Internacional

Ucrânia. Sanções chegam para fazer Putin inverter o rumo à guerra?

Ao longo dos últimos anos, o Governo russo tem apostado numa política austeritária, com pouco endividamento, deixando-o menos vulnerável face a sanções.


Com países membros da NATO a anunciarem uma barragem de sanções ao Kremlin, em retaliação pelo reconhecimento das repúblicas separatistas no leste da Ucrânia, todos se questionam se estas manobras farão Vladimir Putin pensar duas vezes antes de uma eventual invasão.

É um cenário que já pareceu mais distante, num momento em que a Ucrânia - cujo Presidente, Volodymyr Zelensky, tem repetidamente negado antever uma guerra, talvez receoso do impacto do pânico na economia - entrou em estado de emergência, com os EUA a anunciar que o Kremlin tem 100% das tropas que precisa para uma invasão em posição de avançar.

A questão é que a Rússia parece pronta para a pressão económica que isso acarretaria. Não só pode contar com o apoio de aliados como a China, como há muito que se prepara para a possibilidade de enfrentar sanções. E, no que toca dar um aperto ao círculo mais próximo de Putin, muito dependerá do Reino Unido, que se tornou um dos sítios favoritos dos oligarcas russos para estacionar o seu dinheiro.

Contudo, pelo que temos visto ser apresentado pela comunidade internacional até agora, “estas sanções são pouco fortes para o objetivo pretendido”, avalia Sandra Fernandes, professora na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho (EEG), especializada em Relações Internacionais, ao i.

“Qualquer tipo de sanção que de facto não venha a prejudicar os interesses empresariais das grandes corporações russas - estamos a falar de oligarcas, mas também de grandes empresas como a Gazprom ou a Rosneft - muito dificilmente farão mudar o rumo de Putin”, explica.

Até agora, as únicas medidas nesse sentido têm sido a suspensão do NordStream2, um gasoduto cuja construção foi concluída em setembro, unindo a Rússia à Alemanha através do mar Báltico - fica a perder diretamente tanto o gigante energético russo Gazprom, que pagou metade da obra, como a ENGIE, uma empresa francesa, e a Shell, uma empresa britânica, que pagaram a outra metade da obra. Ainda assim, “importa contrabalançar com o facto de que existe o NordStream 1, e que esse está a funcionar”, ressalva Fernandes. “Não sei até que ponto esta medida é tão nociva a médio, longo prazo”.

Na prática, além das sanções diretas contra as autoproclamadas Repúblicas Populares de Donetsk e Luhansk - consideradas pouco eficazes, dado que estas são praticamente dependentes economicamente da Rússia - ainda tivemos vários bloqueios à venda de dívida russa.

A isto somam-se as sanções europeias contra quase quatrocentos dirigentes ligados à decisão de reconhecer os separatistas. Alguns nomes sonantes juntaram-se à lista esta quarta-feira, como o ministro da Defesa, Sergei Shoigu, o responsável pela modernização das forças armadas russas, assim como Yevgeny Prigozhin, considerado o chefe por trás da Wagner, uma empresa de mercenários que faz o trabalho sujo do Kremlin à escala global, ou Maria Zakharova, a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que ainda há uns dias troçou da “ilusão” de que o Ocidente não imporia sanções à Rússia, quer esta avançasse contra a Ucrânia ou não. 

A isto somam-se sanções americanas contra dois bancos estatais, o VEB e o Promsvyazbank, enquanto o Governo britânico sancionava este último, mais outros quatro bancos, junto com três bilionários russos. Mais uma vez, falamos de pesos-pesados nos círculos do Kremlin. Nomeadamente Gennady Timchenko, (que tem uma fortuna avaliada pela Forbes em 18 mil milhões de dólares), um velho amigo de Putin, dos tempos em que este era dirigente municipal em São Petersburgo. Bem como Boris Rotenberg (com uma fortuna avaliada em 1,2 milhões de dólares), cujo irmão foi um companheiro de adolescência de Putin, nas aulas de judo, e o seu sobrinho Igor (com uma fortuna de 1,1 mil milhões de dólares).

Contudo, no que toca ao Reino Unido, ainda haveria muito por onde pegar. Afinal, os oligarcas russos apreciam tanto Londres que o luxuoso bairro de Chelsea - repleto de mansões onde estes passam as férias, mantêm as suas famílias, ou que simplesmente compram como investimento - chegou a ser alcunhado como “Moscovo sobre o Tamisa”. Estima-se que nenhuma outra cidade no planeta armazena tanto ouro russo quanto a capital britânica, além de ser na bolsa londrina que estão registados algumas das maiores empresas russas. 

Só os conglomerados dedicados à mineração e energia registados em Londres - incluindo gigantes como a Gazprom ou a Rosneft, que têm o Kremlin como acionista maioritário - pagaram o equivalente a mais de 45 mil milhões de euros em impostos à Rússia em 2020, segundo uma análise do Guardian. É quase o suficiente para financiar o custo anual das forças armadas russas inteiras, que foi de menos de 50 mil milhões em 2019.

Entretanto, o Governo britânico - que é acusado de se apresentar como defensor da linha dura contra o Kremlin como manobra de diversão perante a quebra de popularidade de Boris Johnson, devido às festas durante o confinamento em Downing Street - tem-se mostrado vago quanto às sanções exatas que aplicaria. Levantando até alguma preocupação do outro lado do Atlântico. “O receio é que o dinheiro russo esteja tão entrincheirado em Londres, que a oportunidade para o usar como margem de manobra contra Putin se possa perder”, explicou uma fonte diplomática americana ao Times, no final do mês passado. 

O facto de o Kremlin já se ter preparado para essa eventualidade não ajuda, claro. “Há que não esquecer que a Rússia se está a preparar para este momento há bastante tempo”, lembrou a professora na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho. “A preparação também incluiu o trabalho de Putin junto das elites económicas russas para que redirecionassem os seus bens financeiros e imobiliários para fora da Europa”.

“A mesma coisa se passa com o acesso aos mercados financeiros. A Rússia está confortável quanto à sua dívida externa e tem reservas financeiras, pelo menos a curto prazo, para resistir às sanções”, salienta. Se é verdade que o país enfrenta uma dura crise económica, com uma elevada inflação nos últimos tempos, e um crescimento económico abaixo dos 2% mesmo nos três anos antes da pandemia, “o Estado russo é pouco endividado, contrariamente a Portugal”, explica a professora. “O PIB russo nem tem crescido muito precisamente pelo rigor orçamental que a Rússia tem vindo a aplicar precisamente como preparação para sanções internacionais”.

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