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Biblioteca Pessoal: Estaline e o homem de Estalinegrado

O ditador não apreciava o trabalho deste jornalista demasiado objetivo. A antipatia era mútua.


A Batalha de Estalinegrado será sempre recordada como um dos momentos decisivos da II Guerra Mundial. É sinónimo de sacrifícios inimagináveis, de combates selváticos e de uma resistência heroica. Começou com 600 aviões alemães a largarem bombas sobre aquela cidade na margem do Volga, a 23 de agosto de 1942. Dois meses depois, em outubro, um oficial alemão descrevia o que restava: «Estalinegrado já não é uma cidade. De dia não passa de uma enorme nuvem de fumo que nos cega. Quando a noite chega, tórrida, sangrenta, os cães mergulham no Volga e tentam nadar desesperadamente para a outra margem. As noites de Estalinegrado são um terror para eles. Os animais fogem deste inferno… só os homens resistem».

Se resistiam… Os soviéticos tinham de cumprir à risca a famosa Ordem n.º 227, dada por Estaline à aproximação dos alemães: «Não recuar nem um passo!». Mas Hitler também estava obcecado em tomar a cidade. Somando as duas partes, as baixas foram de cerca dois milhões de homens, entre mortos, feridos, desaparecidos ou capturados.
A assistir a tudo isto estava um repórter de 36 anos chamado Vassili Grossman, enviado especial do Krasnaïa Zevzda (Estrela Vermelha), o jornal oficial do Exército Vermelho. Depois de testemunhar a ofensiva alemã perto de Kiev e de Moscovo, Grossman foi enviado para o palco do grande confronto entre nazis e soviéticos, acabando por ser o jornalista que mais tempo ali passou. Os seus textos eram lidos com avidez tanto pelos soldados como pelos civis, e levantavam a moral de uns e outros.

«Todos os correspondentes da frente de Estalinegrado ficaram estupefactos com a forma como Grossman tinha levado o comandante da divisão, o general Gourtiev, um siberiano taciturno e reservado, a falar-lhe durante seis horas, sem uma pausa, num dos momentos mais difíceis da batalha», escreveria David Ortenberg, o diretor do Krasnaïa Zevzda. Grossman tinha o dom de se entender tanto com os generais como com os soldados rasos. Um dos seus segredos para conquistar a confiança de todos era não usar gravador. Registava a conversa na cabeça e mais tarde, enquanto os outros descansavam, apontava tudo em blocos de notas – o que, aliás, era proibido.

Essa experiência daria origem ao grande romance Vida e Destino, cuja primeira parte, justamente intitulada Estalinegrado, acaba de ser publicada em Portugal pela D. Quixote. Vida e Destino tem sido descrito como o Guerra e Paz do século XX: curiosamente, Grossman leu o livro de Tolstoi durante a Batalha de Estalinegrado, por duas vezes.
Estaline, no entanto, não apreciava o trabalho deste observador implacável que se recusava a seguir os ditames do realismo socialista. A antipatia, diga-se, era mútua.

Vida e Destino acabou por só ser publicado em 1980, em França. A edição russa teria de esperar pelo degelo de Gorbachov. Anos mais tarde, também em França, foram publicados textos dos seus cadernos de guerra (Carnets de Guerre – De Moscou à Berlin, 1941-1945, Le Livre de Poche, 2007). Depois de Estalinegrado, Grossman ainda esteve na batalha de Kursk, o maior confronto de tanques da História, na libertação do campo de concentração de Majdanek, na tomada de Varsóvia e na queda de Berlim. Custa a acreditar que um homem tenha testemunhado e sobrevivido a isto tudo. Mas há quem acredite que ter sobrevivido a Estaline é ainda mais digno de espanto.

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