O mundo em calções

Uma pint de cerveja para um homem morto

Ao ser o primeiro a correr a milha abaixo dos 4 minutos, Roger Bannister tornou-se no estreante do livro de recordes Guinness.

Uma pint de cerveja para um homem morto

Roger Gilbert Bannister, em certa fase da sua vida membro da Order of the Companions of Honour, da Most Excellent Order of the British Empire e dos Fellows of the Royal College of Physicians, podia ter toda esta tralha dependurada a seguir ao epíteto de Sir, como medalhas a tilintar, mas não era nenhum saloio, bem pelo contrário. Tinha um toque de poeta (nada de especialmente grave) e outro de médico (afinal de médico e de louco todos nós temos um pouco). Um dia, correndo a caminho de casa (tinha-me esquecido de avisar o estimado leitor que o homem adorava correr), surgiu-lhe um pensamento tão profundo que correu ainda mais depressa para poder apontá-lo no seu caderninho de notas: «A Terra parecia mover-se comigo. E eu encontrei uma nova fonte de poder e beleza, uma fonte que eu nunca soube que existia». Pois bem, só o próprio poderia interpretar a enigmática frase, mas ficamos certos de que andou por ali a rondar uma epifania. 

Nascido em Harrow, a noroeste de Londres, no dia 23 de março de 1929, Roger era um aplicado estudante de medicina, na especialidade de neurologia, quando, com 23 anos, viajou até Helsínquia para participar nos Jogos Olímpicos de 1952. Na altura, para os ingleses, era o grande favorito à medalha de ouro dos 1500 metros, mas também é preciso entender que de cada vez que um inglês ganha uma medalha, seja do que for, sente que está a fazer um favor à medalha. Infelizmente para ele, nem ao bronze chegou. Chegou em quarto. A prova ficou para a posteridade como uma das mais dramáticas da história das Olimpíadas. Josy Barthel, do Luxemburgo, ganhou por um pescoço, batendo o recorde olímpico, mas os sete homens que o seguiram também bateram o antigo recorde. Até Roger, com um tempo de 3m46s.

A frustração fê-lo matutar nos erros que cometera. Basicamente tinha deixado de se treinar intensamente nos seis meses que antecederam os Jogos, segundo uma filosofia muito particular de que deveria poupar-se e não desgastar-se. Pensou seriamente em desistir de correr e dedicar-se apenas à profissão quando teve outra das suas visões miraculosas. Apareceu-lhe num sonho Sydney Charles Wooderson, conhecido por ‘The Mighty Atom’, o homem que tinha batido o recorde do mundo da milha em 28 de agosto de 1947, estabelecendo um registo de 4.06.4. Sidney, que era míope, e foi por isso dispensado o serviço militar, entrou na IIGrande Guerra pela porta do cavalo, juntando-se aosRoyal Pioneer Corps, combatendo nas ruas de Londres os ataques aéreos dos Messerscmidt de Göring com uma antiquada espingarda nas mãos. Internado durante vários meses graças a uma febre reumatoide, os esculápios mais sábios diagnosticaram que dificilmente voltaria a andar direito, quanto mais correr. Como já puderam perceber, os clínicos que rodearam Wooderson enganaram-se redondamente e Roger acordou na manhã seguinte com a ideia fixa de se tornar no primeiro homem do planeta a correr a milha abaixo dos quatro minutos.

Como qualquer bom inglês, Roger não desprezava uma bela pint de lager ou de stout, ligeiramente morna, de preferência. Um dos seus grandes amigos era Chris Chataway, que trabalhava na Cervejaria Guinness, emPark Royal, Londres. Combinaram ambos um método de treino que conduziria Bannister até ao mítico recorde da milha, e marcaram o momento mágico para o dia 6 de maio de 1954, num meeting a disputar na arruinada pista de atletismo da Universidade de Oxford entre uma equipa de alunos e a Amateur Athletic Association. Chris apresentou Roger a Norris McWhirter, que seria o cronometrista, e a Sir Hugh Beaver, o dono da cervejaria que, entretanto, perante o entusiasmo dos jovens, decidiu que o momento ficaria registado como o primeiro recorde de um futuro livro de recordes precisamente chamado Guinness, como não podia deixar de ser.

Chattaway iria correr também, mas apenas como marca-passos de Roger. Bannister tomou desde logo a dianteira, mas ia pouco confiante. Sentia que estava a impor um ritmo demasiado lento. Na verdade estava com uma passada perfeita e cumpriu a primeira metade da prova em 1m58s. Ao perceber a hesitação de Bannister, Chris passou para a frente e arrastou Roger consigo. O povo levantou-se nas bancadas, seguro que estava à beira de presenciar algo de inédito. As vozes de incentivo fizeram-se ouvir quando Chattaway se deixou ultrapassar pelo amigo que disparou para a meta e a cruzou com o tempo de 3.59.04. Estafado, deitando os bofes pela boca, proferiu uma sentença que os jornalistas que o rodearam não desprezaram: «Médicos e cientistas disseram que era impossível correr a milha abaixo de quatro minutos e que alguém morreria na tentativa. Assim, quando me levantei da pista, depois de desabar na linha de chegada, percebi que estava morto». Não estava. E o seu nome foi o primeiro a entrar para o Guinness, como prometido por Sir Hugh. 

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