses, se nenhuma pessoa do estádio fosse vacinada, teríamos 480 casos de covid-19. Se vacinar todas as pessoas, são 24 casos no mesmo período. Avaliar o risco em função deste tipo de dados, quando são ditos de forma abstrata, é difícil de transmitir à população e de compreender.

Foi particularmente problemático no caso do risco de tromboembolismo associado às vacinas da AstraZeneca e Janssen.

É preciso ver que a segurança preocupa muito as pessoas, a efetividade nem tanto. Temos um mundo de risco. Mas quando calculamos o risco, o que temos é um conceito estatístico, diz-nos a probabilidade de alguma coisa acontecer. Se eu comprar um bilhete do Euromilhões, arrisco-me a ganhar o Euromilhões. Em Saúde, o risco é sempre negativo, não tem conotações positivas, o que torna ainda mais difícil comunicar. Ter um fator de risco é uma conceptualização de que determinada situação aumenta o risco de ter uma doença. A pessoa vai ter aquela doença? Não sei. O risco tem sempre três dimensões: primeiro temos de o medir. Na covid-19 ou fora da covid-19, já o fazemos muito bem. A segunda é comunicá-lo e aí já falhamos.

Porquê?

Não sabemos comunicar de uma maneira clara, transparente e percetível e as pessoas não têm conhecimentos estatísticos. A terceira dimensão é a gestão do risco, que depois acaba por estar ligada à perceção que as pessoas têm do risco. Porque é que a gestão da covid-19 foi feita desta maneira? Porque as pessoas todas entraram em pânico e portanto fez-se uma gestão adaptada ao pânico.

É um círculo vicioso: perante o medo, tenta-se reduzir ao mínimo o risco e as pessoas tendem a ser cada vez menos tolerantes.

Absolutamente. Portanto neste momento acredito que muitos políticos e responsáveis gostariam de acalmar as pessoas e dizer que esta fase está ultrapassada, que com as vacinas as consequências vão ser muito menores mas não vamos ver isso. Em novembro, dezembro, se houver mais um pico, fica logo tudo em pânico e já estamos outra vez a ir para casa, apesar de estar toda a gente vacinada.

Vê forma de o contrariar?

Falando... Mas hoje no caso da covid-19 não há possibilidade de contrariar. Esta é a minha opinião pessoal. Haverá quem ache que sim, eu acho que não é possível. Penso que na covid-19 se criou uma situação singular, em 40 anos da minha vida profissional nunca tinha visto tal coisa. Há 25 anos que me dedico à comunicação de saúde e sempre achei que tinha o dever ético de comunicar com os jornalistas e com o público, voltando ao início, até porque foi havendo cada vez mais estudos que mostravam que, quanto mais nós conhecemos as nossas doenças, melhor é o nosso prognóstico. Até há estudos com idosos em que aqueles que conhecem bem a doença, conhecem bem os seus medicamentos, sabem identificar os efeitos adversos, morrem mais tarde. Portanto é essencial que façamos este esforço para comunicar com os doentes aquilo que é relevante. Isto é uma ideia bondosa, mas na prática é difícil e na covid-19 tornou-se um problema.

Estávamos formatados para o fazer na doença crónica, não numa doença aguda como foi esta. 

Certamente, a doença aguda não abre geralmente grande espaço para comunicação, mas estamos em pandemia há mais de um ano e meio. Mesmo antes da pandemia já havia enormes mitos, crenças terríveis em torno da saúde que criam uma enorme confusão. E agora tivemos o mesmo problema: não só as pessoas não estão muito preparadas para entender estimativas probabilísticas de doenças como as pessoas que comunicam não comunicam bem e juntam-se todas essas crenças e mitos, de que as pessoas são vacinadas e ficam cheias de eletromagnetismo, etc. E é natural: seria estranho que este massacre que foi feito ao longo de ano e meio em todo o mundo não trouxesse este lado de loucura, em que as pessoas inventam a torto e a direito coisas, o que já acontecia.

Quando diz massacre, é uma crítica?

Sim. Massacre no sentido de uma comunicação não filtrada nem cuidada. Não estou a dizer que não é compreensível, mas esperava mais dos media. E esperava mais porque acho que já atingiram um nível de maturidade muito grande, sabem como comunicar doença. Tenho visto um aperfeiçoamento notável da vossa profissão para comunicar coisas complexas. Há 20 anos, a vossa capacidade de explicar o que é uma bomba atómica, uma alteração climática, era incomparável. Pelo que para mim foi um pouco chocante, ainda que percebendo a importância do que estava a acontecer, ver como a covid-19 foi tratada e a maneira deliberadamente alarmista como foi representada.

Assaca essa responsabilidade aos media?

Para mim em parte os principais responsáveis são os media, são quem chega a todos. Claro que há outros responsáveis, mas estava à espera de melhor. Os media em geral, não é só em Portugal. E penso que nesse sentido criámos um problema que, para o resolver, vamos ver-nos e desejar-nos.

Mas também foram os media a ter de lidar com vazios de informação, de tentar mostrar a pressão que havia nos hospitais, as dificuldades das equipas.

Sem dúvida, mas não deixo de achar que a covid-19 não devia ter sido comunicada como foi.

Nesta aula vai apresentar uma série de exemplos de notícias insólitas. Criou uma biblioteca só para a covid-19?

Procurei guardar exemplos para um dia destes tentar comparar o que se faz quando se fala de cancro e quando se fala de covid-19, ou quando se fala de doenças cardiovasculares e covid ou do sarampo e de covid-19. Não é preciso lembrar o drama que foram os movimentos anti-vacinas no sarampo, sem atingir estas proporções. Quero um dia tentar compreender onde é que aconteceram as diferenças fundamentais que provocaram uma dissonância entre aquilo que os media habitualmente fazem e aquilo que foi feito na covid-19, não só na maneira como foi comunicado mas na intensidade. A reação coletiva e a forma como isto foi gerido é de tal maneira extraordinária que acredito que ainda estamos no princípio da compreensão do que se passou.

Ouvimos o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde a descrever a covid-19 como inimigo público número 1. Não foram os media que compararam a covid-19 a uma guerra. O exagero, nesse sentido, não foi exclusivo dos media.

É verdade, há muitos Governos a nível mundial que encararam isto de uma forma simbólica como se fosse uma guerra. Não é e nem sei se ajuda considerar que isto é uma guerra. É uma epidemia, um problema de saúde pública. A própria Organização Mundial de Saúde corrigiu muito daquilo que inicialmente disse e é preciso lembrar que ao inicio tínhamos também muito pouca informação. Tínhamos o que se estava a passar numa cidade chinesa, que de repente fecha. E essa é uma das minhas interrogações. Estou à espera que um dia se consiga perceber o ponto de início da forma como se reagiu à crise, onde nasceu a noção de que um confinamento podia ser uma solução para este problema.

Foi em Wuhan?

Foi em Wuhan mas a segunda responsabilidade foi do Governo italiano. A partir do momento em que eles fecham, temos fechos em cadeia.

Foi uma decisão tomada na Lombardia com os hospitais num caos. Havia alternativa?

Mas porque é que estavam nessa situação? Penso que são essas questões que temos de conseguir colocar. A população do Norte de Itália é a população mais envelhecida da Europa, a segunda ou terceira população mais velha do mundo. É a que mais fuma na Europa, 28% ou 29% são fumadores. É onde existe maior resistência a antibióticos, por exemplo. E o Governo fez naquela altura uma coisa suicidária, mesmo que não soubesse, que foi emitir uma ordem para que qualquer suspeita de covid-19 fosse para hospitais terciários ou universitários. Moral da história: estavam apinhados os hospitais universitários e terciários e a 200 quilómetros os hospitais estavam vazios. E a imagem que vinha era de facto de uma catástrofe e foi com essa imagem que se fechou, mas não era isso que nos devia levar a fazer uma coisa tão grave como um confinamento, que afeta profundamente toda a gente. Se funcionar tudo bem, não sou eu que vou discutir isso, o que na altura não tínhamos e hoje ainda temos é estudos sobre qual é o verdadeiro beneficio do confinamento pesando os riscos e em que subclasses da população pode haver ou não benefícios em confinar.

Na altura havia o racional de que isso poderia erradicar o vírus. Falava-se de uma estratégia de supressão, que no fundo se mantém na China.

E na Austrália, com Melbourne há quase oito meses fechada. É impossível pensar em eliminar o vírus.

Se é impossível, porque é que se pensou que poderia ser viável?

Voltamos ao mesmo ponto. Vivemos uma situação de tal modo singular que as opiniões técnicas e científicas da covid-19 estão revestidas de um lado pessoal e emocional que não estamos habituados normalmente a ver.

Pelo impacto da doença?

Será isso mas haverá mais qualquer coisa que é difícil explicar. Há um artigo particularmente interessante (Moralization of Covid-19 health response: Asymmetry in tolerance for human costs) com dois estudos, um americano e outro neo-zelandês. Resolveram perguntar aos cidadãos em confinamento se, do ponto de vista moral, o desvio de recursos de doentes não covid para doentes covid era justificado e, no caso do estudo neo-zelandês, se um conjunto de dados objetivos que contrariavam a ideia de eliminação do vírus era aceite pelas pessoas. O que vimos é que, no primeiro caso, as pessoas claramente priorizam a covid-19, mesmo quando lhes dizem que o impacto disso nos doentes não covid-19 é quatro ou cinco vezes maior. As pessoas admitem que sim, mas apoiam o desvio de recursos para doentes covid-19. No caso do estudo neo-zelandês, as pessoas, convictas das suas ideias sobre a covid-19, consideram que a eliminação do vírus era fundamental mesmo perante dados que dizem o contrário e, além disso, havia uma dimensão moral nessa convicção. E é isso que se torna interessante: há uma posição moral que diz que esta doença atinge sobretudo desfavorecidos, gente mais idosa, mais imunossuprimida e mais pobre – e portanto a minha opinião tem uma superioridade moral à de dados técnicos que me possam dizer que a abordagem de supressão talvez não funcione e portanto é melhor ajudar as pessoas a enfrentar isto de outra maneira. Chama-se a isto ‘moral cleansing’ (limpeza moral), que é eu atribuir à minha posição, que devia ser objetiva e técnica, uma superioridade moral. A consequência é, perante isto, que nunca alterarei a minha posição e entendo que as pessoas que me contrariam são moralmente corruptas. Diziam os autores deste trabalho, e eu concordo, que esta é uma característica típica do pensamento religioso.

A estratégia de supressão não vai poder de qualquer maneira manter-se para sempre, com sucessivos confinamentos.

Sim, seria um problema descomunal. Mas esta religiosidade nas opiniões em saúde é que é um fenómeno novo na covid-19. Qualquer que seja a posição, quer pró-máscaras quer anti-máscaras, quer pró-confinamento quer anti-confinamento, quer fechar escolas ou não, está revestida de uma intensidade moral que pura e simplesmente impede o diálogo.

Não é uma marca de outras questões contemporâneas, das discussões sobre clima, sobre género?

Talvez, mas na covid-19 mesmo quando mostro dados objetivos as pessoas ficam cegas para aquilo que vai contra as suas convicções e estão de acordo com o que segue as suas convicções. E isso foi uma situação complementa nova.

Será um erro voltarmos a confinar?

A única coisa que posso dizer sobre isso é que na biblioteca de artigos sobre covid-19 tenho uma pasta sobre medidas não farmacológicas e uns 40 estudos sobre confinamento. Destes 40 estudos, 38 mostram a devastação que o confinamento provoca em várias áreas, na saúde mental, na pediatria, nas resposta a problemas cardiovasculares, na oncologia e depois tenho dois estudos matemáticos que mostram os benefícios. Portanto o que digo é que não tenho provas de um benefício do confinamento que me levassem a recomendar uma medida tão extrema como solução e tenho uma série de estudos que mostram o impacto negativo. Perante isto, acho que temos de ter uma posição sensata e pensar no que se pode fazer. Para um confinamento generalizado parece-me, na minha perspetiva, não haver até agora nenhuma prova boa. Há modelos matemáticos, sim, mas como sempre defendi que as decisões em saúde sejam tomadas com base na melhor evidencia possível, o que posso afirmar é que neste momento não sei se o confinamento funciona ou não.

Faz mais sentido cercas sanitárias?

Não sei. Numa revisão da Cochrane há seis meses estudaram-se uma série de medidas, analisando os estudos que havia para as justificar. Achei interessante por exemplo perceber a evidência que havia para a medida de as pessoas serem testadas no aeroporto e impedidas de entrar no país se não fizessem uma quarentena. Havia oito estudos a nível mundial, dos quais três ou quatro eram modelos matemáticos – que vale o que vale, porque os modelos matemáticos enganam-se dramaticamente, o que se percebe porque tentam projetar o futuro com base nos dados de agora – e outros quatro estudos observacionais em pequenas comunidades. E repare então que estamos a tomar uma medida que interfere com milhares e milhares de pessoas com uma sustentação científica que eu jamais aceitaria para tratar doentes. Não tratava ninguém com este tipo de evidência. Perante isto, o que pergunto hoje é porque é que ainda não temos mais estudos e avaliações das medidas tomadas? Não sei.

Seria possível ter esperado por estudos robustos antes de tomar decisões?

No início não, mas agora devia haver. Neste ponto devíamos ter a certeza absoluta do que é que um confinamento faz, uma avaliação. E se devemos confinar toda a gente ou certos grupos. É como as máscaras, quais são os benefícios. Até acho que as mascaras funcionam, mas a maneira como as pessoas utilizam as máscaras elimina facilmente esse benefício... Máscaras no queixo, três meses no bolso. É completamente absurdo. Mas tudo isto é uma coisa de tal maneira importante, impactou de tal maneira a nossa vida, que já devíamos ter mais análise. Costumo dizer que quanto mais complexa e impactante for a recomendação, maior quantidade de evidência tem de haver para a justificar. Percebo que se faça ao início, mas nesta altura já é diferente. Já sabemos quase tudo sobre o vírus, está toda a gente vacinada, o mundo mudou. Vão continuar a morrer pessoas com o coronavírus, vão, mas não podemos agir sem evidência.

Concorda com quem defende que já estamos na fase de circulação endémica do vírus?

Sim. O que sabemos é que muito provavelmente o coronoavírus vai-se transformar numa doença que teremos todos os invernos, em paralelo com a gripe. No ano passado não houve gripe, estava tudo em casa, lavava as mãos, usava mais a máscara, mas possivelmente teremos as duas.

Mesmo assim com todas as medidas houve covid-19, o que mostra a contagiosidade do vírus. No início também houve quem dissesse que era só uma gripezinha. Não foi aí que começou a polarização, que se começou a falar de negacionistas? 

Mas aí está uma classificação que mostra aquilo que falámos antes, a intolerância moral sobre opiniões diversas. O negacionismo é um insulto a meu ver particularmente grave. As pessoas que foram chamadas negacionistas eram historiadores que negavam o Holocausto. Acontece nos anos 70, quando um grupo de pessoas diz que não é possível terem desaparecido milhões de judeus, tenta negar os campos de concentração com uma aura de cientificidade que não tinham. Portanto é um insulto grave, no caso da covid-19 usado rapidamente para classificar as pessoas, como um conceito moral que a certa altura passa também a ser político. Quem não é de acordo é negacionista, quem não é de acordo é de direita. Hoje temos na minha perspetiva um grande nevoeiro, cada vez mais dados, cada vez mais difíceis de ler, e a ideia que tenho acima de tudo é que não estamos a usá-los para tirar o máximo benefício. Acho que, se tudo correr como se pensa, a doença vai ter progressivamente menos impacto, mesmo sendo uma doença endémica, mas as pessoas vão continuar a ter medo e daqui a dez anos quando se falar de um inverno em que há um novo coronavírus, as pessoas dão um pulo da cadeira. 

Mas em todo o caso, a covid-19 não foi uma gripezinha. Essa desvalorização inicial não contribuiu para que algumas pessoas achassem que a pandemia era uma fraude? Não é possível não se ser nem tanto ao mar nem tanto à terra? 

Sim. É uma doença mais grave do que a gripe, não só porque mata imediatamente muito mais gente mas também porque temos efeitos crónicos. A gripe não tem efeitos crónicos. Alguns doentes ficam com aquilo a que chamamos o síndrome pós-viral, com um cansaço extremo, alterações neurológicas mas não é habitual, é raro. Aqui parece ser uma percentagem significativa dos doentes. Algumas séries chinesas falam de 20% a 25% de doentes com covid longo, outras séries europeias falam de 10% a 13% de pessoas que ficam muito afetadas, acima de tudo com alterações neurológicas de compreensão, raciocínio, memória.

Isso foi surpreendente?

Há muitas infeções virais que o provocam. É uma reação cruzada imunológica que vai atingir o sistema nervoso central para tentar ajudar o organismo a debelar o vírus, o que muda na covid-19 é a frequência. E para mim essa é a principal novidade neste vírus.

Falava da responsabilidade dos media. Nos recortes de notícias que vai apresentar nesta aula na segunda-feira leem-se conclusões como os carecas terem um risco 40% maior de serem internados com covid-19, a covid-19 pode diminuir o tamanho do pénis. A ciência também perdeu o norte?

É uma questão importante sobre a qual também devemos refletir, o que a covid-19 fez à produção cientifica biomédica. Houve inicialmente uma baixa dramática de exigência em termos de qualidade dos estudos e muitos foram inclusive retirados. Depois houve uma tentativa de criar evidência rapidamente, quebrando etapas. Em vez de fazermos um grande estudo sobre a hidroxicloroquina na covid-19, há 80 pequeninos estudos. Oitenta estudos com 15 mil doentes não é igual a termos um estudo com 15 mil doentes.

Mas para que serve saber que os carecas têm maior risco?

Perde-se a cabeça completamente. Um dos estudos mais engraçados que vi foi que as pessoas que andam mais devagar apanham mais covid-19.

A certa altura o financiamento virou-se todo para a covid-19. Foram os cientistas a mostrar trabalho para terem financiamento?

Esse é um aspeto importante. Em alguns casos talvez, mas o facto é que de repente houve mais dinheiro para a covid-19 do que para qualquer doença em toda a história da humanidade. Nunca se tinha investido tanto dinheiro no estudo de uma doença.

Está quantificado?

A última vez que vi estava estimado em 90 biliões de dólares (77,9 mil milhões de euros). No cancro ou na malária gasta-se todos os anos uma fração disso. E muito deste dinheiro foi dinheiro público! Até morrer nunca deixarei de ter uma frustração muito grande porque gostaria de meter esse dinheiro naquilo que mata verdadeiramente as pessoas. Estou convencido de que com 90 biliões de dólares todos os anos, ao fim de cinco a dez anos se curava a maioria dos cancros. Hei de ir para a campa com esta frustração.

Não o teria colocado na covid-19?

Tinha, mas temos de conseguir ver outras prioridades. A covid-19 matou 5 milhões de pessoas. As doenças cardiovasculares matam 17,9 milhões de pessoas por ano, um terço das mortes globais. Mas o que é que podemos concluir: quando há dinheiro, os resultados aparecem. A covid-19 teve vacina em seis meses. A indústria farmacêutica é extraordinária, é só uma questão de financiar os estudos. Agora houve um grande desvio das outras áreas e nos próximos anos temo que haja menos inovação nas doenças cardiovasculares, no cancro, nas doenças neurológicas, nos antibióticos.

No caso das vacinas de MRNA, diz-se no entanto que com o avanço dado pela covid-19 pode haver novas soluções no caso do VIH.

E do cancro também, sem duvida. Mas o dinheiro não estica. Houve um momento no ano passado em que 98% dos ensaios clínicos estavam parados por causa da covid-19. 

Como avalia o papel das farmacêuticas? Houve oportunismo?

Comportaram-se como era esperado. As farmacêuticas é que sabem fazer investigação e desenvolvimento de medicamentos. Na academia damos modelos, mas quem escala são as farmacêuticas. Vamos supor que é dona de uma fábrica de automóveis e digo-lhe: a partir de agora vou-lhe pagar para me fazer ambulâncias. Transforma a linha de produção para ambulâncias. Alguém vai dizer que está a fazer a coisa errada? Está a fazer o que lhe foi pedida. Aproveitou uma chance e fez um bom trabalho. Sem indústria não tínhamos vacinas e foi uma ocasião que nunca mais vão ter. 

Neste momento o que é que o preocupa mais?

As doenças cardiovasculares e o cancro. Este inverno preocupa-me que tenhamos gripe mais agressiva. No ano passado não houve, os miúdos não se imunizaram, estamos bastante mais virgens. Como morrem por ano cerca de 1800 com doentes com gripe, poderão vir a morrer mais pessoas mas espero que não saia muito disso.

Nas outras doenças, que relatos lhe chegam até do hospital?

Tivemos doentes que não foram tratados, os rastreios do cancro estiveram parados. Houve uma consequência imediata: o aumento da mortalidade dos doentes não covid. Agora temos que evitar que as doenças não foram seguidas progridam. E este trabalho é muito difícil de fazer porque o SNS está a tentar aguentar a produção normal mas tem um enorme atraso para recuperar. Ouvimos relatos de cancros avançados em gente jovem, descompensações cardíacas inesperadas, avanços rápidos de complicações de diabetes, da asma, em pessoas que não se trataram neste período, coisas que não se viam há muito tempo. 

Já se tinha ligado o stress ao cancro. O período que vivemos pode contribuir para esses quadros?

Não lhe sei responder, mas o impacto na doença mental foi devastador. Estamos a falar de pessoas com doenças mentais incipientes que estavam equilibradas e descompensaram brutalmente. Um dos campos onde é preciso fazer o maior esforço possível é na saúde mental. Temos muitos doentes novos. Mesmo nas escolas, há muitos estudos que mostram que as crianças ficaram mais perturbadas do que podemos crer. A máscara não deixar ver a boca, por exemplo, causa até défices de aprendizagem ao nível da linguagem, o miúdo não consegue perceber o que fazer para dizer cavalo. Se os skills de linguagem estiverem atrasados, a aprendizagem é atingida. Quando está no primeiro ano não é bem a mesma coisa, no segundo ano não é bem a mesma coisa e por aí fora.

É uma geração que vai ficar marcada?

Vai, podemos fazer muito, mas vai. Mas isso não são só os miúdos, é toda a gente.

Voltando ao início, é um tempo que vai ficar nos livros, não só nos de epidemiologia.

Sim, vai haver milhares de teses, da antropologia, das ciências sociais. Acho que o impacto global da doença, foi modesto, mas há um impacto social enorme. Não podemos comparar com a pneumónica que era um vírus diferente e aconteceu numa altura em que havia uma deterioração profunda das condições socioeconómicas, não havia antibióticos. Penso que só podemos fazer avaliações no fim. Para mim, se me perguntam o que foi mais extraordinário foi a simplicidade com que metemos centenas de milhões de pessoas em casa. Pela primeira vez na história da humanidade confinámos pessoas saudáveis. Há exemplos na peste nos séculos XII e XIII em que aristocratas que teriam fechado os seus castelos mas são os únicos. Em abril de 2020 a Organização Mundial de Saúde estimou que estava 45% da população mundial em casa. Esta experiência não controlada, generalizada, com impactos que não fomos capazes de perceber, é o que para mim é mais impactante.

Que mensagem deixará aos seus alunos nesta aula? 

O cuidado que temos de ter quando comunicamos e acima de tudo o dever ético de nos documentarmos com todo o cuidado antes de emitirmos as nossas opiniões. E no fundo a ideia é esta: será que podemos montar para o futuro um sistema de comunicação que provoque menos dano na sociedade e que as pessoas entendam como credível? Sabendo que, no fim do dia, as pessoas acreditam no que querem. As pessoas acreditam em coisas extraordinárias, é irresistível. Na Idade Média pensava-se que os trovões eram a cólera de Deus. Vieram os cientistas e disseram “não, não, é a eletricidade”. Fica-se muito contente mas ao mesmo tempo um pouco nostálgico: não é maravilhoso viver num mundo em que Deus fala connosco através de uma trovoada? Foi como quando Hipócrates e Galeno há 25 séculos definiram que aquela coisa que esta senhora tem na perna é uma doença, não é uma maldição de Deus e deve ser um médico a tratá-la e não um sacerdote. Gostamos de pensar que somos muito avançados mas muitos dos nossos medos são medos primordiais. E isso aqui exacerbou-se. Não é o medo da doença cardiovascular ou da alteração climática que vem mais tarde, é o imediato, invisível e que ataca quando menos esperamos.

O receio bem descrito na Peste de Albert Camus. Também releu neste período? 

Sim, descreve Oran como um sítio fechado e no fundo como é que as pessoas se adaptam. E nesse sentido acho que, apesar de tudo, a população encarou razoavelmente bem. E se vamos ter outra coisa igual no futuro, veremos, que teremos outras epidemias claro que sim.

Temos a certeza que a qualquer altura os ratos podem vir morrer a uma cidade feliz, como escreve Camus.

Diria que, nesse sentido, estou mais otimista. Estamos muito mais bem treinados para tudo o que vier aí nesta área. Mas, ao mesmo tempo, estamos a ficar mais velhos, com maior esperança de vida e o que nos deve preocupar é como é que esta população cada vez maior se vai relacionar com este tipo de doenças.