Arroz de Gambozinos

A vida é ainda

Ainda se conhece a beleza das Azenhas do Mar pela primeira vez, ainda se vive amor pela primeira vez, ainda se prova lampreia à bordalesa pela primeira vez...

A vida é ainda

Uma das coisas boas de ser-se novo é ainda haver um montão de coisas para se fazer pela primeira vez. Ainda se conhece a beleza das Azenhas do Mar pela primeira vez, ainda se vive amor pela primeira vez, ainda se prova lampreia à bordalesa pela primeira vez. A palavra ‘ainda’ surge como que uma bomba-relógio indicadora de que ainda há algo, mas que esse algo está em vias de terminar, levando consigo a palavra quando assim for. «Ainda há rissóis?». «Há-os, ainda, mas estão prestes a acabar» – e aí, findos os rissóis, o ‘ainda’ explode e a coisa fica-se por ali.

(os rissóis são as nossas vidas).

Aqui chegados, a sugestão mais razoável, parece-me, será a de criar tantos ‘aindas’ quanto possível. Criar ‘aindas’ é criar vida. E criar ‘aindas’ está aberto a qualquer idade, pois ser-se novo é sê-lo de espírito. O João, que tem 70 anos, tem tantos ‘aindas’ por gastar como o José, que tem 25. Os ‘aindas’ do José talvez sejam mais óbvios: ainda vai ter filhos, ainda lhe vão morrer os pais, ainda vai comprar um descapotável a prestações. Mas, nem por isso, o João, que é mais velho, tem menos ‘aindas’ do que o José: a vida é tão deliciosamente infinita que, por mais imaginação, tempo e vontade que tenhamos, nunca a conseguiremos saborear toda. E é por isso que os ‘aindas’ são infinitos e que, enquanto formos vivos, a vida também o é.

Li um dia que um escritor japonês centenário estava a começar a aprender sueco. Ainda estará? Se sim, está vivo: porque ainda tem ‘aindas’ por cumprir. O Jotta está a construir uma casa de férias não sei onde. Ainda estará? Se sim, está vivo: porque ainda tem ‘aindas’ por cumprir.  Numa gala do IPO, o Miguel Araújo cantou a sua música Ainda estamos aqui. Ainda que com cancro, ainda que em sofrimento, ainda que com incerteza, estão: ali. Ainda há ainda; ainda há vida. A vida é ainda.

Existir é ter-se um milhão de ‘aindas’ guardados no bolso para se gastar por aí. Quanto mais ‘aindas’, mais vida: «ainda não provaste o bacalhau de São João de Rei?», «ainda não conheces Ronda?», «ainda não olhaste com atenção para as letras do Reininho?». Ter-se ‘aindas’ para gastar é ter-se vidas para gastar. Os gatos nascem com sete vidas, nós nascemos com uma infinidade de ‘aindas’.

(e, por isso, nascemos com mais sorte do que os gatos).

Mais facilmente se acha a vida triste do que bonita. A beleza precisa de músculo para o ser, já à tristeza basta-lhe um pano rasgado. Para ser-se triste qualquer coisa dá, para ser-se feliz é preciso conseguir pôr o peão a rodar. Os ‘aindas’ ainda serão muitos pela vida fora. E nem todos serão a almoçar bacalhau em São João de Rei: muitos serão em cemitérios, salas de hospital, salas de pensamentos («ainda pensas nela?»). 

Mas ainda estamos aqui: «ainda estamos na praia», «ainda estamos apaixonados», «ainda estamos vivos».

(tic-tac-tic-tac).

Venha o senhor ceifeiro. Enquanto ele não vier, enquanto o ‘ainda’ ainda for, estaremos vivos. Para sempre vivos, para sempre infinitos. Para sempre ainda.

Sintra, 11 de Abril de 2022

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