O Mundo em Calções

No plaino abandonado...

A fotografia correu a Itália - enquanto todos os jogadores erguiam a mão na saudação fascista, Bruno Neri manteve os braços em baixo

No plaino abandonado...

Gostava de poesia. Como vice-comandante do Battaglione Ravenna, com o nome de guerra Berni, em julho de 1944 estava de arma na mão junto à famosa Linea Gótica, a Gotenstellung, uma operação defensiva montada pelos exércitos de Hitler que ligava o Tirreno ao Adriático, desde a província de Massa-Carrara até às províncias de Pesaro e Urbino, erguida para deter o avanço inexorável dos Aliados, linha que tirava proveito do terreno inóspito dos Apeninos ao longo de mais de 300 quilómetros.

Tinha 33 anos. Que jovem era... «(Agora que idade tem?)/Filho único, a mãe lhe dera/Um mome e o mantivera/‘O menino da sua mãe’». Tinha nascido em Faenza, zona de Ravenna na Emiglia-Romana no dia 12 de outubro de 1910. Desde miúdo que gostava de poesia, que procurava nos cafés os escritores da terra e devorava as palavras que lhe ensinavam, deixando-se fascinar pelo ritmo das odes e das baladas.

Podia ter escrito livros, levava jeito para isso. Mas houve aquele apelo da bola, a mágica senhora das paixões. Apelo que encanta como sopros de sereia aos quem nem Ulisses conseguiu resistir se não amarrado ao mastro principal do seu navio. Terzino: é assim que chamam em Itália ao jogador mais defensivo do meio campo. Inteligente, arguto, dizia para si próprio e para os que com ele dividiam o campo: «Antes de receber o passe já é preciso saber o que fazer com a bola». Aos 18 anos, a Fiorentina ofereceu dez mil liras por ele. Foi.

Na Itália fascista de então, desconfiavam de Neri. Os que o espiavam e faziam relatórios sobre os seus comportamentos demasiado estranhos para um jogador de futebol, sabiam que era possível encontrá-lo diariamente no Caffè Giube Rosse, um centro da intelectualidade fiorentina da época. A polícia secreta de Mussolini tinha dificuldade em perceber porque é que Neri era tão bem aceite por aquela gente das letras e das filosofias infinitas. Era um contestatário. Espalhava fogueiras pelas mesas, alimentadas pela gasolina das emoções. Levantava a voz e criticava Il Duce. Era pouco mais do que um adolescente mas sabia o valor da liberdade.

No dia 10 de setembro de 1931, Luigi Ridolfi Vay de Verrazzano, um fidalgo fiorentino que fundara o clube e o levara até à IDivisão, estava feliz. Cumprira o sonho de construir, a custas próprias, um estádio digno de uma grande equipa. Tinha lugar para mais de 45 mil espetadores e uma arquibancada coberta por um dossel. Convidou os austríacos do Admira Viena para a festa de inauguração.

E deu-lhe um nome: Giovanni Berta. Nome maldito. Giovanni Francesco Berta, a quem chamavam de Gianni, era filho de um pequeno metalúrgico que combatera na I Grande Guerra e se tornara uma figura do Fasci Italiani di Combattimento. A 21 de fevereiro de 1921, no dia que se seguiu ao ataque anarquista ao Palazzo Antinori, Berta pedalava tranquilamente sobre uma das pontes que liga as duas margens do Arno quando foi atacado por um grupo de jovens comunistas que o mataram a facadas e lançaram o corpo ao rio. Talvez se ouvisse ao longe a área de Gianni Schicchi, de Puccini, Mio Babino Caro: «Sì, sì, ci voglio andare/E se l’amassi indarno/Andrei sul Ponte Vecchio/Ma per buttarmi in Arno/Mi struggo e mi tormento/O Dio, vorrei morir...».

A Fiorentina teria, assim, um estádio com o nome do Mártir da Revolução Fascista, como Berta passou a ser conhecido. Mas se era de uma manifestação de paixão fascista que todos estavam à espera nessa tarde de 10 de setembro, Bruno Neri não estava definitivamente para aí virado. Alinhados no meio do terreno, ladeando a equipa de arbitragem, todos os jogadores ergueram o braço direito com a mão estendida naquilo que simpaticamente se apelida de saudação romana mas que era, na verdade desse tempo, a saudação fascista também adotada pelos nazis na Alemanha. Todos, todos, não!

Bruno Neri manteve, corajosamente, os braços ao longo do corpo. A sua pequena figura ganhou, nesse momento preciso, uma dimensão tremenda. Era ele contra milhares, era ele contra Mussolini, era ele e a sua consciência. A seu lado estavam, pelo menos em pensamento, os camaradas do Caffè Giube Rosse, o poeta Eugenio Montale e o escritor Carlo Bo. A fotografia correu a Itália.

Quando se tornou membro da ORI, Organização Italiana da Resistência, por influência do primo Virgilio Neri, Bruno ainda calçava as chuteiras no Torino e, depois, de regresso ao Faenza, aos domingos, mas partia para as montanhas de espingarda aperreada pela escuridão da noite em movimentos subversivos, coligindo informações sobre as posições dos exércitos de Mussolini e realizando ações relâmpago de sabotagem. O dia 10 de julho de 1944 calhou a uma segunda-feira.

Na véspera, o seu Faenza perdera com o Bolonha. Neri furava por entre os pinheiros no Monte Lavane em busca de um trilho de aproximação às forças nazi-fascistas aí colocadas. Junto ao Eremitério de Gamogna foram abatidos de surpresa por um batalhão alemão. Na manhã seguinte era apenas um cadáver trespassado no plaino abandonado que a morna brisa aquecia.

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